Hoje de manhã chego mais cedo na escola e o lugar está
vazio. Entro na minha classe completamente vazia e me sento na carteira da
frente. Debruço a cabeça cheio de preguiça. Quando a levanto, constato que a sala ainda está vazia. Para onde foi todo mundo? A tia de
matemática entra na sala, carregada de livros, do diário da turma e não faz a
chamada. õe os livros na mesa e vira-se para o quadro verde sem olhar para
mim.
̶ Bom dia, tia.
Não me responde e escreve no
quadro: “Não se preocupe, nada importa”. Vira-se para frente, entretanto tem um
olhar vazio.
̶ Tia, estou aqui.
Então ela olha nos meus olhos como se não me
conhecesse. Parece outra pessoa.
̶
Tia, sou eu, o Carlinhos. Bom dia.
Ela
permanece calada.
̶
Pra onde foi todo mundo?
̶
O quê está acontecendo?
Ela fica bem na minha frente e tira a pele do rosto como se
fosse feita de massinha de modelar, vira-se e coloca aquela máscara mole
em cima da mesa dela e dá as costas para o quadro. De frente para mim seu rosto
é o mesmo. Vejo uma boneca na mesa dela.
̶
Tem um brinquedo de menina na sua mesa.
̶ Não tem nada ali, Carlos.
̶ Tia, você não gosta mais de mim?
Ela
retira aquela pele mole de cima do rosto e a deixa na minha mesinha. Mira nos
meus olhos e diz: ̶ ̶ É melhor que saia da frente do espelho.
̶ A senhora está me assustando.
Desvio meus olhar das órbitas abertas da casca para o
rosto da professora.
̶ Agora acorda e cresce.
Vi
que seus olhos estavam verdes e brilhantes, mudavam de cor e continuavam cada
vez mais verdes. Havia uma luminosidade branda em volta dos globos coloridos.
Tenho medo e choro de verdade. Quero gritar, a voz não sai, meu corpo não responde
à minha vontade. Ela continua me encarando com aqueles olhos verdes
iridescentes, indecentes.
̶ Acorda, filho. Vai se atrasar.
Sinto
uma mão acariciando as minhas costas e reconheço o som da voz da minha mãe. Ou
será da professora? Saio de um lugar profundo. Reconheço o meu quarto e o rosto
dela. Afundo no colchão, mais relaxado. Abro os olhos completamente e me sinto
confuso.
̶
Foi um pesadelo? Você está quente, está suando frio. Está tremendo,
Carlinhos. Será que está resfriado? Vou pegar um termômetro agora.
̶ Estou bem mãe, bom dia.
̶
Você estava falando coisas confusas. Estava muito agitado. Tentei
conversar com você enquanto falava. Vou buscar um remédio.
̶
Não, mãe. Vou tomar banho e me vestir pra ir à faculdade.
Não quero remédio nenhum, sua atenção me oprime. Logo
você que parecia querer me conhecer mais a fundo. Vá atender ao seu marido, sua
autômata perdida. Por que você não se ajuda? Por que se tornou tão subserviente
assim, mãe?
̶
Depois vá tomar café com seu pai. As roupas limpas estão sobre a
cadeira.
Você até fala, age e se comporta igual a ele, virou um
clone dele. Só falta me dar banho. Parece que sou uma continuação do meu pai,
porém ele é um semideus e sei que sou só carne e osso. Eu me levanto vou até o
banheiro e escuto a voz grave dele, lá da cozinha.
̶ Atrasado de novo, neném? Vem tomar seu café
para sair.
Entro
no banheiro, abro o chuveiro. Não quero tomar banho. Molho os cabelos na pia
para me pentear e os prendo com um elástico. Visto uma camiseta branca, pego
minha mochila de dentro do armário trancado e vou finalmente tomar o café da
manhã. Logo vejo da porta uma folha de jornal aberta, adivinho que na parte dos
crimes mais hediondos e o sujeito escondido atrás dela. Ele vive de pijama
desde que conseguiu afastamento da polícia militar por doença. Acho que pensa
que sou um de seus soldados ou pior, outro delinqüente. Foi o jeito que me
tratou quando descobriu que eu fumava maconha. Uma besteira que ele transformou
num caso de polícia. Só para me salvar. Salvar de quem? Dele?
̶
Bom dia, pai.
̶
Tá atrasado de novo. Toma isso
logo e sai.
̶
Já vou.
̶
Quando vai cortar suas longas
madeixas e parecer um homem de verdade?
No dia em que eu cortar a sua língua, seu babaca. Você
não tem sequer a coragem de abaixar esse jornal e olhar na minha cara.
Silêncio. Minha mãe só lava as louças, calada, de costas para nós dois. Ela
tomou seu café mais cedo para que ele ocupasse o seu território, a mesa, todos
os cantos da casa. Quem é neutro no fundo apóia o mais forte por mais que
queira ser justo.
̶ Devia
largar essa estória de estudo e ir trabalhar. Mas para ficar por mais que um
ano no mesmo emprego. No último não ficou nem seis meses. Vive dando despesas e
dar aulas particulares só pagam os livros onde você vive enterrado nos últimos
meses. Quando não são os livros é o computador. Você não paga a conta de luz.
̶
Faço o que posso.
Cara invasivo. Tanto
mais serei evasivo. Uma luz se acende no meu cérebro, o sonho. Quem vive detrás
da máscara que ele usa? Quantas máscaras serão? Não consigo me lembrar de mais
nada. Porra, aquilo, aquela sensação onírica mexe comigo.
̶
Não gosto do seu tom, rapazinho. O problema é com você. Não vê que eu
quero te ajudar?
Não, obrigado. Sua
hostilidade já me ajudou bastante até aqui. É melhor ficar calado. Quanto mais
eu falo mais ele usa minhas palavras contra mim. Para fazer nada é melhor fazer
nada na faculdade. Minha mãe resolve se manifestar.
̶ Ele faz bem, deve estudar. Seja alguém na
vida. Agora falta pouco, só mais dois anos e meio. Vai logo meu filho; para não
perder o ônibus.
̶
Então não me meto mais. Vê se não perde o caminho até o ponto, mocinha.
̶
Deixa o menino quieto. Quer outra torrada?
̶
Chega dessa porcaria sem gosto, sem manteiga, sem nada. Você acostumou o seu
filho muito mal. Sempre defende esse inútil. Vai logo tomar o seu ônibus pro fundão
e ser “alguém” na vida.
̶
Até logo, pai. Até logo, mãe.
Sujeito parvo, metido a esperto. Não sabe sequer achar
o que perde. Bato a porta atrás de mim. Filho de um “maluco de guerra” e de uma
“vendida” no que poderia dar. Não quero ser o mediador dos dois, afinal de
contas. O que posso ser eu? Admito que numa coisa ele tem razão: o conhecimento
não me trouxe nenhuma felicidade.
Tenho
lembranças obscuras da minha infância e outras tão claras. Meu pai me pegando
no colo aos três anos. Meu pai me dizendo de coisas que não devo contar a
ninguém. Meu pai bebendo muito no meu aniversário de seis anos, com bandeiras
do Flamengo, e pagando mico para os convidados. Meu pai me levando no puteiro
pela primeira vez aos treze anos. Meu pai comemorando no dia que entrei no
exército. Meu pai descobrindo maconha na minha gaveta. Meu pai me enchendo de
porrada. Meu pai batendo na minha mãe por minha causa. Meu pai reclamando que
perdeu “alguma coisa” que estava em cima do guarda-roupa. Meu pai chorando e
pedindo perdão quando resolvi “sair da festa mais cedo”, depois que “acordei”. Meu
pai é um grande idiota.
Lembro
agora do sonho estranho. Estranho... no fundo nunca sei quando sonho ou quando
é realidade. Não quero mais saber o que é real. No fim vai dar tudo na mesma. Só
fica uma vaga lembrança do passado. O ônibus, 696, Méier, Maracanã, “Fundão”, passou
antes do 665. A porta se abre. Bom dia, obrigado, maquineta, cartão, roleta. Ao
menos não me dou mais o trabalho de fazer perguntas há um ano e meio. Desço na
estação perto do hospital e pego o ônibus azul. Bom dia? Hoje parece ser um
daqueles dias bem ruins.
̶
Bom dia, valeu piloto.
Ônibus
cheio, uns calados, dormindo de pé, outros gritam, conversando com o ônibus
inteiro. Vagou um lugar.
̶
Quer que eu segure a sua bolsa?
̶
Obrigada.
As
pessoas, de todas idades, se comprimem. Um senhor de terno olha perdido pela
janela do ônibus antes dele partir. O mar. O mar sujo por mais que tentem
limpar. As garças pousam lá iguais às modelos de passarela.
̶
Senta aqui, senhora. Eu já vou saltar. A sua bolsa, moça.
̶
Obrigada, meu filho.
̶ Não há
de quê.
Será que ficarei
assim, tão paciente, se envelhecer?
As
curvas me dão vontade de vomitar. As pessoas a minha volta falam, falam, falam.
Pela janela é tudo verde, verde igual às folhas que a minha mãe põe no meu
prato e me obriga a comer. Os urubus são pretos, pretos como o meu pequeno
tesouro na mochila. Apalpo o fundo dela embaixo do meu braço direito. Tudo
certo, ainda está aqui. “Não vi nada não pai”. Ele nunca soube que cresci
porque não quer me ver. Os calouros da Matemática discutem equações e
problemas. Outros lêem ou dormem com os olhos abertos. As pessoas esbarram,
pedem desculpa. Eu estudo a vida, mas deveria fazer Filosofia. Deveria estar
dormindo.
Salto
do ônibus azul e esse calor infernal atinge o meu corpo. É janeiro, véspera do
carnaval, o auge do verão. Vejo na frente dos meus olhos dezenas de pessoas
mortas. Dezenas, não. Centenas, milhares, um monte de gente morrendo de fome na
África ou ali noutro estado brasileiro. Perto daqui, pessoas vagando pela rua e
dormindo nas calçadas. Parecem zumbis do Craque. Mortos na guerra entre o Irã e
o Iraque, mortos em atentados fundamentalistas suicidas. Franco-atiradores em
escolas e cinemas. Mulheres violentadas por tarados em ônibus e jogadas na
estrada como latas de refrigerante na Índia. O aquecimento global que aumenta a
cada ano. O mundo que não acabou naquela sexta de 2012. Este planeta é uma
cesta de lixo, não devia ser e, no entanto sempre foi assim desde quando me
lembro. Queria deixar de existir.
Vivemos
na Idade Mídia, a Dona da Verdade. Tudo o que ela mostra parece ter mais valor
que a própria realidade. Acho que perdemos a noção de valor, não sabemos mais
de coisas que jamais devem acontecer e outras que são tão simples e bonitas. Por
mais que tentem dirigir a minha atenção “apenas informando os fatos” nunca alcançarão
mostrar de fato as verdades mais horrendas, nem as mentiras mais belas, do jeito
que são. O que acontece é que cada vez que ligo a tv, ouço o rádio, leio um
jornal, uma revista, um livro, vejo um filme, ouço uma múscia ou vasculho o poço
sem fundo da Internet visto mais um disfarce. Sou enganado pensando que apenas vejo,
quando sou visto. Esse limite tão embaçado entre realidade e ficção. Discutir
isso comigo mesmo é caminho certo para a insanidade e essa brincadeira vicia.
Às vezes acho que existe alguma conspiração do universo, parece que o fantasma
da velhice chegando mais cedo.
Dezenas
de borboletas amarelas e laranjas sobrevoam o caminho. São atírias ou monarcas?
Na saída verei a pequena coruja que pisca um olho só. Lembro-me de alguém
dizendo com a boca cheia de dentes: “A mãe natureza é justa e pródiga”. Só se
for mãe tipo Medeia. A natureza não pode ser humanizada, ela não tem ética, não
tem uma escala de valores. Os mais fracos sempre serão a comida dos mais fortes
que por sua vez serão o repasto de outros maiores e seus filhotes. Essa é a
pirâmide da morte. Nenhum ser humano nasce bonzinho. Herança dos nossos
ancestrais pré-históricos é o instinto da sobrevivência, a adrenalina para
correr ou matar. As várias faces da morte, a sonhadora. Tornamo-nos bons por
conveniência social. Ninguém quer morrer de graça. Essa é a natureza que temos.
Assim que o homem deixou de ser nômade para
buscar comida e passou a ser sedentário, criou as primeiras civilizações.
Quando teve o bastante para comer, o primeiro que fez foi cobiçar o que outro
tinha, suas riquezas, mais terras e escravos. Decidiram invadir, atacar, matar
aos montes para se apossar do que é alheio. Dar valor ao que havia de escasso,
para quê decidiu-se que o ouro era uma medida de valor das coisas? Escassez ou
dificuldade de conseguir não me parece uma boa desculpa. Houve época que
valorizavam conchas do mar.
Há
poucos setenta anos um tal Dr. alemão decidia quem ia trabalhar nos campos e
quem estava fodido. Se na idade média os médicos precisavam roubar peças nos
cemitérios para dissecação, ele usava gente viva como cobaia. Abria suas
cabeças, seus corpos, ainda vivos para observar o funcionamento do organismo
humano. A história atesta que foi quando a medicina mais avançou. Se o Dr.
Fausto se assustou quando viu um camundongo vermelho saindo da boca de uma
feiticeira enquanto dançavam, aquele médico maluco introduzia ratos vivos nos
úteros das mulheres, pela vagina. Para que uns privilegiados vivam, outros
devem ser mortos.
Patricídios, matricídios,
parricídios, latrocínios, assassinatos, carnificinas, prostituição dos próprios
filhos, pedofilia, estupros, tarados, intolerâncias religiosas, racismo,
preconceitos, minorias perseguidas. Loucura. Será que Deus sabe que eles
existem? Será que Deus sabe que eu existo? Porque não sei se Deus existe. Muito
mudou e no fundo tudo continuará o mesmo, mais uma vez, enquanto houver
possibilidade de uma terceira guerra mundial. Amanhã é sábado.
Cruzo o pátio, a caminho da faculdade, no meio
da multidão que invade o mesmo portão. Saio da turba e passo os dedos num cão
sujo deitado na grama entre os trailers, dou um pedaço do meu lanche. Um gato
vem ressabiado por baixo de um banco atraído pelo cheiro do presunto. Eles já
me conhecem pela comida que comem. Eu e meu complexo de Branca de Neve. Ocupo
novamente o meu lugar na turba andante e vejo árvores, pássaros, insetos, antes
de entrar no prédio, parecem ser os únicos que me compreendem neste lugar.
Alguém bate no meu ombro esquerdo. Nesta selva fui batizado para ser uma árvore
de espécie diferente no meio de outras e de um habitat repleto de diversos
espécimes sem um par.
̶ E aí,
véio?
̶
Tudo na boa. Aula no laboratório
hoje.
̶
Tô sabendo. Tu veio na aula de
ontem?
̶
Vim.
̶
Pô aí, deixa o teu caderno
comigo, maluco.
̶
Sem problema. A gente se vê no
final dessa aula, valeu?
̶
Demorou.
O
corredor, os seguranças, a equipe de limpeza, alunos, professores,
funcionários, portas, cadeiras, um corredor que não tem fim. Chego ao fundo e
passo pela porta envidraçada. A mochila pesa nas costas. A aula já tinha
começado, a professora manda que os alunos se separem em duplas e escolham um
microscópio. Um cara forte que não fala muito sobrou do meu lado. Nós dois
perscrutamos, um de cada vez, as células mortas de um tecido emoldurada nas
lâminas de vidro. Tudo pesa e nada faz sentido. Minha mochila ainda nas costas.
Procuro nela um caderno, um lápis para desenhar aquelas células e a deixo no
colo. Duas meninas discutem baixinho sobre uma festa na noite de ontem.
A
professora faz uma preleção sobre o material da aula e eu não consigo prestar
atenção. Prefiro ouvir o que as meninas falam.
̶
Ela ainda me fica com o cara. Pô, fala sério. Caraca, muito sequelada.
Devia era estar muito doida e agora faz carinha de santa. Ih, deu mal. A mulher
tá olhando pra gente agora. Vem cá, é isso mesmo?
A
boca rosa não pára quieta. Por Deus, alguém faça meu pensamento parar.
̶
Observem que o núcleo e as diversas organelas estão destacadas pelo
corante. São células de um tecido epitelial. Quero que reproduzam o que vêem da
forma mais idêntica... ...os unicórnios existem... ...e as mitocôndrias são,
como sabem, responsáveis pela respiração celular... ...tudo é um jogo...
...Carlos, é a sua vez. Você deve agir agora.
Sinto uma pressão forte na minha cabeça, quase
caio da banqueta. As têmporas doem, os olhos ardem, a luz cega os meus olhos. Levanto
prontamente atendendo a uma ordem. Está tudo escurecendo. Vazio. Mecanicamente pego
a mochila do chão, meto a mão nela e procuro o meu tesouro. Pesa gelada, a
minha mão. O que estou fazendo? Meu sangue corre desordenadamente pelo corpo.
̶
Carlos, quem permitiu a sua entrada no prédio com isto?
̶
Quem é a senhora de verdade? Fala logo.
Não sei dizer o
quanto me sinto ingênuo e vulnerável. A criança do sonho.
̶
Cuidado todos vocês. Alguém chame o segurança, ele está armado.
̶
Todo mundo calado. Pro chão, pro chão. Ninguém sai da sala, ninguém
entra. Isso é para o próprio bem de vocês.
Ouço
gritos de longe. Vejo aquela figura estranha de jaleco na frente da sala com os
braços estendidos e mãos abertas, ela movimenta os lábios, mas eu não entendo o
que ela diz e atiro nela. O carinha do meu lado treme de medo numa poça de
urina. Miro, atiro nele e o projétil segue numa rota incerta. Vou passando pelo
corredor entre as mesas e continuo atirando. Primeiro nos maiores, depois qualquer
um. Quente, um clarão rubro da luz do sol invade a sala. Suo frio apesar do ar
condicionado.
Pessoas
correm do lado de fora. Vasilhames e frascos de vidros estilhaçam no chão.
Bancadas caem com aqueles que tentam se esconder debaixo delas. Alguns
escorregam nessa poça viscosa também sob meus pés. Só escuto os estampidos da
arma. Sinto o cheiro de pólvora, o calor da arma quente. Meu corpo está gelado
como o inferno deve ser.
Olho
para uma janela fechada coberta por uma vidraça. Vejo a professora caída no
chão que tenta fingir que não me olha. Está sangrando. Por quê? Quem é esse
cara de pé na minha frente? De camiseta vermelha, os olhos esbugalhados com
cara de louco.
̶
Qual foi, maluco? Tá me encarando por que?
Ele
é bizarro, parece que eu o conheço e tem uma arma na mão. Não devem permitir
pessoas armadas entrarem numa faculdade. Parece perdido, mais perdido que eu. Ele
conduz o cano da arma na boca. Tenho muito medo. O duplo me encara revoltado.
Senti
o gosto de pólvora, o cano é quente e queima a mucosa da minha boca. Ouvi a explosão
de um tiro. Tudo está vazio. Eu me sinto caindo no fundo de algum lugar bem
escuro enquanto as pessoas correm por cima de mim. Meus olhos ainda estão
abertos. Quero chamar alguém, mas não consigo, a voz não sai.
Os
jornais noticiaram mais uma tragédia como aconteceu em Connecticut, Estados
Unidos e no Rio de Janeiro recentemente, desta vez ocorrida em um prédio da
Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mais um atentado desta vez praticado
por um homem de 24 anos, de nome Carlos Carvalho da Silva, aluno regular dessa
entidade pública matriculado na disciplina de Biologia. Atirou nos alunos e na
professora dentro de uma das salas do prédio com uma arma que pertencia ao pai.
Especula-se se o estudante foi vítima de um provável distúrbio mental momentâneo,
ou se estava sob efeito de drogas, pois se levantou exaltado gritando frases
desconexas antes de começar a atirar.
O
atirador chegou por volta das oito horas da manhã conforme atestam várias
testemunhas. Um motorista da rede interna de ônibus da UFRJ declarou que viu o
estudante descer e agradecê-lo como de outras vezes. Ninguém sabia que ele
portava uma arma. Por volta das nove horas ouviram-se tiros e houve muita
correria.
Todos assim que puderam correram para fora da sala, um laboratório.
Alguns escaparam ilesos, outros levaram outros no colo ou agarrados pelo ombro
que não pode correr. Todos comentam que não houve nenhum aviso do tiroteio até
o momento que ocorreu. Após o atendimento pelos bombeiros, chamados ao local
tão logo se ouviu os tiros, foi constatado que não houve vítimas. Os tiros
pareceram ter sido dados a esmo ou o atirador não mirou para matar. O prédio
foi lacrado pela polícia para verificar evidências e o trabalho de perícia.
Os pais foram chamados ao local logo após o
final do acontecimento com a identificação exata do agressor. A mãe entrou em
estado de choque, antes ela declarou que o filho era um bom rapaz. O pai do
estudante disse que a arma pertencia a ele e que foi roubada por Carlos há
alguns anos sem que ele soubesse. Ainda declarou: “Todos fomos vítimas desta
tragédia”. Alguns alunos, conhecidos e amigos declararam que ele sempre foi uma
pessoal cordial ou normal, ainda que calada na maior parte do tempo. Disseram que
não conseguiam acreditar no que aconteceu. Muitos não quiseram declarar nada.
Por ironia, o único tiro fatal foi
o que o estudante deu na própria boca. Ele se suicidou depois de ficar imóvel
olhando para seu reflexo na vidraça de uma janela fechada, disse a professora.
2013
Fim