Enquanto Clara passava ninguém mais prestava atenção nela, em seus passos miúdos, pequena como uma mariposa que perdeu o rumo da chama apagada e ainda assim seguia. Exceto os desocupados de plantão fazendo algum gesto estúpido, às vezes obsceno, às suas costas que ela fingia não ver. Pensavam que ela não via mas que visse, e daí? o quê iria fazer, ter um acesso ou correr chorando para o banheiro, que se dane. No mais era insignificante mesmo, baixinha, mignon, uma figurinha datada nesse mundo de peitos, glúteos e coxas avantajados. Entretanto era o centro das atenções entre os minúsculos cubículos onde transitava, do refeitório ao escritório do chefe e para sua mesinha. Ninguém tinha um podre considerável seu para tratar nas rodas e todos lá tinham um. Quem era ela para querer ser diferente? Sua mão repleta de papeis e documentos. Atrás das lentes dos óculos, ela os ia distribuindo aqui e ali, outras atendentes, secretárias, mensageiros. Leva isso ao Sr. Fulano de tal, por favor. Outro recado ao Sr. Sicrano, por favor.
Você pode me inquirir por que tratar de alguém tão insignificante. Por que perder o seu tempo lendo essas bobagens e que saber sobre esta moça que já não tenha dito no primeiro parágrafo. Direi mais adiante contanto que tenha a gentileza de prosseguir a leitura se não tiver algo mais importante para fazer agora. A verdade é que seu grande defeito a priori era não ter opinião própria. Sua melhor resposta era: pode ser. Então tá. Você acha? Então é isso mesmo. Sempre ouvia as reclamações do trânsito engarrafado, da separação de não sei quem do 5º andar do prédio. Fulana ficou grávida de um homem casado, não é uma vergonha, Clara? Aquele vagabundo me traiu, Clara, debaixo do meu nariz, todo mundo sabia menos eu. Esse maluco vive explorando o meu trabalho, um dia peço as contas e quero ver como ele se vira sem mim. A todos o mesmo olhar solícito, os mesmos ouvidos atentos. Minorava dores que não podia curar nela própria. Parecia indiferente.
Trocava todas as folgas com quem pedisse: natal, ano novo, carnaval, páscoa, dia do aniversário... Ficava depois do expediente esperando um e-mail imprescindível para a satisfação do gerente na manhã seguinte. Tomava o lugar de quem pedisse para ir fumar um cigarrinho na rua, beber um café, quem sabe pegar alguém na sala do almoxarifado, com o mesmo desprendimento de si mesma. Às vezes nem obrigado, todos estavam acostumados a seu modo que não pedia nada. Com isso angariou o silêncio de alguns contra sua reputação deveras estranha nos dias de hoje. A maioria jurava que ela era uma safada, saía da empresa direto para as boates e bares do centro, da zona sul, norte, oeste... - daí aquelas olheiras como dois borrões em volta dos olhos. Decerto tinha dado para o chefe e por isso era protegida dele. Para muitos era uma sonsa, uma dissimulada, santinha do pau oco. Clara fingia que não sabia de nada ou não sabia mesmo, não sei. São cinco anos de trabalho na empresa ela já tinha se acostumado.
E é aqui precisamente onde eu quero chegar, leitor. Ela não fingia ser o que era, não fazia tipo. Não! Não, era daquele jeito mesmo. Não se interessava pela vida alheia. Não tinha furtado um clips da empresa. Estava satisfeita com seu salário e sua vida. Coisa estranha. O papel que ela representava acontecia somente dentro do mundo dela onde recentemente alguém tinha entrado. Hoje finalmente terei a resposta que espero há meses. Sentou-se à mesa acanhada com uma flor murcha repassada por um colega de repartição, pequenas miniaturas de fadas e gnomos sorridentes e grotescos perdidos numa papelada organizada meticulosamente entre o computador e o telefone. Coçou o canto dos olhos.
A senhora está me ouvindo? Estou sim, desculpe. Vou refazer o contrato e levá-lo ao senhor em 5 minutos. Parece que bebe! Não vou mais aceitar este tipo de erro. Quem pediu para que alterasse a formatação do documento? A senhora agora anda pensando? Não, senhor. Não terminei! A senhora parece que nunca ouve o que eu digo, nunca responde, está sempre alheia. A senhora faz o favor de me dizer qual é o problema. Nenhum, está tudo bem senhor. É bom mesmo!
A moça pálida, meio anêmica, digitou o documento, imprimiu e levou-o a uma máquina Xérox para fazer uma série de cópias. Enquanto a luz da máquina vazava pela bandeja, indo e vindo, escaneando as laudas de papeis, entre os bips da máquina ela vigiava. Não é que Clara parecia mesmo louca? Lembrou-se de um livro que lera ou foi uma novela na tv? Limpou um cisco sobre a superfície preta da máquina zumbindo. A noiva entrava na igreja, música sacra. As portas abriram retumbantes, ponteando a cadência nupcial. Olhava os convidados através de um sorriso tímido, rosa. O homem de têmporas grisalhas que a levava segura no braço esquerdo apressou-a apertando sua mão direita. Parece que acabou o papel da máquina. Quem sonha demais vira um sonâmbulo.
Folheou o maço de folhas A4 e colocou-as no escaninho adequado. Apertou algumas teclas. As pessoas a olhavam, parecia outra sob a luz pálida, amarelada da igreja barroca. Diria-se que a rosa se abrira sob as luzes dos refletores. Um homem a esperava circunspecto no seu papel lá na frente do átrio, não olhava em seus olhos. Música grave. Vai sair hoje à noite, Clara? Não. Vou para casa, preciso terminar um trabalho. Que pena a gente vai no barzinho da esquina. Não, obrigado. Um sentimento de confusão entupiu seus pensamentos. Tropeçou na barra das inúmeras anáguas embaixo do vestido branco, farfalhante como uma pilha de papéis. O que estou fazendo aqui?
Aqui, Clara sentiu um leve frêmito vislumbrando nela própria o que aconteceria. Aproximava-se do altar, a noiva caminhava como se fosse para o matadouro. Deu a mão ao homem bem trajado e olhou para o chão, subindo os degraus forrados de carpete vermelho. E você, minha filha, aceita? Olhou aquele velho paramentado pela primeira vez. Ele tinha cara de sono e já estava irritado por ter de repetir uma pergunta tão obvia. Aceita ou não aceita? Vamos, diga. Teve um acesso de coragem e recuou, quase caiu do lugar onde estava e tossiu. Clara vibrava. Ela deixou o anelzinho de ouro cair. Clara pegou as folhas espalhadas no chão até que alguém parou e começou a ajudá-la. Olhou para os lados com pavor. Em um estado de loucura momentânea empurrou o homem. Correu. Correu como um moleque que corre depois de ter jogado uma pedra numa vidraça. Sentia-se como um gato largado em um canil. Um cão trancado com centenas de gatos. Andava sem olhar para trás. Atravessou as ruas da cidade feito uma louca solta na rua, pensava que era uma novela.
O leitor pensará: folhetins, água com açúcar, bobagens de uma desocupada. Estórias com finais manjados era do que Clara mais gostava. Nos livros que lia identificava-se com a mocinha, com o herói, com o vilão, com a amiga mau caráter, a mãe do vilão, o jornaleiro da esquina. Achava desculpa para todos. Todos eram ela e ela não era ninguém. Animais lhe causavam uma dor insuportável, de levá-la às lágrimas mais sentidas, no lugarzinho onde morava ou no banco do metrô. Será que ele vai me escrever hoje?
Escalou os degraus gigantescos do ônibus do alto de seus saltos, movendo as pernas de lado, cuidadosamente para não puxar um fio da meia-calça. Suspirou. Finalmente. A condução estava atulhada de gente. Os passageiros saíam pela culatra, um calor do meio-dia, quando já era quase noite. Instalou-se no meio como de costume, nem muito perto da roleta nem muito longe da saída. Alguém saltou apressado e ela sentou-se. A janela do ônibus parecia uma tv. Deu lugar a uma senhora magrinha que prontificou-se a segurar sua bolsa. Deixa que eu seguro, minha filha. Um homem gordo estava do seu lado olhando insistentemente. Clara não viu ou fingiu que não viu, dá no mesmo. Esmagou-a contra a haste de metal onde ela se agarrava como uma sanguessuga. O homem fundiu-se às costas dela, fartou-se do seu cheiro, a cada curva enfiava o nariz nos seus cabelos. Engavetava-se nas suas costas. Como arredar se a mulher do lado passava pelo mesmo problema? Sentar, nem pensar. A velhinha dormitando no banco acordou, fingiu que não viu mas deu um sorrisinho maroto. Ela encostou o rosto na barra fria e suspirou apertada. Enfim o homem se cansou de tanto esfrega-esfrega, na falta de um sim, de um não, de um sorriso ou uma cotovelada, aquilo perdeu a graça. Saltou bem longe do ponto dele.
Que perda de tempo gastar papel escrevendo sobre essa figurinha esquálida em situação tão comum. Gastando papel sim. O autor é um tiozinho que não se acostumou à tela branca do computador, aquilo lhe dá amnésia e dor de cabeça. Ele é do tempo da caneta e das folhas de caderno e não faz tanto tempo assim, ele resmunga. Mas sobre o que contava? Ah, sim. A inutilidade de narrar essa estória. Mas você se engana, leitor, se me permite prescindir de chamar de senhor ou senhora. São essas pessoas pardas, mal iluminadas, comuns é que oferecem um banquete que nenhuma revista Caras proporcionaria do galã bonitão da novela das oito e da gostosona do reality show. Pessoas obscuras são a melhor matéria para esse pretensioso autor. Tão falador que faz de mim, o narrador, um mero grilo falante. Mas dá certo prazer tornar público suas vidas à revelia dessas figuras que se esgueiram pela vida. No fundo todas as estórias são as mesmas.
Tenho um segredo a revelar: ela não me sai da cabeça desde que comecei sua estória, queria ajudá-la, porém o autor está indignado comigo. Disse: a arrogância que você vê em mim é a mesma que você tem. Ainda mais: que fui criado para falar sobre a vida de Clara e que eu cumpra logo o meu papel. Pois é, amigo ou amiga, manda quem pode... Realmente personagens e atores são pessoas diferentes embora pareçam ser a mesma coisa. Vamos terminar logo esse papo um tanto quanto esquizofrênico e voltemos a Clara - que já me sinto tonto com isso. Que segredos revelar dessa mosca-morta?
Não bebia, não fumava, não usava drogas, não ouvia música alto, dormia cedo, acordava cedo, não fazia barulho dentro do apartamento, não dava descarga à noite. Um autômato perdia para ela de dez a zero, de goleada. Que detalhe picante oferecer a este leitor acostumadíssimo com tudo que um Big Brother, A Fazenda, pegadinhas do You Tube de um conhecido ou desconhecido, comunidades do Orkut, verdadeiras irmandades ocultas, que já não tenha sido mostrado para todo mundo ver? Espere e verá. Um pouco mais de paciência que me perco nos detalhes tão suculentos quanto o último pedaço de carne no prato. Começo a ter pena dela. Bem... pena é melhor do que sentir raiva ou mágoa.
Quando chegou no prédio onde morava cumprimentou o porteiro. A porta do elevador quase bateu na cara dela quando um pequeno bando de crianças irrompeu do cubículo. A mãe ralhava indignada. Michael, o quê foi que a mamãe disse hoje na escola?! Desculpa, moça! Tem nada não, rapazinho. Sozinha no elevador alisou o casaquinho meio amassado. O porteiro olhava ativamente as imagens minúsculas no monitor, com olhos de águia. Se essa cabrita me dava mole, ia ver estrelas! Mas é “bom dia, boa tarde”, “obrigado isso, obrigado aquilo moço” e nada. Seu rostinho sério olhava-a de três ângulos diferentes nos espelhos do quadrado. Afinal deu um baque, ela deu um saltinho e parou. Abriu a porta com dificuldade e saiu para o corredor.
Quero tanto que ele tenha me escrito. Abriu a porta, tirou o casaco e colocou-o na cadeira junta da mesa. Ele deve estar me esperando. Sentiu uma alegria louca. Tirou os sapatos, a blusa, a saia, a meia-calça, a calcinha e o sutiã. Colocou cada peça em seu lugar, no cabide pendurado na porta, no cesto de roupa suja no banheiro, debaixo da cama no quarto. Vestiu uma calçola de algodão cor-de-rosa e uma camisola. Postou-se diante da máquina, apertou um botão e seu rosto ficou azulado pela tela. Espremeu os olhos para as letrinhas corridas e tremeu ao clicar no navegador. Correspondência: amanhã eu saio. Você vem? Vou. Será que serei demitida por faltar o trabalho amanhã? Foi uma meia mentira, ia mesmo buscar alguém da família que não via há muito tempo. Que não tinha visto nunca além da tela do monitor. Chega de andar feito um zumbi depois de tantas madrugadas na Internet, tão cheias quanto as horas do dia.
Logo mais tarde acordou bem cedo, antes do relógio despertar. Tomou seu banho meio aflita para não chegar atrasada. Ela nunca se atrasava para nada. Vestiu-se com apuro, cada detalhe, dos brincos pequenos ao perfume. Tomou um táxi, pagou o motorista e saiu com um sorriso no rosto. Será que ele vai gostar de mim? Uma mulher deixou-a passar com cara indiferente. Mais a frente um homem fardado também, não sem antes apalpar seus seios pequenos e correr a mão por todos os vincos e dobras do seu pequeno corpo. Ela ficou vermelha entretanto franziu os lábios, muda. Quando a porta enferrujada abriu-se com um barulho de trovão, outro homem fardado apareceu. Atrás dele outro de barba mal feita, de uma cor estranha entre o pálido e o amarelo, vestia uma roupa de forma desajeitada que não parecia ser dele. Clara olhou fixamente nos seus olhos. Ele abriu os braços de onde estava e apareceu uma tatuagem no dorso do braço direito “Larissa e Jonatas” e uma caveira no ante-braço esquerdo. Eles se abraçaram, tantos e-mails promissores, tantas promessas que afinal se cumpriram. Tá contigo o quê te pedi? Sim, eu trouxe tudo, quer ver? Agora não. Ele pegou-a pelo braço. Foi levando-a para a porta assim que recebeu suas coisas num balcão e foi liberado. Não caia noutra, se fizer sujeira tu volta pra cá, mané. Tá limpo, chefia. Ele respirou o ar abafado do lado de fora e estava pronto para recomeçar tudo de novo, dessa vez com Clara. Anda sua tonta! Ela fitou-o com admiração. Tá me olhando o quê? Não gostou? Gostei, José. João, mulher. Me dá um cigarro aí, meu bem. Ele a apertou nos braços na calçada.
Fim
Fim