“Basta, Cidade de Deus; soa, trombeta de Gabriel;
Ai, mas como o mundo demora em morrer!”
Carlos Fuentes, in Aura
Pelo que eu sei, Magno mal bateu a porta do carro, motivo de orgulho, virou-se para seu prédio. Passou ligeiro pela recepção e subiu pelas escadas rumo ao sexto andar. Evitou marcar qualquer encontro com alguma mulher bonita. “Nada de baladas, nem sacanagens, por esta noite”. Ele tinha acordado pensando na chamada da noite anterior, saído do trabalho mais cedo e voltado para casa. Tudo devido a uma visita que faria um pouco mais tarde à sua tia. Não é que a velha soube ser bastante persuasiva? Ela soube acordar sentimentos já apascentados com anos de análise e uma rotina bastante corrida. “Venha logo, filho. Você sabe que nós, os velhos, não podemos esperar muito depois de uma certa idade”, ela disse. “Me lembro de quantas vezes minha mãe precisou deixar-me ainda menino com ela pois precisava trabalhar naquela loja. Apesar do rigor da ditadura eu só tinha a parte boa. A primeira década sempre me trouxe boas memórias da infância e a segunda, da adolescência. Titia sempre procurou suavizar a falta que eu sentia de mamãe. E conseguia quase sempre. Tia Stella foi minha segunda mãe, foi quem me deu carinho de verdade”, ele pensou.
Neste momento, noutro apartamento, bem menor e mais modesto, a senhora tão magra quanto idosa praticamente pairava no chão da cozinha. Andava rápido como uma formiga construindo seus castelos de areia. Os cabelos cinza-azulados, ela não tinha mais o cuidado de esconder os cabelos brancos, e as pequenas calvícies aqui e ali. Há muito tempo não se preocupava em restaurar a cor, quase loura, dos fartos cabelos da juventude ou iludir-se com o espelho. A velha andava rapidamente a despeito da fragilidade, escorada pelos aromas das carnes, das ervas, dos legumes, da refeição que ela preparava para o sobrinho. Um prato francês, seu famoso ragôut. “O ensopadinho”. O penoir cor de marfim amarelado, metaforseado numa segunda pele flutuando sobre o corpo seco da senhora era delicado o suficiente para receber visitas - de uma simplicidade bonita que caía nela como uma roupa de festa infantil. “Tia, tenho saudade. Quero vê-la logo”, ele me disse. “Por que não hoje à noite? Venha, estarei te esperando com aquele velho álbum de fotografias que você não suporta mais. Em compensação farei aquela comidinha que só você sabe dar valor”. “Tia, não se subestime, seus dotes de cozinheira só são comparáveis à beleza daquela moça, com sua voz suave, que me cantava cantigas que ainda hoje surgem nos meus sonhos e pensamentos distantes. Está combinado então, irei”. “Venha querido, dar um pouco de afeto à sua velha tia rabugenta”.
Mais tarde, quando me mudei para o Leme, no começo ainda trazia doces, camisas, porta-retratos depois parou e disse que a distância dificultava tudo”. Magno divagava enquanto fazia tudo mecanicamente. "Mesmo antes, quando adolescente, às vezes me oferecia pequenas somas, presentes que mamãe não via com bons olhos. D. Yara acreditava que isso podia me deixar com o caráter fraco, sem estímulos para alcançar uma boa posição profissional. Achava que podia estragar sua rígida educação para fazer de mim um homem honesto e independente. Seus pensamentos eram limitados conforme a educação que recebera para ser “a senhora do lar”, que por ironia da vida, nunca foi. Entretanto ela se preocupava já com a minha orientação profissional: eu iria fazer administração numa escola técnica. Péssima escolha, até hoje penso que esta escolha era resultado de um pensamento limitado: administração me daria um emprego seguro e o curso seria bem mais barato. Foi o que me era permitido mas eu era bom o bastante para passar e concluir uma faculdade do estado, Engenharia".
Mais tarde, quando me mudei para o Leme, no começo ainda trazia doces, camisas, porta-retratos depois parou e disse que a distância dificultava tudo”. Magno divagava enquanto fazia tudo mecanicamente. "Mesmo antes, quando adolescente, às vezes me oferecia pequenas somas, presentes que mamãe não via com bons olhos. D. Yara acreditava que isso podia me deixar com o caráter fraco, sem estímulos para alcançar uma boa posição profissional. Achava que podia estragar sua rígida educação para fazer de mim um homem honesto e independente. Seus pensamentos eram limitados conforme a educação que recebera para ser “a senhora do lar”, que por ironia da vida, nunca foi. Entretanto ela se preocupava já com a minha orientação profissional: eu iria fazer administração numa escola técnica. Péssima escolha, até hoje penso que esta escolha era resultado de um pensamento limitado: administração me daria um emprego seguro e o curso seria bem mais barato. Foi o que me era permitido mas eu era bom o bastante para passar e concluir uma faculdade do estado, Engenharia".
Nos anos breves que conheci as delícias da noite, depois que mamãe e eu nos mudamos para o Engenho da Rainha, as visitas da titia ficaram cada vez mais raras. Eu aprendia que ‘fazer 30’ não estava muito longe. Titia permaneceu no apartamento do casarão do Grajaú. Meu avô vinha de uma família tradicional e ser do Grajaú foi meu cartão de visitas durante os meus anos de estudo. A amizade era tão forte entre mamãe e titia que depois da morte dos meus avós elas viviam juntas. Nas fotos antigas parecem gêmeas mas titia era um pouquinho mais velha que mamãe. Quando mamãe teve um caso de amor mal resolvido porque meu pai foi para o exterior prometendo fazer fortuna e voltar, depois desapareceu. Não enviou nem notícias e ela fechou-se no mundo dela – comigo dentro, mesmo quando morávamos com a titia. Nunca vi uma foto dele. Tia Hortência dizia que eu era cada vez mais uma versão maior dele, os mesmos olhos, a mesma cor e que parecia que eu seria tão alto quanto ele. Mamãe sempre dava um jeito de mudar o rumo da conversa ou pigarrear alto, reclamar das correntes de ar e se limitar a sair da sala para coar um café ou fazer alguma faxina. Apesar das minhas perguntas insistentes pelo meu pai ela nunca me falou nada, nunca mostrou uma foto. Ela nunca o perdoou e às vezes acho que me punia por culpa dele, mas não. Porém titia seguiu dizendo o mesmo sobretudo depois que mamãe também se foi e eu já trabalhava o bastante para ter o meu próprio lugar, sem depender de ninguém. Confesso que tinha certo orgulho quando a tia dizia com voz imperiosa: “tem o olhar seguro do pai, puxou até na cor castanho-escuro. Você vai ganhar muitos corações, rapaz”.
O apartamentinho onde titia ainda mora era um lugarzinho charmoso perto do velho Jardim Zoológico - lugar malvisto porque a garotada invadia o lugar para ‘puxar erva’ na esperança de fugirem da vigilância feroz da polícia (e, conseguiam com freqüência). Eu gostava de andar por lá quando não podia ir aos lugares que meus colegas freqüentavam no final de semana. O silêncio do jardim abandonado me trazia paz.
Mesmo depois de tornar-me um sobrinho distante, literalmente, porque já morava no Leme. O amor que eu nutria por aquela irmã única da minha mãe, que às vezes me fazia chamá-la de mãe, sem pensar, nunca arrefeceu. A lembrança das festas de natal, as lembranças mais tristes e sombrias que ainda tenho (ficávamos os três sozinhos em casa degustando os quitutes que as irmãs preparavam), e tinha aquela tacinha de cidra que era uma beleza pra mim – meus primeiros pilequinhos. Todas as festas de cada ano - as mais felizes como os reveillons, as festas juninas... Mesmo naquele tempo suas pequenas lembranças me eram mais caras que os presentes na festa mais chata que eu recebia. Depois da ceia ia para a rua cobiçar os regalos que os meus amigos exibiam logo que nos encontrávamos na rua para criticar a chatice das festas natalinas.
Aquele lugar ainda era antigo, na cozinha daquele apartamento minúsculo de um subúrbio carioca. Apesar das panelas areadas e do fogão limpo minuciosamente, tudo lembrava um comercial de tv em preto e branco dos idos dos anos 70 no século passado. As paredes de um branco enodoado e lascas de pintura espalhadas como insetos que não se percebe até que se reproduzam de um modo tal que só mesmo um trabalho de dedetizador para expulsar as visitas indesejáveis. Uma penumbra persistente apesar de não ser tão tarde, as cortinas de veludo verde fechadas e as luzes de antigos abajures herdados de gerações quase esquecidas. Toalhinhas caprichosamente bordadas, cópias de quadros conhecidos bastante desbotadas nas paredes da saleta de entrada. O facão apesar de antigo tinha um fio preciso e cortava pedaços dos órgãos bovinos de forma quase geométrica, não tivessem a consistência de gelatina e serem escorregadios. Fora um presente de um genro açougueiro.
Acho que que não queria ir lá mas ela merece um abraço, um pouco de atenção. No entanto tudo concorreu contra, caramba. Quando fiz a barba, teve um pequeno corte no rosto que demorou a estacar o sangue. Um cortezinho de merda. Pressa dá nisso. Agora estou super cansado de estar sempre apressado, quase atrasado para algum lugar de todo dia mais uma visita à titia lá onde o diabo perdeu as botas". Desci de elevador de serviço para a garagem no subsolo e entrei no meu carro. Quando liguei a chave um gato passava por entre os carros na minha direção. Este estacou olhando o meu rosto com os olhos arregalados como se visse algo do outro mundo.
- Ei, seu pulguento, você também é muito feio, falou? Vem cá gato rueiro, não sou tão mal assim. Deixa eu fazer um carinho em você.
O gato baixou a cabeça e tornou adiante com um passo certeiro para baixo dos outros carros estacionados sem olhar para trás. “Eu hein, que coisa mais sinistra. Besteira. Nunca acreditei em superstições. Que sua noite de vagabundagem seja sublime, seu gato bolado. Titia, aqui vou eu. Me lembro da minha infância, tudo tão perfeito, dias tão claros, lembranças de escola e amigos exceto... Exceto alguns lugares onde eu nunca podia entrar. Exceto o pai que nunca conheci. Tudo o mais foi perfeito e não quero levar más lembranças comigo”.
- Ei, seu pulguento, você também é muito feio, falou? Vem cá gato rueiro, não sou tão mal assim. Deixa eu fazer um carinho em você.
O gato baixou a cabeça e tornou adiante com um passo certeiro para baixo dos outros carros estacionados sem olhar para trás. “Eu hein, que coisa mais sinistra. Besteira. Nunca acreditei em superstições. Que sua noite de vagabundagem seja sublime, seu gato bolado. Titia, aqui vou eu. Me lembro da minha infância, tudo tão perfeito, dias tão claros, lembranças de escola e amigos exceto... Exceto alguns lugares onde eu nunca podia entrar. Exceto o pai que nunca conheci. Tudo o mais foi perfeito e não quero levar más lembranças comigo”.
Os dois não sabem mas agem de acordo com uma estranha sincronicidade. Parece que precisavam se encontrar há bastante tempo. “Ele já vem”. Os olhos embaçados por uma leve membrana branca olhou pela sala, as estatuetas do Arcanjo Miguel e de N. Sra. Das Graças. “Tudo certinho, ele vai gostar”. Na parede, no centro da saleta, uma bela reprodução envelhecida da morte de São Pedro, de Caravaggio, que descreve o pedido de São Pedro para não morrer igual ao seu mestre e que invertessem a cruz. “Não foi esse discípulo, o mais experiente de todos, um tanto quanto pretensioso? Logo aquele discípulo mais velho a quem Jesus repreendeu duas vezes, a primeira por dizê-lo que não permitiria que ele sofresse seu destino para absolver a mal da humanidade e a segunda ao cortar a orelha de um centurião romano. Morrer crucificado, igual a Jesus, já devia ser o bastante. Pedro negou Jesus três vezes. Enfim, só de servir de inspiração para o artista já o absolveu para mim. Crucifixos invertidos não têm nada demais exceto para alguns ocultistas”.
A campainha tocou e o rapaz procurou mostrar seu melhor sorriso em frente ao olho mágico. Olhou para o relógio no pulso e viu que estava sendo tão pontual quanto um britânico. Ele sentiu um cheiro de incenso, em contraste com seu perfume másculo amadeirado, mas um tanto acre naquele dia. “Coisas de gente velha”. Já estava bem acostumado às manias da tia, às vezes suspeitosamente mistica, o contrário de mamãe, mas preocupada com um ambiente que agradasse. A velha abriu a porta e parecia frágil de fato, vergada pelo peso do tempo. Ela abraçou e convidou-o a entrar. “Tia, a senhora está muito bem”. “Ora, não me tente, seu velhaco. Você, sim, se tornou um belo homem, melhor que seu pai" ”. A tia olhou-o com um certo embaraço e gritou: “Meu Deus, a comida no fogo!” Ele ia perguntar sobre a origem paterna nunca comentada mas foi forçado a se desembaraçar do longo abraço. “Seu bom humor continua irresistível”, ele gritou da sala. “Quer beber algo? Uma cerveja ou uma taça de vinho?”, ela respondeu da cozinha. “Uma taça de vinho, vamos brindar. A ocasião merece titia”. “Vinho tinto? Sim? É melhor para esta ocasião”.
"Só então reparei no cheiro convidativo da comida e também naquele apartamento que parecia ter encolhido. O único que pareciam ter crescido com as sombras eram os móveis de madeira escura. A estante, repleta de livros, alimento das traças, papeis amarelados e estatuetas réplicas de algumas estátuas gregas. Havia seus próprios livros de infância ao lado de Cervantes, Machado, Queiroz e Pessoa. Berloques e biscuits vestidos a “la século XIX”. Heranças da vovó. Devem valer uma grana. A reprodução do quadro também continua aqui, o traseiro do homem anônimo, vestido com roupas da época de Caravaggio, virado para a minha cara. O rosto sereno de São Pedro se destacava do todo pela luminosidade a volta dele. O clero, que havia pago pela obra, pelo famoso traseiro em perspectiva frontal. Detesto assuntos de religião mas gosto de arte e nosso ‘amigo’ pintor era um arruaceiro, beberrão e arrumador de encrencas dependente das encomendas da igreja. Era também um artista de um dom único. Os gênios parecem sempre uns “sem-lugar”, no lugar e no tempo. Titia viu o original em uma única viagem que ela fizera ainda moça, viu aquele quadro e ficou apaixonada por ele. Então comprou esse pôster tamanho mega, giga, monstro. Ainda sim, e por isso mesmo, uma bela pintura".
O que será esta coisa morna roçando na minha perna? “Você está ótima para a sua idade, gata. Sua dieta de ratos está muito bem. A pintura é linda mas não gosto de coisas de religião. Já me basta o que fui obrigado a aprender na escola religioso da infância. Vem cá bonitona, deixa eu passar a mão no seu pelo macio. Boa moça”.
O que será esta coisa morna roçando na minha perna? “Você está ótima para a sua idade, gata. Sua dieta de ratos está muito bem. A pintura é linda mas não gosto de coisas de religião. Já me basta o que fui obrigado a aprender na escola religioso da infância. Vem cá bonitona, deixa eu passar a mão no seu pelo macio. Boa moça”.
- Você reencontrou então minha menina. Ela tem se escondido durante dias e é impossível fugir do apartamento. Esta preguiçosa não faria isto comigo. Acho que deve ficar hibernando nalgum canto aquecido. Teremos mais uma convidada. Espero que não seja incômodo para você. É a filha de uma velha amiga e achei que nós três faríamos este jantar ficar bem divertido. Enquanto isso divirta-se vendo nosso álbum que você conhece bem.
“Vou redescobrir esta sala até que ela comece a trazer os pratos, vou comer e depois ir embora rapidinho”.
- Perdidos no seu pensamento novamente, filho? Vamos ao jantar. Minha visita está bastante atrasada e ela sabe que eu não a perdoaria se se atrasar, ou pior, se não vier. Pra mesa, já. Lá vem o nosso jantar.
A velha adquiriu uma velocidade impensável em relação aos seus modos até ali e à idade avançada. Eram forças e agilidade de quem viveu só por muito tempo. Magno ficou com o olhar pensativo perdido sobre uma mesinha onde estava uma aquela coisa horrível que lhe dava pesadelos desde muito cedo. “Que coisa horrorosa, essa ave empalhada, parece coisas de filme de terror barato. Mamãe me bateu quando chutei a bola, sem querer, e derrubei aquela coisa, com um certo prazer. Ela disse que me entendia porque eu vivia fechado em casa por excesso de cuidados dela mas que aquele pássaro era obra de um tio qualquer, taxidermista por diversão, e que tinha muito tempo na família”.
A velha adquiriu uma velocidade impensável em relação aos seus modos até ali e à idade avançada. Eram forças e agilidade de quem viveu só por muito tempo. Magno ficou com o olhar pensativo perdido sobre uma mesinha onde estava uma aquela coisa horrível que lhe dava pesadelos desde muito cedo. “Que coisa horrorosa, essa ave empalhada, parece coisas de filme de terror barato. Mamãe me bateu quando chutei a bola, sem querer, e derrubei aquela coisa, com um certo prazer. Ela disse que me entendia porque eu vivia fechado em casa por excesso de cuidados dela mas que aquele pássaro era obra de um tio qualquer, taxidermista por diversão, e que tinha muito tempo na família”.
A velhinha entrou intenpestivamente na sala com uma panela fumegando e a pôs sobre um aparador de madeira traçada na mesa.
- Então vamos ver se sua velha tia tem o mesmo tempero, hein?
- Tia, desculpe mas... “preciso ir embora logo, desculpe, tenho um compromisso bem cedo amanhã..." ...me lembrei agora, trouxe uma lembrancinha. Espera aqui, sentadinha, um momento e vou pegar na mochila.
Magno levantou-se devagar, foi até o sofá e abriu a mochila. Tirou com delicadeza uma caixa embrulhada num papel de presente ornado de flores vermelhas e amarelas.
- Abra e diz se gostou, titia.
- Oh, um casaquinho de lã. Não precisava. Magno, mas é lindo! Um beijo para o meu sobrinho preferido!
- Tia, sou seu único sobrinho! - Recebeu o beijo murcho no rosto de barba bem feita, marcado por uma sombra cinza de que ele se orgulhava quando se olhava no espelho. Também recebeu um abraço enquanto se sentou e a tia se levantou estabanada da cadeira. Ela queria agradá-lo por remorso tardio ou para esconder alguma mágoa.
- Gostou da cor?
- Claro, é minha preferida: grená. Sua memória sempre me surpreendeu. Você tem o mesmo bom gosto com suas namoradas?
- Namoradas? Ficam comigo por tão pouco tempo que não chega a ser namoros. Estou à vontade no meu lugar, desse jeito, sozinho. Quando me sinto tão tremendamente só tomo umas cervejas com os amigos e esqueço tudo no dia seguinte e acho que esses sentimentos são bobagens da idade que começa a pesar um pouco”.
Enquanto ele falava como ela murmurava uma canção antiga como se devaneasse sozinha. Dobrou o casaquinho de lá, embrulhou-o no papel fino e recolocou na caixa de presente.
- É uma pena! Um homem tão bonito. Não parece estar próximo dos 50, um jovem senhor! Deveria já estar casado e ter me dado sobrinhos. Sabe o quanto gosto de crianças.
- Tia, sou independente demais para uma mulher aceitar o meu comportamento egocêntrico por maior que seja o amor dela. Sinto te contrariar mas nunca pretendi ser pai. Não tenho muito talento para educar crianças.
- É mesmo? Precisamos dar um jeito nisto urgente. - Stella piscou o olho esquerdo para Magno.
A senhora não vai usar o presente que te dei? Já sei, não gostou, porque achou que é coisa de gente velha, fora de moda.
- Não se preocupe eu te compreendo. Eu te conheço ainda melhor que você mesmo. Cuidado com suas observações argutas e a capacidade de pensar nos vários significados possíveis, ou todas, possibilidades de sentido de tal frase ou situação: sua capacidade lógica pode te causar problemas, meu caro.
- Preciso te dizer uma coisa, acho que terei que deixar para conhecer sua jovem amiga outro dia, preciso ir logo depois do jantar. Desculpe tia, tenho um... amanhã, eu... vou...
- Deixemos quem conseguiu sair deste mundo em paz. Fique, minha amiga deve estar a caminho.
Olhei de relance o meu relógio enquanto falava para enfatizar a mensagem. “Meu relógio está meio maluco. Está marcando 7:12 mas eu vi de relance que já marcava no mínimo uns quarenta e cinco minutos não faz nem 15 minutos. O relógio não parou, o ponteiro de segundos continua a correr e ainda ouço o tique-taque quase exagerado no silêncio da casa da minha tia. Se ao menos esse lugar não estivesse tão escuro. Parece que já é madrugada”.
- Não, não vai me fazer esta desfeita. Fique um pouco mais com sua velha tia. Eu esperei tanto para te ver. E ela deve chegar logo. Podemos tomar um licorzinho juntos mesmo que o jantar já tenha acabado.
O sorriso da tia deixou Magno com um pouco de culpa.
- Me desculpe, tia. Não vou sair tão cedo. O prato está uma delícia! Queria ter esta comidinha caseira todos os dias bem pertinho do trabalho.
Este vinho parece forte, é doce, parece ter o gosto de cravos ou alguma erva desconhecida. Não é enjoativo mas parece que estou com os sentido alterados. Algumas imagens esquecidas surgiam na memória. Nos dias que morei com minha tia às vezes via os vizinho mais velhos (ou não tão velhos quanto a minha perspectiva atual) reunidos em um círculo bastante fechado, em frente ao prédio, do lado do canteiro de flores, plantas e cocô de gato. Eles falavam baixo porém riam alto. Quando saí, não me viram, suas confabulações não admitiam interrupções. Tinha sempre a impressão que estavam mais preocupados em serem notados. Nunca mais me lembrei disto.
- Por que a senhora me olha assim?
Magno sentiu um olhar felino sobre sua fronte. “Ela está zangado comigo. Que bobagem fui fazer”.
A mulher tinha o álbum de capas de couro puído nas mãos e uma expressão estranha nos olhos, expressões opostas, atração e repulsa... “Não parece os olhos dela ou será que não está me reconhecendo? Pobre tia, já está ficando gagá...”
- Ter lembranças é um presente, meu querido. Aqui tem as fotos. De agora em diante este livro das lembranças da nossa família é seu. Já era hora. Não, não adianta recusar. Não vou aceitar e você sabe o quanto sou teimosa. Apenas aceite. Acredite que, de todos os presentes que te dei, este é o que mais tem valor pra mim. Agora que o álbum é seu, poderá vê-lo quantas vezes quiser.
Ela abraçou-o pelas costas. Ele agradeceu e olhou para trás enquanto tocavam nas mãos ossudas e cheias de pintas brancas e negras dispostas como uma tatuagem ao longo do braço da velha.
- A senhora não tem mesmo nenhuma foto do meu pai. Nem uma?
- A luz está ruim para ver fotos agora mas aproxime-se do abajur.
- Tia, desculpe, mas isso é importante pra mim.
- Oh, tem uma panela no fogo. Foi até a cozinha e voltou. Encostou-se no batente da porta da cozinha e começou a verificar as modificações do sobrinho. Depois começou a falar sozinha.
- Desculpe se não consigo te atender bem. Você sempre foi muito curioso, até demais, digamos assim. Pare que continuar a querer cavar o passado a essa altura da vida. Se há fósseis, eles estão tão bem enterrados que você, nem ninguém, nunca os acharão, fique certo disso. "Segredos devem morrer com quem os mantem ou ditos a tempo, antes que seja tarde demais".
“Ela estava me olhando, me censurando pelo que achava que eu tinha feito de errado dizendo que me amava acima de tudo. Tinha um olhar levemente divertido, eu diria, felino. Quando o bichano mija no sofá ou rouba algo da mesa e depois se reaproxima do dono provavelmente para pedir mais comida ou mijar no sofá de novo logo que ele se distrair”.
- Que ruídos estranhos que vem lá dos quartos. O que é, será que é um rato?
- Não há ratos nesta casa. Nunca houve.
- O ruído parou mas...
Alguém bateu na porta apesar da campainha e ele percebeu que os estalidos tinham vindo da porta de saída.
- O ruído vem da porta. O ruído são batidas na porta, seu medroso. A nossa convidada chegou.
“Meus sentidos estão meio desorientados, droga. Até a minha audição está me sacaneando”.
A mulher mais velha foi até a porta e abriu sem olhar no olho mágico. Se ela soubesse o quanto é perigoso abrir a porta assim, sobretudo se for estranhos. Pareceu cumprimentar alguém. E logo atrás da tia um vulto pequeno de mulher, muito mais jovem, com as cores naturais tão viçosas que pareciam uma pintura expressionista, insinuou-se da sombra e desdobrou-se do anteparo que minha tia formara. As duas pareciam ser da mesma estatura, ou seja, pareciam ser baixas e magras em relação a ele. O rapaz teve um relance pegou o álbum de fotos no outro canto da mesa e folheou até encontrar uma foto antiga tão parecida. A velha tomou o livro das mãos dele.
Num breve instante de olhar, embora tudo parecesse normal, seu olhar ficou parado, as pupilas dilataram para depois contraírem e ficarem normais no ambiente um pouco mais iluminado que o corredor e a noite lá fora. Parecia o susto de quem encontra alguém que não esperava absolutamente mais encontrar. Parecia um olhar lupino, do desejo de saciedade de consumir a presa acrescido de uma certa sensação de alívio por poder matar a fome.
Num breve instante de olhar, embora tudo parecesse normal, seu olhar ficou parado, as pupilas dilataram para depois contraírem e ficarem normais no ambiente um pouco mais iluminado que o corredor e a noite lá fora. Parecia o susto de quem encontra alguém que não esperava absolutamente mais encontrar. Parecia um olhar lupino, do desejo de saciedade de consumir a presa acrescido de uma certa sensação de alívio por poder matar a fome.
- Chega de fotos! Eis minha amiga. Perdeu o jantar mas não a noite.
- Prazer em conhecê-la. Parece tão jovem. Desculpe a indelicadeza mas devo perguntar sua idade porque parece ser uma adolescente. As duas poderiam ser avó e neta.
- Tenho 24 anos.
- Parece 16!
- Pare de fazer perguntas indiscretas, rapaz. Deixe que eu leve a sobremesa que você trouxe para o nosso encontro.
- Deixa pra lá, D. Stella. Já me acostumei. Ele deve estar pensando que tem idade para ser meu pai.
- E tem mesmo Íris. Porém, não é um homem bonitão pra idade dele?
A moça ficou corada só que no escuro isso não era percebido exceto para Magno que a observava minuciosamente. Ele ficou sem jeito quando ela pareceu assustado por vê-lo mas a sensação estranha passara logo.
- Seu filho é realmente um homem elegante. Seremos bons amigos dependendo do bom humor – que ele tenha ou não.
- Sobrinho, Íris. Magno é filho da minha irmã. Aquela outra da foto na penteadeira do meu quarto.
- Não se preocupe, titia deveria estar acostumada com equívocos. Ela e mamãe pareciam irmãs gêmeas. Não seja rabugenta com a moça, isso não é legal, tia.
- Ora se eu dissesse quem é o rabugento aqui... Mas não digo nada.
A velha fez uma careta. Instalou-se então um estado agradável de família na sala escura.
- Desculpe o atraso. Vejo que perdi o jantar mas ainda não é tarde.
- À juventude desculpa-se tudo, minha menina.
Enquanto a velha tia lavava louça na cozinha, Magno e Íris sentaram-se em cadeiras uma à frente da outra. Ele percebeu uma tatuagem muito discreta entre os seios dela, pelo decote discreto da camiseta de cor preta dela, porém o local ainda estava visível pelo decote da camiseta. Uma mancha, um círculo, uma letra? Ela baixou os olhos, vermelha, e seus cabelos compridos entrecobriram o busto dela. Magno sentiu-se um homem tarado atormentado por desejos proibidos.
Acho que pareci um “sem noção”.. Preciso arrumar um jeito de pedir desculpas. O rosto dela é bonito, não parece com ninguém que conheço e no entanto eu sinto que temos uma intimidade de muito tempo.
- O que é essa marca no seu colo? É um sinal de nascença”.
- Ah, a tatuagem... é a lembrança de um amigo, só isso”.
“O que é, uma inicial num círculo?”.
- É uma estrela. Uma estrela de Salomão ou um pentagrama para ser mais precisa.
- Seus olhos têm uma cor muito bonita”.
- Obrigado, os olhos verdes de sua tia são mais bonitos que os meus.
“Essa cor verde é uma herança de todas as mulheres da família. Prefiro essa cor de ouro dos seus olhos”.
- Cor de ouro?.
- Sim, brilham igual a ouro. “Se você vê assim...”.
- O que é essa marca no seu colo? É um sinal de nascença”.
- Ah, a tatuagem... é a lembrança de um amigo, só isso”.
“O que é, uma inicial num círculo?”.
- É uma estrela. Uma estrela de Salomão ou um pentagrama para ser mais precisa.
- Seus olhos têm uma cor muito bonita”.
- Obrigado, os olhos verdes de sua tia são mais bonitos que os meus.
“Essa cor verde é uma herança de todas as mulheres da família. Prefiro essa cor de ouro dos seus olhos”.
- Cor de ouro?.
- Sim, brilham igual a ouro. “Se você vê assim...”.
“Pode chegar mais perto de mim”, pensei. Quando minha tia voltou ela roçava o meu ombro com as mãos, igual a água do mar depois que a onda quebra e se recolhe sobre a areia. Minha tia sorriu de um modo satisfeito. Minha percepção estava realmente alterada. A sala parecia imersa num fluído verde, parecia uma fumaça tênue ou aquário enorme. “Acho que vou apagar. Sinto tanto sono”.
- Ótimo, estamos os três aqui. Podemos começar a comer. Vamos, sirva um pouco de vinho para nossa amiga enquanto sirvo os pratos. Por que você olha tanto para aquele aparador, querido? Ouviu algum ruído estranho, talvez ratos? Minha gata não tem mais forças para caçar sequer camundongos.
Falta algo sim e eu não sei o que é. Mas me faz tanta falta. Tanta que me levanto de modo estabanado e vou até pequena bancada de madeira escura com três gavetas. Olhei as paredes úmidas e levemente mofadas me sentindo alheio, perdido. Havia uma marca mais clara na parede. Senti que algo muito importante da minha vida tinha acabado.
- Não sei, tia. O que tinha aqui na parede? Um quadro?
- Não me diga que esqueceu? Tinha um retrato seu. Nem era tão bonito... coloquei-o no quarto. Sei lá.
- Qual era?
"Não me lembro de nenhum retrato meu ali. Sinto ainda mais aquele torpor, parece que estou drogado. Parece que saí da minha realidade para viver a realidade de outra pessoa. Um tempo diferente noutro tempo do tempo lá de fora. Tinha um espelho, era isso. Um espelho que guardava segredos mais do que mostrava. Quando me cansei de fugir dele comecei a desvendar o que ele me mostrava para além do meu rosto. Qual rosto? O de criança, o de adolescente, ou o que deveria ter agora? Olhei para o arcanjo na mesinha da sala e depois olhei para a mesa. Ia retrucar mas comecei a sentir que me movia do mesmo jeito que estivesse mergulhado n’água. Mesmo assim retruquei:
- Era um espelho, tia.
Porém minha tia não estava mais lá.
- Ela precisou ir mas deixou isto pra você.
- Ir para onde?
- Não importa. Fique calmo, sim? Ela deixou comigo outro presente pra você.
Ela me mostrou um pedra arredondada como os seixos mas de cor interessante.
- O que é? Um cristal?
- Isto é um cristal rosa. Abra a sua mão esquerda.
Ela depositou o cristal na mão dele e fechou os dedos sobre a pedra com delicadeza e continuar a segurar a mão dele. Ele sentiu que havia sulcos na superfície fria e lisa da pedra, pareciam desenhos, ou melhor, caracteres. A ansiedade de Magno não deixou que ele visse o que era.
- Pareço que te conheço. Será que já nos vimos antes?
- Não importa quem fui, o mais importante é quem serei a partir de agora.
- Eu me sinto tonto demais, preciso me deitar em algum lugar.
A moça permitiu que ele se amparasse no ombro dele e deixou-se levar até o quarto no final do corredor. Ela o sustentava a contento apesar das óbvias diferenças de altura e peso. Mesmo com a visão nublada, viu a penteadeira oval com três espelhos da avó. Sentia um cansaço como se sua alma estivesse vazando do seu corpo, algo próximo da morte. Estava tão confuso que não se assustou ao pensar que viu a tia vestida com uma camisola branca e as mãos sobre o ventre. Seu semblante sereno apesar dos olhos fechados e fundos. Olhou para quem agora era a única pessoa com quem contar.
- Confie em mim. Não acredite em tudo que vê.
Ela deitou o corpo quase inerte do rapaz. Não havia ninguém deitado ao lado dele.
- Seus cabelos parecem com o do seu pai, tão negros e espessos.
- De onde você conheceu meu pai? Você não tem idade para tê-lo conhecido.
Magno esforçou-se para focar a visão e viu jornais velhos caídos no chão, baratas furtivas fugindo de qualquer movimento. Panos coloridos na cadeira, vidros de perfume espalhados e uma vela apagada na cômoda. Depois assustou-se por ver sua mão nas mãos delas.
- Esta união só terá valor se você quiser de verdade. Você me aceita por todo caminho do conhecimento. Nunca se utilizará do seu conhecimento para me destruir e nem eu a você?
- Do que você está falando?
Agora parece a minha tia. Parece que ainda estou dormindo mas a garota merece minha confiança. Quero confiar nela. De qualquer forma não tenho forças nem para me levantar, quanto menos para correr para longe daqui.
- Isso quer dizer que sim?
- Quando conheci você?
- Num dia de sol quando a gente era muito jovem.
- Mas nós somos jovens.
- Não há mais tempo.
- Seus olhos, eles parecem verdes agora.
- É a luz, querido. Na sala você viu meus olhos castanhos, não foi? Quando fui ao banheiro eu... eu precisei chorar um pouco porque não quero me despedir mais de você.
- Mas é tão estranho. Seus olhos eram tão lindos quando achei que eram castanhos-claros e agora. Agora parecem com... - “os olhos de tia Stella, como pode ser? Seus olhos verdes, seu rosto parecem com o dela há poucos 30 anos”
- Você está tão diferente e bonita. Parece minha tia. Não. Parece minha mãe. Eu estou cansado, preciso dormir.
- Você está tão diferente e bonita. Parece minha tia. Não. Parece minha mãe. Eu estou cansado, preciso dormir.
- Isto, dorme um pouco.
Ela levantou meio temerosa as mãos para o rosto daquele homem com olhar confuso e cansado. Ele permitiu que ela o tocasse tão intimamente. Na verdade, Magno, pediu por isso.
- Posso te dar um beijo, na sua testa?
Ele consentiu e sentiu os olhos molhados de um choro preso. Odiava que alguém o visse chorar embora aquilo também lhe desse prazer.
- Feche os olhos, Miguel.
A moça beijou os lábios dele de forma casta até que ambos entreabriram os lábios e suas línguas roçavam-se como serpentes num ritual de perpetuação da espécie. A saliva dos dois agradava a cada um pois não tinha o gosto travoso das bebidas adocicadas. O dentes às vezes se chocavam mas até isso provocava prazer. Por um momento inesperado ela roçou seus dentes na boca úmida dele e provocou um pequeno corte com uma mordida incisiva.
- Você me mordeu.
- Quieto, querido. Foi sem querer mas tinha que acontecer. Deixe eu sentir o gosto.
- Não, isso é nojento. Desculpa, não quero te ofender. Eu detesto sentir o gosto enjoativo de sangue.
- Fique calmo, sim?
- Fique calmo, sim?
Quando eles permitiram-se esse beijo que parecia algo tão ruim mas que transformou-se de novo no beijo íntimo. Sentiu que a pele torneada e tornava-se seca, fina. Sentiu que os lábios bem desenhados tomavam a forma de uma boca fina, contornada de minúsculas rugas. Ele quis abrir os olhos. Quando viu o rosto da moça beijando-o com os olhos aberto viu também sua tia. Ela estava de pé atrás dela e olhava fixamente. Eram o rosta da tia, a pele fina e marcada por linhas do tempo, os mesmo lábios delgados, murchos que ela sentiu beijar há menos de um minuto.
- É melhor pararmos com isso.
- Você é teimoso. Quer explicar tudo. Não vê que o mundo não tem lógica e que tudo que segue ordenado, faz isso por hábito? Agora durma.
E então ele viu espantado que apesar do mesmo rosto, dos cabelos iguais, ela vestia o mesmo robe cor de marfim amarelado – e com umas manchinhas indiscretas aqui e ali, da tia. “Minha tia se foi de novo. Parece que estou sob o efeito de uma droga que provoca delírios. Os delírios da noite, do infinito de quase todas línguas que conheço”.
- Sua face está tão envelhecida... digo: lívida! E seu vestido... parece o mesma da minha tia.
- Sou a mesma. A roupa te importa tanto assim? Eu estou usando a mesma roupa de antes.
Sim, ela estava vestida com o mesmo jeans e a mesma camiseta, agora desabotoada.
Sim, ela estava vestida com o mesmo jeans e a mesma camiseta, agora desabotoada.
- É verdade.
- É efeito da escuridão. Amanhã nossas vidas serão diferentes. Nossas vidas serão uma só como estava destinada a ser.
- Eu não sei... eu não sei. Me sinto tão confuso.
Magno não quis mais entender nada, nem discutir. Ela fala agora igual a titia. Ele fechou os olhos e começou a chorar. “São Miguel arcanjo, me protege nesse momento de confusão”.
- Obrigado. Você faz com que eu me sinta bem e não tenha sequer vergonha de chorar.
Ela acariciou suas largas costas com o carinho da mulher que tece uma peça de renda. Suas unhas não arranhavam, ao contrário, fazia com que sentisse feliz. Até que ele teve um insight: corria na praia fugindo das ondas até que tudo ficou escuridão. Magno não sentiu mais o toque da moça e não ouviu nenhuma resposta. Seu calor estava distante, parecia que nunca esteve ali. Olhou assustado para o outro lado da cama de casal e viu com os cantos dos olhos que Íris estava deitada na cama igualzinho à visão da tia, com as mãos cruzadas sobre os seios. Parecia dormir profundamente. Ela murmurou como em resposta a alguma pergunta dele:
- Dorme querido, amanhã a gente conversa. Agora precisamos da noite. O sol pode nos esperar. Seremos um e até o sol aguardará por nós.
- Você vai estar comigo amanhã.
- Vou estar contigo por uma eternidade.
- Você vai estar comigo amanhã.
- Vou estar contigo por uma eternidade.
Eu os observava sem ser vista da porta e escolhia a melhor forma para contar esta estória.
Fim