terça-feira, 28 de maio de 2013

Alma gêmea

       Enquanto Clara passava ninguém mais prestava atenção nela, em seus passos miúdos, pequena como uma mariposa que perdeu o rumo da chama apagada e ainda assim seguia. Exceto os desocupados de plantão fazendo algum gesto estúpido, às vezes obsceno, às suas costas que ela fingia não ver. Pensavam que ela não via mas que visse, e daí? o quê iria fazer, ter um acesso ou correr chorando para o banheiro, que se dane. No mais era insignificante mesmo, baixinha, mignon, uma figurinha datada nesse mundo de peitos, glúteos e coxas avantajados. Entretanto era o centro das atenções entre os minúsculos cubículos onde transitava, do refeitório ao escritório do chefe e para sua mesinha. Ninguém tinha um podre considerável seu para tratar nas rodas e todos lá tinham um. Quem era ela para querer ser diferente? Sua mão repleta de papeis e documentos. Atrás das lentes dos óculos, ela os ia distribuindo aqui e ali, outras atendentes, secretárias, mensageiros. Leva isso ao Sr. Fulano de tal, por favor. Outro recado ao Sr. Sicrano, por favor.
       Você pode me inquirir por que tratar de alguém tão insignificante. Por que perder o seu tempo lendo essas bobagens e que saber sobre esta moça que já não tenha dito no primeiro parágrafo. Direi mais adiante contanto que tenha a gentileza de prosseguir a leitura se não tiver algo mais importante para fazer agora. A verdade é que seu grande defeito a priori era não ter opinião própria. Sua melhor resposta era: pode ser. Então tá. Você acha? Então é isso mesmo. Sempre ouvia as reclamações do trânsito engarrafado, da separação de não sei quem do 5º andar do prédio. Fulana ficou grávida de um homem casado, não é uma vergonha, Clara? Aquele vagabundo me traiu, Clara, debaixo do meu nariz, todo mundo sabia menos eu. Esse maluco vive explorando o meu trabalho, um dia peço as contas e quero ver como ele se vira sem mim. A todos o mesmo olhar solícito, os mesmos ouvidos atentos. Minorava dores que não podia curar nela própria. Parecia indiferente.
     Trocava todas as folgas com quem pedisse: natal, ano novo, carnaval, páscoa, dia do aniversário... Ficava depois do expediente esperando um e-mail imprescindível para a satisfação do gerente na manhã seguinte. Tomava o lugar de quem pedisse para ir fumar um cigarrinho na rua, beber um café, quem sabe pegar alguém na sala do almoxarifado, com o mesmo desprendimento de si mesma. Às vezes nem obrigado, todos estavam acostumados a seu modo que não pedia nada. Com isso angariou o silêncio de alguns contra sua reputação deveras estranha nos dias de hoje. A maioria jurava que ela era uma safada, saía da empresa direto para as boates e bares do centro, da zona sul, norte, oeste... - daí aquelas olheiras como dois borrões em volta dos olhos. Decerto tinha dado para o chefe e por isso era protegida dele. Para muitos era uma sonsa, uma dissimulada, santinha do pau oco. Clara fingia que não sabia de nada ou não sabia mesmo, não sei. São cinco anos de trabalho na empresa ela já tinha se acostumado.

E é aqui precisamente onde eu quero chegar, leitor. Ela não fingia ser o que era, não fazia tipo. Não! Não, era daquele jeito mesmo. Não se interessava pela vida alheia. Não tinha furtado um clips da empresa. Estava satisfeita com seu salário e sua vida. Coisa estranha. O papel que ela representava acontecia somente dentro do mundo dela onde recentemente alguém tinha entrado. Hoje finalmente terei a resposta que espero há meses. Sentou-se à mesa acanhada com uma flor murcha repassada por um colega de repartição, pequenas miniaturas de fadas e gnomos sorridentes e grotescos perdidos numa papelada organizada meticulosamente entre o computador e o telefone. Coçou o canto dos olhos.
A senhora está me ouvindo? Estou sim, desculpe. Vou refazer o contrato e levá-lo ao senhor em 5 minutos. Parece que bebe! Não vou mais aceitar este tipo de erro. Quem pediu para que alterasse a formatação do documento? A senhora agora anda pensando? Não, senhor. Não terminei! A senhora parece que nunca ouve o que eu digo, nunca responde, está sempre alheia. A senhora faz o favor de me dizer qual é o problema. Nenhum, está tudo bem senhor. É bom mesmo!
A moça pálida, meio anêmica, digitou o documento, imprimiu e levou-o a uma máquina Xérox para fazer uma série de cópias. Enquanto a luz da máquina vazava pela bandeja, indo e vindo, escaneando as laudas de papeis, entre os bips da máquina ela vigiava. Não é que Clara parecia mesmo louca? Lembrou-se de um livro que lera ou foi uma novela na tv? Limpou um cisco sobre a superfície preta da máquina zumbindo. A noiva entrava na igreja, música sacra. As portas abriram retumbantes, ponteando a cadência nupcial. Olhava os convidados através de um sorriso tímido, rosa. O homem de têmporas grisalhas que a levava segura no braço esquerdo apressou-a apertando sua mão direita. Parece que acabou o papel da máquina. Quem sonha demais vira um sonâmbulo.
Folheou o maço de folhas A4 e colocou-as no escaninho adequado. Apertou algumas teclas. As pessoas a olhavam, parecia outra sob a luz pálida, amarelada da igreja barroca. Diria-se que a rosa se abrira sob as luzes dos refletores. Um homem a esperava circunspecto no seu papel lá na frente do átrio, não olhava em seus olhos. Música grave. Vai sair hoje à noite, Clara? Não. Vou para casa, preciso terminar um trabalho. Que pena a gente vai no barzinho da esquina. Não, obrigado. Um sentimento de confusão entupiu seus pensamentos. Tropeçou na barra das inúmeras anáguas embaixo do vestido branco, farfalhante como uma pilha de papéis. O que estou fazendo aqui?
Aqui, Clara sentiu um leve frêmito vislumbrando nela própria o que aconteceria. Aproximava-se do altar, a noiva caminhava como se fosse para o matadouro. Deu a mão ao homem bem trajado e olhou para o chão, subindo os degraus forrados de carpete vermelho. E você, minha filha, aceita? Olhou aquele velho paramentado pela primeira vez. Ele tinha cara de sono e já estava irritado por ter de repetir uma pergunta tão obvia. Aceita ou não aceita? Vamos, diga. Teve um acesso de coragem e recuou, quase caiu do lugar onde estava e tossiu. Clara vibrava. Ela deixou o anelzinho de ouro cair. Clara pegou as folhas espalhadas no chão até que alguém parou e começou a ajudá-la. Olhou para os lados com pavor. Em um estado de loucura momentânea empurrou o homem. Correu. Correu como um moleque que corre depois de ter jogado uma pedra numa vidraça. Sentia-se como um gato largado em um canil. Um cão trancado com centenas de gatos. Andava sem olhar para trás. Atravessou as ruas da cidade feito uma louca solta na rua, pensava que era uma novela.
O leitor pensará: folhetins, água com açúcar, bobagens de uma desocupada. Estórias com finais manjados era do que Clara mais gostava. Nos livros que lia identificava-se com a mocinha, com o herói, com o vilão, com a amiga mau caráter, a mãe do vilão, o jornaleiro da esquina. Achava desculpa para todos. Todos eram ela e ela não era ninguém. Animais lhe causavam uma dor insuportável, de levá-la às lágrimas mais sentidas, no lugarzinho onde morava ou no banco do metrô. Será que ele vai me escrever hoje?
Escalou os degraus gigantescos do ônibus do alto de seus saltos, movendo as pernas de lado, cuidadosamente para não puxar um fio da meia-calça. Suspirou. Finalmente. A condução estava atulhada de gente. Os passageiros saíam pela culatra, um calor do meio-dia, quando já era quase noite. Instalou-se no meio como de costume, nem muito perto da roleta nem muito longe da saída. Alguém saltou apressado e ela sentou-se. A janela do ônibus parecia uma tv. Deu lugar a uma senhora magrinha que prontificou-se a segurar sua bolsa. Deixa que eu seguro, minha filha. Um homem gordo estava do seu lado olhando insistentemente. Clara não viu ou fingiu que não viu, dá no mesmo. Esmagou-a contra a haste de metal onde ela se agarrava como uma sanguessuga. O homem fundiu-se às costas dela, fartou-se do seu cheiro, a cada curva enfiava o nariz nos seus cabelos. Engavetava-se nas suas costas. Como arredar se a mulher do lado passava pelo mesmo problema? Sentar, nem pensar. A velhinha dormitando no banco acordou, fingiu que não viu mas deu um sorrisinho maroto. Ela encostou o rosto na barra fria e suspirou apertada. Enfim o homem se cansou de tanto esfrega-esfrega, na falta de um sim, de um não, de um sorriso ou uma cotovelada, aquilo perdeu a graça. Saltou bem longe do ponto dele.
Que perda de tempo gastar papel escrevendo sobre essa figurinha esquálida em situação tão comum. Gastando papel sim. O autor é um tiozinho que não se acostumou à tela branca do computador, aquilo lhe dá amnésia e dor de cabeça. Ele é do tempo da caneta e das folhas de caderno e não faz tanto tempo assim, ele resmunga. Mas sobre o que contava? Ah, sim. A inutilidade de narrar essa estória. Mas você se engana, leitor, se me permite prescindir de chamar de senhor ou senhora. São essas pessoas pardas, mal iluminadas, comuns é que oferecem um banquete que nenhuma revista Caras proporcionaria do galã bonitão da novela das oito e da gostosona do reality show. Pessoas obscuras são a melhor matéria para esse pretensioso autor. Tão falador que faz de mim, o narrador, um mero grilo falante. Mas dá certo prazer tornar público suas vidas à revelia dessas figuras que se esgueiram pela vida. No fundo todas as estórias são as mesmas.
Tenho um segredo a revelar: ela não me sai da cabeça desde que comecei sua estória, queria ajudá-la, porém o autor está indignado comigo. Disse: a arrogância que você vê em mim é a mesma que você tem. Ainda mais: que fui criado para falar sobre a vida de Clara e que eu cumpra logo o meu papel. Pois é, amigo ou amiga, manda quem pode... Realmente personagens e atores são pessoas diferentes embora pareçam ser a mesma coisa. Vamos terminar logo esse papo um tanto quanto esquizofrênico e voltemos a Clara - que já me sinto tonto com isso. Que segredos revelar dessa mosca-morta?
Não bebia, não fumava, não usava drogas, não ouvia música alto, dormia cedo, acordava cedo, não fazia barulho dentro do apartamento, não dava descarga à noite. Um autômato perdia para ela de dez a zero, de goleada. Que detalhe picante oferecer a este leitor acostumadíssimo com tudo que um Big Brother, A Fazenda, pegadinhas do You Tube de um conhecido ou desconhecido, comunidades do Orkut, verdadeiras irmandades ocultas, que já não tenha sido mostrado para todo mundo ver? Espere e verá. Um pouco mais de paciência que me perco nos detalhes tão suculentos quanto o último pedaço de carne no prato. Começo a ter pena dela. Bem... pena é melhor do que sentir raiva ou mágoa.
Quando chegou no prédio onde morava cumprimentou o porteiro. A porta do elevador quase bateu na cara dela quando um pequeno bando de crianças irrompeu do cubículo. A mãe ralhava indignada. Michael, o quê foi que a mamãe disse hoje na escola?! Desculpa, moça! Tem nada não, rapazinho. Sozinha no elevador alisou o casaquinho meio amassado. O porteiro olhava ativamente as imagens minúsculas no monitor, com olhos de águia. Se essa cabrita me dava mole, ia ver estrelas! Mas é “bom dia, boa tarde”, “obrigado isso, obrigado aquilo moço” e nada. Seu rostinho sério olhava-a de três ângulos diferentes nos espelhos do quadrado. Afinal deu um baque, ela deu um saltinho e parou. Abriu a porta com dificuldade e saiu para o corredor.
Quero tanto que ele tenha me escrito. Abriu a porta, tirou o casaco e colocou-o na cadeira junta da mesa. Ele deve estar me esperando. Sentiu uma alegria louca. Tirou os sapatos, a blusa, a saia, a meia-calça, a calcinha e o sutiã. Colocou cada peça em seu lugar, no cabide pendurado na porta, no cesto de roupa suja no banheiro, debaixo da cama no quarto. Vestiu uma calçola de algodão cor-de-rosa e uma camisola. Postou-se diante da máquina, apertou um botão e seu rosto ficou azulado pela tela. Espremeu os olhos para as letrinhas corridas e tremeu ao clicar no navegador. Correspondência: amanhã eu saio. Você vem? Vou. Será que serei demitida por faltar o trabalho amanhã? Foi uma meia mentira, ia mesmo buscar alguém da família que não via há muito tempo. Que não tinha visto nunca além da tela do monitor. Chega de andar feito um zumbi depois de tantas madrugadas na Internet, tão cheias quanto as horas do dia.
Logo mais tarde acordou bem cedo, antes do relógio despertar. Tomou seu banho meio aflita para não chegar atrasada. Ela nunca se atrasava para nada. Vestiu-se com apuro, cada detalhe, dos brincos pequenos ao perfume. Tomou um táxi, pagou o motorista e saiu com um sorriso no rosto. Será que ele vai gostar de mim? Uma mulher deixou-a passar com cara indiferente. Mais a frente um homem fardado também, não sem antes apalpar seus seios pequenos e correr a mão por todos os vincos e dobras do seu pequeno corpo. Ela ficou vermelha entretanto franziu os lábios, muda. Quando a porta enferrujada abriu-se com um barulho de trovão, outro homem fardado apareceu. Atrás dele outro de barba mal feita, de uma cor estranha entre o pálido e o amarelo, vestia uma roupa de forma desajeitada que não parecia ser dele. Clara olhou fixamente nos seus olhos. Ele abriu os braços de onde estava e apareceu uma tatuagem no dorso do braço direito “Larissa e Jonatas” e uma caveira no ante-braço esquerdo. Eles se abraçaram, tantos e-mails promissores, tantas promessas que afinal se cumpriram. Tá contigo o quê te pedi? Sim, eu trouxe tudo, quer ver? Agora não. Ele pegou-a pelo braço. Foi levando-a para a porta assim que recebeu suas coisas num balcão e foi liberado. Não caia noutra, se fizer sujeira tu volta pra cá, mané. Tá limpo, chefia. Ele respirou o ar abafado do lado de fora e estava pronto para recomeçar tudo de novo, dessa vez com Clara. Anda sua tonta! Ela fitou-o com admiração. Tá me olhando o quê? Não gostou? Gostei, José. João, mulher. Me dá um cigarro aí, meu bem. Ele a apertou nos braços na calçada.


Fim

Crônicas Absurdas


1.


     Ouvi o interfone tocar mas permaneci imóvel, deitado na cama sem a menor vontade de acordar e me levantar. O interfone tocou novamente, um sinal mais longo. Esperei alguns minutos com a respiração suspensa esperando que a pessoa desistisse como tantas fizeram antes. Talvez fosse um vendedor qualquer ou fosse engano. Eu não estava esperando por ninguém naquela noite. Talvez não fosse nada. Fechei os olhos com força, cruzei as mãos sobre a cabeça displicentemente fingindo que dormia para mim mesmo.
A mão nervosa tocou o interfone várias vezes ininterruptamente desta vez. "Já vou, já vou!". Eu resolvi atender. Preferia estar dormindo. Reuni forças de algum lugar que não sabia que existia. Quando me vi de pé, tive a mesma sensação de quem encontra dinheiro esquecido por um longo tempo numa gaveta do móvel da sala.
      Atendi a voz tensa que não me deixou terminar de dizer alô. Disse: "Alô, boa noite. Preciso falar com você, é rápido!". Tive vontade perguntar da mesma forma insolente, o porquê ( pelo qual eu deveria recebê-lo, sem qualquer identificação, sem conhecê-lo ). Perguntar quem era e dizer cuidadosamente que estava no telefone, no banho, enfim... muito ocupado "...ora bolas!". Que me dissesse ao menos o que era. Mas, abri. Já tinha atendido o interfone mesmo, era tarde demais para dizer não. Apertei o botão que abriu a portaria e fui até a porta da sala.
     No caminho a campainha tocou bem devagar, primeiro um 'ding', e depois, eu diria de uma forma bem calculada, o 'dong'. Ao abrir a porta vi um homem jovem, desconhecido por completo. Mas tive aquela sensação estranha que formigava na minha fronte, de quem já viu alguém antes em algum lugar, alguma vez ou várias vezes e não sabe direito quem é. Um "déjà vu" sem graça enquanto desço as escadas do prédio dizendo o bom dia habitual e apertos de mão insossos. Fazendo o mesmo caminho habitual, maquinalmente, vendo sem notar. Algo que é quase parte fixa da rua porque está sempre lá quando passo.
     Algo como um poste da rua, a árvore, os estudantes ruidosos e alegres indo para a escola. Algo que não se presta mais atenção porque sabe-se que sempre estará lá. Senti uma sensação desagradável de quando alguém desconhecido senta-se no mesmo banco querendo ocupar os dois lugares ao mesmo tempo ou entabular uma conversa nonsense e acalorada sobre o tempo, a política, o futebol.
     Mas ali éramos dois estranhos. Eu disse: "Boa noite, pois não?" Ele parecia, pelo contrário, me conhecer bastante bem. Neste momento eu quase juraria que o conhecia também, mas não... não me lembrava de nada.
- Se esqueceu de mim?
- ...
- Não se lembra mais de mim? "Estava tão patente assim, na minha cara?"
- Não, desculpe... Quem é você?
     Ele sorriu como um fauno. Ou um gato, se gatos sorrissem. E faunos não existem mais. Deu um passo apressado na minha direção. Estaquei e olhei bem em seus olhos por alguns segundos, logo desviou o olhar do meu para outro ponto do meu rosto. Deu mais dois passos decididos e me esbofeteou com a palma da mão. Perdi o equilíbrio, fiquei estupefato mais que ferido. Ele foi bastante cuidadoso ao bater-me para que fosse apenas um assalto. E então o que era aquilo? Tentei fechar a porta instintivamente "O que é isso?!"   Não houve tempo de me sentir ofendido e ter uma reação de defesa. Não fiz nem uma coisa, nem outra. Estava surpreso e chocado. Desta vez ele gargalhou, com a voz anasalada e roufenha, como quem ri afetando naturalidade. Segurou a porta com a mão esquerda, para impedir em definitivo que eu fechasse a porta quando aquele transe passasse. Tudo parecia sobrenatural e eu pouco reagia. "É um sonho, é isso!"   Perdi minha segurança habitual. “Acho que estou enlouquecendo.” Mas eu via, perdido em conjecturações desesperadas, o ódio nos seu olhar. Aqueles olhos injetados de fumaça ( ele cheirava a fumo barato ) estavam plenos de ódio. Ouvi o estampido de uma arma, um estalo seco, como outro tapa. "Por isso não me olhou nos olhos." Desta forma eu era apenas algo desprovido da condição humana, menos que uma barata que se pisa com raiva.
      Olhei para o meu próprio peito, numa fração de segundos. Aquilo parecia um filme. Eu, o ator e o espectador de mim mesmo. Vi um pequeno buraco, com as bordas queimadas, na camisa. Do lado esquerdo, onde se pensa que o coração esteja. Senti o cheiro da pólvora e de queimado. Não senti dor, as coisas me aconteciam de forma vertiginosa. Não senti dor, não senti nada. Olhei seu rosto novamente e me detive na boca desta vez, contorcida de dor, brilhando com a saliva que escorria. Ele continuava balbuciando palavras o tempo todo, mastigando-as entre os dentes. Compreendi que me matar lhe dava imenso prazer, era uma vingança. Vasculhei a mente procurando desesperadamente todas as razões possíveis para o meu assassinato. Quem era aquele homem, se era sua última cartada, uma demência temporária.
     Desta vez ele atirou bem próximo do meio do meu tórax. Deu outro tiro na barriga e outros na cabeça até descarregar a arma. Antes de cair, vi que ele olhou para a minha sala como se já conhecesse tudo que se encontrava ali. O eco no corredor da arma caindo no chão me trouxe de volta porque eu já começava a perder os sentidos, a cabeça pulsava. Caí sem sequer fechar os olhos, só era difícil respirar. No chão vi o bico de seus sapatos bem engraxados, a menos de um palmo do meu nariz, apontados pra mim. "Eu devia ter me lembrado".
     Quando tudo acabou, eu disse:
- Não, obrigado.
     Sorri polidamente antes de falar "Volte outro dia..." com um sorriso amarelo. Fechei a porta com muita dificuldade e voltei para o meu quarto com passos trôpegos de sono. Olhei para a cama com os lençóis revoltos e me joguei como um saco de batatas. Fechei os olhos e desta vez dormi. Estava muito cansado.


2.
      Outro dia, ouvi o interfone tocar. Mas permaneci imóvel, deitado na cama. Perguntei mentalmente que horas eram. Sem a menor vontade de levantar. Mas o interfone tocou novamente, um sinal mais longo, sinal que não ia desistir assim tão fácil. Esperei alguns segundos, com a respiração suspensa. Esperei que a pessoa desistisse como tantas fizeram antes. Ouvi o burburinho da vida do lado de fora. O carro com auto-falantes na rua de trás berrando ritmadamente que vendia praticamente tudo a um real. O sotaque nordestino do forró numa luta encarniçada com o rap que repetia dezenas de vezes 'egüinha pocotó'. “Eu não sei o que é pior: quando falam tudo com clareza ou quando usam metáforas infantis”. Os gritos ensandecidos da vizinha do bloco da frente prevenindo uma criança mais afoita de cair da bicicleta. Os caminhoneiros berrando ordens para o acostamento dos mostrengos que grunhiam ferozes. Um bebê chorava bem longe, de pirraça.
     A mão nervosa tocou o interfone várias vezes. Cobri a cabeça com o lençol e disse baixinho:
- Vá embora! Por favor, vá embora!
Preferia voltar a dormir mas me lembrei de algo indefinido, “um sonho?”, e me levantei automaticamente. Desta vez disposto a dizer que não poderia atender a ninguém. "Não quero nada. Por favor, vá embora". Peguei o interfone com raiva.
- Um momento!
     Apertei o botão e nem perguntei quem era. Era indiferente, o incômodo seria o mesmo. Antes de abrir a porta reprimi a minha raiva para tomar aquele ar indiferente de quem diz palavras educadas quando se esquiva de alguém impertinente. "Isto são horas?!" Abri a porta e ela já estava lá, postada ereta.
- Bom dia!
- Bom dia. O que a senhora deseja, por favor?
A mulher estranha curvou a cabeça levemente para a esquerda e me fitou com os olhos abertos e brilhantes. Sorriu cheia de uma alegria genuína. Era uma pessoa de meia idade, "...um pouco mais que eu", calculei.   Havia um quê de insanidade, tamanha espontaneidade de alguém que não se conhece, pela primeira vez. Seu sorriso me desarmou. "Será alguém da "Bíblia"?". Antes que eu esboçasse qualquer reação seus lábios se entreabriram bem lentos. Era a face de uma criança. Seus dentes brancos, perfilados, sorriram também, de ponta a ponta.
- Estou aqui para ajudar você. Me deixe ajudar você!
- ?
- Posso abraçar você? “Mas que conversa maluca... Isso não está acontencendo, definitivamente!”
Fiz força para me lembrar dela porque eu decerto tinha de conhecê-la. De onde, quando, por quê? Ela estava tão emocionada, eu não sabia o que pensar. Ultimamente minha vida parecia um disco de vinil arranhado.
- Irmão, me deixe abraçar você!
      Ela mais que pediu, ela suplicou com uma voz embargada. Deixei os braços pendidos sobre o corpo e assenti com a cabeça sem sair do lugar. Se quisesse me vender algo depois, eu até compraria. Fingiria que adotaria sua nova religião de salvação para afinal me despedir. "Eu quero dormir"
Eu me deixei ser abraçado. Fiquei aconchegado naquele abraço fraterno. Correspondi ao abraço. "Será um parente desconhecido?" Suas mãos friccionavam as minhas costas e dava alguns tapinhas carinhosos. Ainda envolto naqueles braços apertados, que deixaram de ser estranhos senti um beijo úmido, colado na face direita.
      Uma dor aguda no flanco esquerdo. Algo perfurou a camisa, rasgou a minha pele, invadiu a carne adentro. Era frio, muito frio. A mão moveu-se ágil para a minha barriga sem encontrar obstáculos. Senti a camisa empapada por um líqüido viscoso e quente. O líqüido esfriava com rapidez, era sangue. Ela me apertava mais e falava, falava, com voz de quem conta estórias para crianças. Eu não entendia nada, a dor era tamanha que eu não atinava, parecia um pesadelo daqueles que a gente não se lembra de ter dormido. O meu corpo desinflou como um balão, a minha alma parecia vazar por aquela fenda. Jamais senti dor igual.
      Fechei os olhos e me deixei cair no chão, escorrendo pelo corpo dela ainda colado ao meu. Caí amparado por aqueles braços que não me largavam. No chão senti um enorme alívio. Estava tudo tão bom, tão calmo. Já não sentia mais frio. Eu voltara para o útero da minha mãe. Aquela escuridão me deixou completamente relaxado.
Por fim, falei:
- Não quero nada, obrigado. Volte outro dia.
      Fechei a porta de forma mecânica, dando duas voltas com a chave. Soltei o chaveiro dependurado na fechadura num ruído escandaloso diante do silêncio que se assomou. Voltei para o quarto. Não reparei em nada até me ver deitado na minha cama. "Preciso ir à praia e tomar um pouco de sol". Virei de lado e dormi. Estava tão cansado.

2003

Fim

Encontro inesperado

Bastou que ela entrasse numa trilha pré estabelecida pelo movimento entre a gente que os caminhos criaram nexo. Assim chegou às portas da estação, levada pelo fluxo das gentes à escada rolante. Para baixo. Enquanto desceu apalpou a bolsa pesada, verificou o celular e arrumou os cabelos. Daí pelas roletas ao local de embarque do metrô foi tudo mecânico. O zunido do trem anunciou sua vinda pelo túnel escuro. Uma voz robótica sorridente avisava a direção do comboio de vagões. A estação do outro lado parecia um espelho de imagens não coordenadas. As portas abriram e as duas massas, uma que saía e outra que entrava, entraram em choque de forma bastante organizada. Houve encontrões esperados, pequenos desvios até ser jogada num banco de fibra de vidro bastante duro. Com licença. Ele resmungou algo grave que mal se entendia. Fica à vontade.
Carinha grosso, nem olhou pra mim. Parece que não existo. Garota fresca. Pediu licença como se esse banco fosse meu. Fechou um pouco as pernas para dar espaço à moça. Ela permaneceu imóvel e olhou fixo para frente. Pediu para segurar a bolsa de outra mulher. Sorrisos de senha do banco, decorados, eficientes. Etiqueta de camaradagem nos veículos públicos. Olhar pelo canto dos olhos. Assaltante não parece ser. Tarado só se fosse muito maluco nesse metrô lotado. Ele encostou o queixo no punho e olhou as pernas dela pelo reflexo do vidro negro dentro do túnel. Gostosinha ela. Tão esticada no banco que não dá pra ver o rosto direito. Ele olhou o relógio por impulso.
Tudo prático, costumes. Ninguém se conhece e a pouca distancia entre um e outro não é constrangimento aqui. O equilíbrio é mantido pela velocidade constante do trem elétrico, um lugar onde se agarrar, a pessoa ao lado, à frente, ou atrás, na falta de onde segurar. Alguns tinham tanta prática que praticavam surf com a mesma cara indiferente. Alguém muito parecido que se conhece. Como poderia tamanha coincidência, pegar o mesmo metrô? Uma democracia do tempo estabelecido pelo lugar público. Parece mais alto, mais baixo, será a mesma pessoa? Ou só a lembrança remota de alguém que pegou o mesmo metrô ontem neste horário? Dois conhecidos talvez mantivessem distância apenas pela comodidade de ficar no mesmo lugar, sem ter que gritar para estabelecer alguma conversa.
Quem saberá se alguém já se conhece? Talvez a grande maioria reconheça uns a outros pelo mesmo horário que pegavam aquele metrô. Mamãe, banho, jantar, Facebook, tem um cara estranho me encarando porra. Ele pigarreou. Mais um defeito pra lista, é incômodo. O que tem essa menina? Parece que tenho alguma doença contagiosa. Fresca, fresca pra cacete. Livro para ler... não sei. Ligar para alguém com certeza. A moto tava novinha, o cara que me vendeu foi um amigão. Vou dar um trato na máquina hoje a noite e dar umas voltas. Chamar os cara pra um chopinho. Mesmice. Vistos detrás do banco parecem um casal. Não estão abraçados mas podem estar num desentendimento normal antes de se desculparem. Os cabelos longos jogados nas costa. O corte dele fora de moda há muito tempo, o rapaz não sabia, quase todos cortavam o cabelo assim.
Ele se endireitou na cadeira na primeira parada e se certificou do lugar. O anúncio gravado avisou. Estação Carioca. Olhou os atrasados deslizarem entre pessoas estacadas no lugar para tentar saltar. Olhou bem o perfil dela. Garota bonita, tem cara de ser cheia de manias. Parece ser bonita. Ela fingia que dormiu. De que jeito vou puxar conversa e pedir o celular dela? Pô, o cara praticamente enfiou o nariz no meu rosto. Nariz bem feito enquanto deu pra ver. Só falta tentar puxar conversa. O velho vai chegar com aqueles papos de droga de novo, saco. Já estou até trabalhando. Ei, ela olhou pra mim. Ele estava me olhando. Tenho certeza. Ela o observava pelo reflexo da barra de metal cromado.
O vagão foi arrastado em alta velocidade pelos trilhos e mergulhou na escuridão do túnel. A luz fria do vagão. Dá licença. Todos se ignoravam por educação. Vou perguntar a direção dessa linha. É esse papo não cola. Os dois joelhos roçaram um no outro numa curva acentuada. As pessoas se inclinaram e voltaram à mesma posição com as mesmas caras. Um outro parecia feliz, com ares de quem sonha. Feliz por voltar para casa que seja.
Luz mortiça. Um frigorífico cheio de pessoas vivas embora algumas parecessem o contrário. Um estudante dormia de pé. Lá em cima faz um calor muito forte. Se fosse eu já teria tentado algo. Se ela estivesse afim já tinha dado algum sinal. Se quiser falar comigo vai precisar merecer isso. Em que estação que ela desce. Qualquer coisa tem tempo de sobra. Daqui até o final da linha tem tempo pra caramba.
A mulher pediu a bolsa disfarçando a pressa. Praticamente arrancou a bolsa das mãos da moça dizendo obrigada. Não tem de quê. Da bolsa aberta dela caiu uma agenda. Ambos se abaixaram e bateram a cabeça. Foi mal. Não foi nada, tudo bem. Ela pegou a agenda primeiro. Jogou dentro da bolsa sem conferir os objetos e puxou o zíper com raiva.
Próxima parada Estação Glória. O cara é lindo bem podia ser mais educado. Que narizinho empinado, rapaz. Minha mãe já teria me jogado no colo dele sem qualquer garantia. Tá tudo bem? Tá sim. Enrolou. Que mania essa ilusão de mudarmos a ordem dos acontecimentos. A vontade conta mas é preciso ser firme. Talvez você consiga mudar o final deste conto, tudo é possível.
Ela se virou para ele com um meio sorriso. Ele olhou meio triste e levantou. Com licença. Passou entre os joelhos da moça e das costas do assento da frente com facilidade. Ainda posso pedir o número dela. Não vale a pena. ...parada: Estação... do Machado. ...a sua direita. Não olhou para trás ao passar pelas lacunas do vagão. Pensou em tirar a camisa prevendo o calor lá em cima. Ela olhou os bancos e as pessoas de pé pelo vidro no lado de fora. Quem sabe da próxima vez. Quem sabe. A porta fechou. A mochila foi firme pelo meio dos outros, ela viu. A vida é tão chata. Todo dia é igual.
Última parada. Quase todos estão de pé. Longa caminhada até sair do subterrâneo. Ela alcançou a superfície da noite. Respirou o ar quente, um mormaço salgado úmido. Assim você me assustou. Dinheiro. Levou a mão no bolso da calça justa e com alguma dificuldade achou uma moeda. Deu sem pensar. Quase não parou no lugar. Por nada. A vigília por vezes parece sonho. Se já fosse carnaval mas nem isso.

          Fim