quinta-feira, 27 de junho de 2013

ora vejo

Ontem a noite escura derramou cedo,
devastou fato tornado
- ventos ainda virão.
A chuva já foi.
Seu rosto castigado de água
abriu-se plácido.
A passagem do tempo tornara-se clara
e ao lado do que está arrasado
trouxe-lhe à tona mal tratada.
Deu-se à cura. Mar
ia, vinha, seu cheiro, na areia.
Limpou o ar, amanda dona.
Preparou-lhe para o bem que irá chegar.
Divina bonança ora vejo.
A luz divisou na vista uma ordem natural, não imposta.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Ilíadas

Páris


Pelo pão e a moeda que me deu de bom grado
vou contar tuas glórias jovem pastor.
Basta de pena por esses olhos vazados
e os trapos que cobrem esse corpo degradado.
Perante os deuses sou um mensageiro que os canta,
um grande rei, grande como teu pai. Ouve:
Ela ainda te acolherá e consentirá ser levada.
Antes terás de volta todas as terras do teu reino.
Este cajado será uma espada e as ovelhas, o seu povo.
Daqui até as muralhas da cidade de Tróia.
Não te alegres ainda, agora só o mar é tua fronteira
logo farás fronteira das lágrimas dos teus e a dor.
Mas esses dias de pasmaceira, balidos tristes
e a fumaça que te aquece logo serão esquecidos
pela ostentação e o incenso da casa do teu pai.
Terás vestes púrpuras cobrindo teu corpo jovem,
de músculos esculpidos pelas rochas desta escarpa.
Mas encontrarás o amor e a tua ruína no mesmo lugar:
no teu coração.
Aceitarás o presente de quem não se pode confiar,
embora eu também a cante por sua beleza,
inebriado pela promessa de um futuro feliz.
Esse futuro distante cobrará o que não ouso te dizer.
Se te agrado ouso pedir que fuja das contendas dos grandes
e da sedução da beleza. Peça a sabedoria
ou serás obrigado a trocar a fidelidade dos teus por quem não possuis.
Mas é inútil, eu sei. Desmentir seu coração sonhador
é o mesmo que ouvir pedras que cantam.
Por fim com tua flecha farás o impossível e tu mesmo darás cabo da tua sina
enquanto as mulheres gritam e gemem a espera do cárcere.


*


Helena


A prata polida devolve meus olhos
de azuis que prenunciam tempestades.
Não diz de mim o que todos já não saibam.
Entretanto não me responde quem sou.
Essa nuvem revolta e loura emoldurando meu rosto
atrai quem não quero.
Este é o reflexo dos nichos onde sou guardada e adorada.
Uma divindade de carne, vazia como uma estátua oca.
Você sabe o que sei, sabe o que sinto?
Pode adivinhar o quanto as lacunas do meu corpo doem?
Nem minha irmã pressente o rumor que me ensurdece
entre as paredes onde sou uma serva consentida.
Elas só servem para esconder o meu grito.
Sei que um dia ele virá me buscar, um dia ele vem
e a despeito dos mortos vou segui-lo aonde for,
farta de ser nada.
Deuses não podem nada se não conseguem ser.
Ironia da minha vida: da fina casca do ovo de Leda e Zeus
adentrei a casa do meu senhor, amante e tirano.
Vivo desgraçada como o dia encoberto pela noite.
Até lá descansarei o meu olhar no mar.
Ele me fala que dia chegará
em que novamente o fitarei com o coração opresso pela dor,
dividida entre mim e minha outra metade.
Que o destino siga o seu curso ainda que
eu venha a lamentar minha sorte de novo.


*


Aquiles


Filho, como ousou pedir por sua ruína?
Quando me pediu um caminho, ofereci dois
na esperança que da fama quisesse a vida
e despedacei meu coração com sua glória.
As águas sagradas onde banhei seu pequeno corpo
são poucas diante do choro que derramei seguindo seus passos.
Agora meus olhos estão secos diante do seu corpo
chorado pelos seus.
Lançou-se na batalha derradeira pela morte do seu amado Pátroclo
cujo amor pueril era tornar-se você, vestido da sua armadura e lança.
Foi a perda de um pequeno inocente jogado nas rochas.
Que Deus permitiu que saisse do meu útero e da sua casa?
Seus feitos serão narrados por novos mundos
atiçando a minha dor eterna que me atravessa de lado a lado.
Maldito! Pelo dor que me abre uma ferida que jamais há de fechar.
Não serei mais sua mãe, agora Hades é seu pai.
Hermes já chega apressado, expedido por Palas, para levá-lo de mim.
Ninguém se lamenta por Tétis.
Talvez a culpa seja minha.
Os pais adestram seus filhos para ocuparem seus lugares
e poucos conseguem fugir dessa sina sem lutas.
Cada onda batendo na areia dessa cidade devastada
despedaça meu coração com suas honras.
Elas serão testemunha do meu ódio e do meu amor.
Não posso sequer culpar o arqueiro cujo arco te alcançou o pé.
Quem te matou foi seu ponto fraco, sua pretensão.
De que me importa que te adorem se só os deuses são imortais.
Semideuses têm data para deixar a existência.
Você é a ruína de um mundo que desmorona
e outro herói ocupará seu lugar.
Mas o meu coração de mãe continuará vazio e árido
como esta terra após seu apogeu.


*


Heitor (à nova ordem)


Abri os olhos cheios de terra.
Eu vejo, por todos os lados,
O chão, o céu desabando.
Alguém me leva pelos pés atados.
Não tenho dor, não sinto nada,
Vou sendo arrastado,
Esfolado vivo.
Os braços sacodem a esmo
E as pedras se chocam contra
a minha cabeça.
O corpo sua encharcado
De suor e terra vermelha
Uma presa de guerra.
Sei que devia correr
Sei que devia gritar
Se eu soubesse eu faria
Procuro deixar-me imóvel
Mas não consigo.
Quero ver a frente
E só vejo suas largas costas
A proteger-me enquanto
Eu me desfaço pelo caminho.
Você chama o meu nome
Mas não diz mais nada
Vai acabando comigo
Enquanto me ajuda.
Você nunca me destruirá,
Tampouco saberá
Quem sou.
Eu sou uma esfinge –
- que fala muito.


quarta-feira, 19 de junho de 2013

Completo

Fez-se preciso escrever para que não venha a esquecer
deste sentimento impreciso, sutil e alarmante.
enraizado. Ainda que apenas tenha pousado
e que um dia certamente tocará você.
Vem repousando no meu olhar descrente.
Este sentido novo que me faz sentir
o que não se pode ver nem comprovar
senão no lugar do faz-de-conta.
Tem vários nomes ou não carece que haja um.
Basta que me certifique da sua existência.
Um sopro vivificante que vem
uma, duas, quantas vezes numa vida? De quantas formas?
Desde o primeiro, não conhecido
mas muito bem guardado. Ganhou vida noutro corpo.
Amor: sentimento mais primitivo.
Vem e sempre suscita um mundo
de pessoas novas e reinventa a minha vida.
Nas noites infindas de poesia e mal dormidas.
Agora só sinto falta do violão.
Estou completo.

O nascimento dos deuses

      Quando me vi na superfície do vidro, estaquei na calçada surpreso. E vi. Vi aquele rosto fitando
o meu. Senti medo. Um medo sem explicação, o mal do pânico de ver-se encurralado, sem saída.
Mais que medo, senti que nunca mais seria igual. É muito ruim pensar que hoje possa ser o último
dia de alguma coisa, mas algo em mim morreu naquele dia. Mas me lembrei que teria de acordar
cedo no outro dia para fazer uma prova e antegozei o fracasso que seria. Não pude deixar de
sentir um certo prazer de aceitar a derrota e até sentir-me livre de um compromisso que me
arrependia de ter contraído.
       O sol batia nas minhas costas, refletia na capa dos livros e devolvia a minha imagem tesa,
sobreposta àquele rosto tão convidativo e familiar. Mas não era eu? O colorido desordenado da
moldura a volta dela perdia interesse. No que seu rosto devolvia sua luz como um astro sem luz
própria. O que eu tinha mesmo de fazer? Agora parecia que havia uma sincronia sinistra entre a
imagem e eu. Meus olhos lacrimejaram com a luz e esbocei um sorriso tímido, rezando para que
minhas espinhas não distorcessem tanto meu rosto mental. Ao que levantei a mão para fingir que
coçava os olhos e ‘ele’ fez o mesmo. Será que me via? Aquela imagem animada, estampada na
superfície fria parecia adivinhar caprichosamente meus gesto para provar sua onisciência.
       Pensei que estava ficando louco e de súbito o reflexo de um raio de sol resvalou de um carro
passando célere atrás de mim e separou nossos olhares. Nos segundos que fiquei cego pensei
que quando o reflexo ocupasse novamente meu campo visual a figura não aparecesse mais. Parei
de respirar e senti raiva da minha covardia. Onde estava quem se achava capaz de fazer o que
quisesse por querer e por desafiar as convenções sociais? Às favas o que pensam de mim! Mas
aquela pessoa tão semelhante a mim ressurgiu do clarão mais idêntica e me olhava com olhos de
muda indagação.
      Estranho... mas pensei em quando apanhei pela primeira vez do meu pai. Quis gritar que era
covardia, que eu era um menino de 8 anos e ele muito maior do que eu. Não, queria gritar que o
amava e que não podia suportar o peso da mão dele. Não da mão dele. Quis dizer que tinha razão
em querer me bater, o que era melhor do que quando me ignorava ao me ver chorando pelos
cantos. E agora... Eu sabia que iría odiá-lo pra sempre. “Seu filho da puta!” E a mão dele estalou
na minha boca. A mesma mão que me protegia dos garotos da rua. Acho que foi a primeira vez
que soube que chorar era proibido, porque ele batia mais e mais me mandando calar a boca. Dizia
que era coisa de ‘mulherzinha’ e que eu merecia apanhar. “Não abre a sua boca pra mim seu
pirralho mimado!” Quis perguntar porque me batia com tanto ódio. Quando parou suado e com a
respiração sôfrega eu vi aqueles olhos cheio de culpa, dizendo que nunca mais faria isto. Aquele
escroto! Eu me calei inchado de um orgulho mórbido. Calei que ia dizer que devolveria depois e ele
nem deixou que eu falasse. Por que deixava na mesa o que era proibido pra mim? Mas eu ia
devolver, eu ia. Quis me abraçar e eu gritei descontrolado que me batesse mais, que me matasse
de uma vez. A minha mãe interveio e me defendeu. Pediu que ele tivesse paciência e que já
bastava. Ele preferiu discutir com ela a continuar me batendo. Só me lembro vagamente dos gritos
dos dois no quarto abafado. E do quanto chorei de noite, escondido debaixo do travesseiro, com
pena e vergonha de mim mesmo. Foi a última vez que me lembro de ter chorado.
       Que viagem mais sem nexo. Os olhos do reflexo me trouxeram à realidade. Estava com os
olhos molhados. E vi aqueles olhos de pergunta, amendoados, ligados por uma linha invisível aos
meus. E depois pareciam ter raiva por serem observados. Será que eu fiz algo errado? Cocei uma
espinha no queixo para fingir naturalidade. Pensei como era bom estar ali parado sentindo o
mormaço do sol e a cor laranja tingindo tudo. O barulho dos carros, as pessoas que vez por outra
me davam um esbarrão num esforço de continuarem seu caminho pela calçada. Pessoas paravam
do meu lado, olhando pra dentro. Será que viam o mesmo que eu? Eu fingia ignorar quando me
olhavam nos olhos. Por fim alguns entravam no estabelecimento, deixando um ar gelado escapar
numa lufada de vento, ou então seguiam adiante e me deixavam lá, absorto, contemplando aquele
ser esdrúxulo e interessante.
       De súbito, como que por artifícios mágicos, a beleza daquele ser figurou-se única no meu
limitado mundo. Mais que isso, um sol da minha galáxia, distinguido-a em todo o universo. Ah,
Deus! Quanta divagação desvirtuada. Essa conversa de louco que travava comigo e meu íntimo,
para decifrar o todo do ser que me via e agora sorria pra mim, buscando cumplicidade. Tem de ser
ela, o reflexo da minha alma. Como queria ter uma máquina fotográfica aqui comigo agora. Ela
então quebrou a mágica da sincronia e alisou seus cabelos fartos. A displicência de seu gesto
tornava algo tão banal em um evento mundial. Juro que ouvi a torcida comemorando a vitória do
meu time. Era ela que merecia a luz de todos os refletores, o lugar mais alto do podium de
chegada. Depois resvalou o olhar da contracapa dos livros pra mim, parecia que olhava através do
meu corpo, embasbacado, parado ali sem defesas. Por fim sorriu como se me conhecesse
também. Meus pulmões ganharam ar revigorados. Senti ímpetos de falar com ela, perguntar se
sentia o mesmo que eu. Ela me via, ela pode me ver também! Quando mordeu seus lábios em
muda indagação, olhando para os lados, percebi que eu não era tão invisível quanto pensava. Um
rapaz apareceu detrás de suas costas e lhe disse algo no ouvido e ela riu com tanta naturalidade
que eu senti vontade de rir também. Apontou para mim, mas o rapaz alcançou um livro na vitrine.
Sem pensar me virei para as portas de vidro, decidido a entrar. Desta vez o rapaz apontou o dedo
pra mim, dizendo algo que me parecia usual. Ela sorriu e me olhou de soslaio. Eu sorri em
resposta.
         Depois continuei a andar pelas ruas com a certeza que o mundo estava mudado. O centro do
meu mundo sempre foi eu mesmo e deste centro eu chegaria aonde mais quisesse ir. Conheceria
e iría interagir com outras pessoas-mundo. Senti a alegria de ser livre e apressei o passo para não
perder o meu ônibus que já chegava ao ponto.

Poetas

Não há porque cobrar-me amor ou servidão
se vendo só ilusão vã na solidão de ti
cada um dá o melhor o de si. O poeta, a sua pena,
o lavrador, o lavor da enxada, o sábio, seu conhecimento.
Quando o real parecer faltar
o que fará a realidade senão o mito tornado rito?
E cada um se adorna das verdades que o aprouver.
Perdoa-me se te ofereço doces mentiras
ou amargas bebidas nas palavras que a dor atenua,
ou que a excede a felicidade vazia
sem trazer real ganho ou ventura
quando amizade e atenção recebo.
O cristal límpido de uma lágrima,
o luzir nublado de um sorriso.
Meu ofício é tecer sonhos
Onde poderás construir base do teu ideal.
As palavras estão sempre a teu serviço
embora aqui já não mais permanecer.
Tesouro lauto a mim dado, desgraça ou dita?
Faço um mundo de um espectro
e esta malha existe apenas por existir,
enquanto sigo só embriagado de palavras.


(Pequena homenagem a Goethe)

A sonhadora

Hoje de manhã chego mais cedo na escola e o lugar está vazio. Entro na minha classe completamente vazia e me sento na carteira da frente. Debruço a cabeça cheio de preguiça. Quando a levanto, constato que a sala ainda está vazia. Para onde foi todo mundo? A tia de matemática entra na sala, carregada de livros, do diário da turma e não faz a chamada. õe os livros na mesa e vira-se para o quadro verde sem olhar para mim.
̶  Bom dia, tia.
Não me responde e escreve no quadro: “Não se preocupe, nada importa”. Vira-se para frente, entretanto tem um olhar vazio.
 ̶  Tia, estou aqui.                                                                                
Então ela olha nos meus olhos como se não me conhecesse. Parece outra pessoa.
 ̶  Tia, sou eu, o Carlinhos. Bom dia.
Ela permanece calada.
̶  Pra onde foi todo mundo?
̶  O quê está acontecendo?
Ela fica bem na minha frente e tira a pele do rosto como se fosse feita de massinha de modelar, vira-se e coloca aquela máscara mole em cima da mesa dela e dá as costas para o quadro. De frente para mim seu rosto é o mesmo. Vejo uma boneca na mesa dela.
 ̶  Tem um brinquedo de menina na sua mesa.
 ̶  Não tem nada ali, Carlos.          
 ̶  Tia, você não gosta mais de mim?
Ela retira aquela pele mole de cima do rosto e a deixa na minha mesinha. Mira nos meus olhos e diz:  ̶             ̶  É melhor que saia da frente do espelho.
 ̶  A senhora está me assustando.
          Desvio meus olhar das órbitas abertas da casca para o rosto da professora.
 ̶  Agora acorda e cresce.
Vi que seus olhos estavam verdes e brilhantes, mudavam de cor e continuavam cada vez mais verdes. Havia uma luminosidade branda em volta dos globos coloridos. Tenho medo e choro de verdade. Quero gritar, a voz não sai, meu corpo não responde à minha vontade. Ela continua me encarando com aqueles olhos verdes iridescentes, indecentes.
   ̶  Acorda, filho. Vai se atrasar.
Sinto uma mão acariciando as minhas costas e reconheço o som da voz da minha mãe. Ou será da professora? Saio de um lugar profundo. Reconheço o meu quarto e o rosto dela. Afundo no colchão, mais relaxado. Abro os olhos completamente e me sinto confuso.
               ̶  Foi um pesadelo? Você está quente, está suando frio. Está tremendo, Carlinhos. Será que está resfriado? Vou pegar um termômetro agora.
   ̶    Estou bem mãe, bom dia.
   ̶  Você estava falando coisas confusas. Estava muito agitado. Tentei conversar com você enquanto falava. Vou buscar um remédio.
   ̶   Não, mãe. Vou tomar banho e me vestir pra ir à faculdade.
Não quero remédio nenhum, sua atenção me oprime. Logo você que parecia querer me conhecer mais a fundo. Vá atender ao seu marido, sua autômata perdida. Por que você não se ajuda? Por que se tornou tão subserviente assim, mãe?
             ̶   Depois vá tomar café com seu pai. As roupas limpas estão sobre a cadeira.
Você até fala, age e se comporta igual a ele, virou um clone dele. Só falta me dar banho. Parece que sou uma continuação do meu pai, porém ele é um semideus e sei que sou só carne e osso. Eu me levanto vou até o banheiro e escuto a voz grave dele, lá da cozinha.
  ̶   Atrasado de novo, neném? Vem tomar seu café para sair.
Entro no banheiro, abro o chuveiro. Não quero tomar banho. Molho os cabelos na pia para me pentear e os prendo com um elástico. Visto uma camiseta branca, pego minha mochila de dentro do armário trancado e vou finalmente tomar o café da manhã. Logo vejo da porta uma folha de jornal aberta, adivinho que na parte dos crimes mais hediondos e o sujeito escondido atrás dela. Ele vive de pijama desde que conseguiu afastamento da polícia militar por doença. Acho que pensa que sou um de seus soldados ou pior, outro delinqüente. Foi o jeito que me tratou quando descobriu que eu fumava maconha. Uma besteira que ele transformou num caso de polícia. Só para me salvar. Salvar de quem? Dele?
    ̶  Bom dia, pai.
   ̶   Tá atrasado de novo. Toma isso logo e sai.
   ̶   Já vou.
   ̶   Quando vai cortar suas longas madeixas e parecer um homem de verdade?
No dia em que eu cortar a sua língua, seu babaca. Você não tem sequer a coragem de abaixar esse jornal e olhar na minha cara. Silêncio. Minha mãe só lava as louças, calada, de costas para nós dois. Ela tomou seu café mais cedo para que ele ocupasse o seu território, a mesa, todos os cantos da casa. Quem é neutro no fundo apóia o mais forte por mais que queira ser justo.
   ̶   Devia largar essa estória de estudo e ir trabalhar. Mas para ficar por mais que um ano no mesmo emprego. No último não ficou nem seis meses. Vive dando despesas e dar aulas particulares só pagam os livros onde você vive enterrado nos últimos meses. Quando não são os livros é o computador. Você não paga a conta de luz.             
   ̶   Faço o que posso.
Cara invasivo. Tanto mais serei evasivo. Uma luz se acende no meu cérebro, o sonho. Quem vive detrás da máscara que ele usa? Quantas máscaras serão? Não consigo me lembrar de mais nada. Porra, aquilo, aquela sensação onírica mexe comigo.
   ̶  Não gosto do seu tom, rapazinho. O problema é com você. Não vê que eu quero te ajudar?
Não, obrigado. Sua hostilidade já me ajudou bastante até aqui. É melhor ficar calado. Quanto mais eu falo mais ele usa minhas palavras contra mim. Para fazer nada é melhor fazer nada na faculdade. Minha mãe resolve se manifestar.
              ̶   Ele faz bem, deve estudar. Seja alguém na vida. Agora falta pouco, só mais dois anos e meio. Vai logo meu filho; para não perder o ônibus.
  ̶   Então não me meto mais. Vê se não perde o caminho até o ponto, mocinha.
  ̶   Deixa o menino quieto. Quer outra torrada?                              
  ̶ Chega dessa porcaria sem gosto, sem manteiga, sem nada. Você acostumou o seu filho muito mal. Sempre defende esse inútil. Vai logo tomar o seu ônibus pro fundão e ser “alguém” na vida.
   ̶   Até logo, pai. Até logo, mãe.
Sujeito parvo, metido a esperto. Não sabe sequer achar o que perde. Bato a porta atrás de mim. Filho de um “maluco de guerra” e de uma “vendida” no que poderia dar. Não quero ser o mediador dos dois, afinal de contas. O que posso ser eu? Admito que numa coisa ele tem razão: o conhecimento não me trouxe nenhuma felicidade.                     
Tenho lembranças obscuras da minha infância e outras tão claras. Meu pai me pegando no colo aos três anos. Meu pai me dizendo de coisas que não devo contar a ninguém. Meu pai bebendo muito no meu aniversário de seis anos, com bandeiras do Flamengo, e pagando mico para os convidados. Meu pai me levando no puteiro pela primeira vez aos treze anos. Meu pai comemorando no dia que entrei no exército. Meu pai descobrindo maconha na minha gaveta. Meu pai me enchendo de porrada. Meu pai batendo na minha mãe por minha causa. Meu pai reclamando que perdeu “alguma coisa” que estava em cima do guarda-roupa. Meu pai chorando e pedindo perdão quando resolvi “sair da festa mais cedo”, depois que “acordei”. Meu pai é um grande idiota.
Lembro agora do sonho estranho. Estranho... no fundo nunca sei quando sonho ou quando é realidade. Não quero mais saber o que é real. No fim vai dar tudo na mesma. Só fica uma vaga lembrança do passado. O ônibus, 696, Méier, Maracanã, “Fundão”, passou antes do 665. A porta se abre. Bom dia, obrigado, maquineta, cartão, roleta. Ao menos não me dou mais o trabalho de fazer perguntas há um ano e meio. Desço na estação perto do hospital e pego o ônibus azul. Bom dia? Hoje parece ser um daqueles dias bem ruins.     
  ̶   Bom dia, valeu piloto.
 Ônibus cheio, uns calados, dormindo de pé, outros gritam, conversando com o ônibus inteiro. Vagou um lugar.
  ̶  Quer que eu segure a sua bolsa?
  ̶  Obrigada.
 As pessoas, de todas idades, se comprimem. Um senhor de terno olha perdido pela janela do ônibus antes dele partir. O mar. O mar sujo por mais que tentem limpar. As garças pousam lá iguais às modelos de passarela.
  ̶  Senta aqui, senhora. Eu já vou saltar. A sua bolsa, moça.
  ̶   Obrigada, meu filho.
  ̶   Não há de quê.
Será que ficarei assim, tão paciente, se envelhecer?
   As curvas me dão vontade de vomitar. As pessoas a minha volta falam, falam, falam. Pela janela é tudo verde, verde igual às folhas que a minha mãe põe no meu prato e me obriga a comer. Os urubus são pretos, pretos como o meu pequeno tesouro na mochila. Apalpo o fundo dela embaixo do meu braço direito. Tudo certo, ainda está aqui. “Não vi nada não pai”. Ele nunca soube que cresci porque não quer me ver. Os calouros da Matemática discutem equações e problemas. Outros lêem ou dormem com os olhos abertos. As pessoas esbarram, pedem desculpa. Eu estudo a vida, mas deveria fazer Filosofia. Deveria estar dormindo.                                                           
Salto do ônibus azul e esse calor infernal atinge o meu corpo. É janeiro, véspera do carnaval, o auge do verão. Vejo na frente dos meus olhos dezenas de pessoas mortas. Dezenas, não. Centenas, milhares, um monte de gente morrendo de fome na África ou ali noutro estado brasileiro. Perto daqui, pessoas vagando pela rua e dormindo nas calçadas. Parecem zumbis do Craque. Mortos na guerra entre o Irã e o Iraque, mortos em atentados fundamentalistas suicidas. Franco-atiradores em escolas e cinemas. Mulheres violentadas por tarados em ônibus e jogadas na estrada como latas de refrigerante na Índia. O aquecimento global que aumenta a cada ano. O mundo que não acabou naquela sexta de 2012. Este planeta é uma cesta de lixo, não devia ser e, no entanto sempre foi assim desde quando me lembro. Queria deixar de existir.
Vivemos na Idade Mídia, a Dona da Verdade. Tudo o que ela mostra parece ter mais valor que a própria realidade. Acho que perdemos a noção de valor, não sabemos mais de coisas que jamais devem acontecer e outras que são tão simples e bonitas. Por mais que tentem dirigir a minha atenção “apenas informando os fatos” nunca alcançarão mostrar de fato as verdades mais horrendas, nem as mentiras mais belas, do jeito que são. O que acontece é que cada vez que ligo a tv, ouço o rádio, leio um jornal, uma revista, um livro, vejo um filme, ouço uma múscia ou vasculho o poço sem fundo da Internet visto mais um disfarce. Sou enganado pensando que apenas vejo, quando sou visto. Esse limite tão embaçado entre realidade e ficção. Discutir isso comigo mesmo é caminho certo para a insanidade e essa brincadeira vicia. Às vezes acho que existe alguma conspiração do universo, parece que o fantasma da velhice chegando mais cedo.
Dezenas de borboletas amarelas e laranjas sobrevoam o caminho. São atírias ou monarcas? Na saída verei a pequena coruja que pisca um olho só. Lembro-me de alguém dizendo com a boca cheia de dentes: “A mãe natureza é justa e pródiga”. Só se for mãe tipo Medeia. A natureza não pode ser humanizada, ela não tem ética, não tem uma escala de valores. Os mais fracos sempre serão a comida dos mais fortes que por sua vez serão o repasto de outros maiores e seus filhotes. Essa é a pirâmide da morte. Nenhum ser humano nasce bonzinho. Herança dos nossos ancestrais pré-históricos é o instinto da sobrevivência, a adrenalina para correr ou matar. As várias faces da morte, a sonhadora. Tornamo-nos bons por conveniência social. Ninguém quer morrer de graça. Essa é a natureza que temos.
 Assim que o homem deixou de ser nômade para buscar comida e passou a ser sedentário, criou as primeiras civilizações. Quando teve o bastante para comer, o primeiro que fez foi cobiçar o que outro tinha, suas riquezas, mais terras e escravos. Decidiram invadir, atacar, matar aos montes para se apossar do que é alheio. Dar valor ao que havia de escasso, para quê decidiu-se que o ouro era uma medida de valor das coisas? Escassez ou dificuldade de conseguir não me parece uma boa desculpa. Houve época que valorizavam conchas do mar.                                                                                                     
Há poucos setenta anos um tal Dr. alemão decidia quem ia trabalhar nos campos e quem estava fodido. Se na idade média os médicos precisavam roubar peças nos cemitérios para dissecação, ele usava gente viva como cobaia. Abria suas cabeças, seus corpos, ainda vivos para observar o funcionamento do organismo humano. A história atesta que foi quando a medicina mais avançou. Se o Dr. Fausto se assustou quando viu um camundongo vermelho saindo da boca de uma feiticeira enquanto dançavam, aquele médico maluco introduzia ratos vivos nos úteros das mulheres, pela vagina. Para que uns privilegiados vivam, outros devem ser mortos.                                                                       
 Patricídios, matricídios, parricídios, latrocínios, assassinatos, carnificinas, prostituição dos próprios filhos, pedofilia, estupros, tarados, intolerâncias religiosas, racismo, preconceitos, minorias perseguidas. Loucura. Será que Deus sabe que eles existem? Será que Deus sabe que eu existo? Porque não sei se Deus existe. Muito mudou e no fundo tudo continuará o mesmo, mais uma vez, enquanto houver possibilidade de uma terceira guerra mundial. Amanhã é sábado.
 Cruzo o pátio, a caminho da faculdade, no meio da multidão que invade o mesmo portão. Saio da turba e passo os dedos num cão sujo deitado na grama entre os trailers, dou um pedaço do meu lanche. Um gato vem ressabiado por baixo de um banco atraído pelo cheiro do presunto. Eles já me conhecem pela comida que comem. Eu e meu complexo de Branca de Neve. Ocupo novamente o meu lugar na turba andante e vejo árvores, pássaros, insetos, antes de entrar no prédio, parecem ser os únicos que me compreendem neste lugar. Alguém bate no meu ombro esquerdo. Nesta selva fui batizado para ser uma árvore de espécie diferente no meio de outras e de um habitat repleto de diversos espécimes sem um par.
  ̶   E aí, véio?
  ̶   Tudo na boa. Aula no laboratório hoje.
  ̶   Tô sabendo. Tu veio na aula de ontem?
  ̶  Vim.
  ̶   Pô aí, deixa o teu caderno comigo, maluco.
  ̶   Sem problema. A gente se vê no final dessa aula, valeu?
  ̶   Demorou.  
O corredor, os seguranças, a equipe de limpeza, alunos, professores, funcionários, portas, cadeiras, um corredor que não tem fim. Chego ao fundo e passo pela porta envidraçada. A mochila pesa nas costas. A aula já tinha começado, a professora manda que os alunos se separem em duplas e escolham um microscópio. Um cara forte que não fala muito sobrou do meu lado. Nós dois perscrutamos, um de cada vez, as células mortas de um tecido emoldurada nas lâminas de vidro. Tudo pesa e nada faz sentido. Minha mochila ainda nas costas. Procuro nela um caderno, um lápis para desenhar aquelas células e a deixo no colo. Duas meninas discutem baixinho sobre uma festa na noite de ontem.
A professora faz uma preleção sobre o material da aula e eu não consigo prestar atenção. Prefiro ouvir o que as meninas falam.
              ̶  Ela ainda me fica com o cara. Pô, fala sério. Caraca, muito sequelada. Devia era estar muito doida e agora faz carinha de santa. Ih, deu mal. A mulher tá olhando pra gente agora. Vem cá, é isso mesmo?
A boca rosa não pára quieta. Por Deus, alguém faça meu pensamento parar. 
  ̶  Observem que o núcleo e as diversas organelas estão destacadas pelo corante. São células de um tecido epitelial. Quero que reproduzam o que vêem da forma mais idêntica... ...os unicórnios existem... ...e as mitocôndrias são, como sabem, responsáveis pela respiração celular... ...tudo é um jogo... ...Carlos, é a sua vez. Você deve agir agora.
 Sinto uma pressão forte na minha cabeça, quase caio da banqueta. As têmporas doem, os olhos ardem, a luz cega os meus olhos. Levanto prontamente atendendo a uma ordem. Está tudo escurecendo. Vazio. Mecanicamente pego a mochila do chão, meto a mão nela e procuro o meu tesouro. Pesa gelada, a minha mão. O que estou fazendo? Meu sangue corre desordenadamente pelo corpo.
  ̶  Carlos, quem permitiu a sua entrada no prédio com isto?
  ̶  Quem é a senhora de verdade? Fala logo.
Não sei dizer o quanto me sinto ingênuo e vulnerável. A criança do sonho.
  ̶   Cuidado todos vocês. Alguém chame o segurança, ele está armado.
  ̶  Todo mundo calado. Pro chão, pro chão. Ninguém sai da sala, ninguém entra. Isso é para o próprio bem de vocês.
Ouço gritos de longe. Vejo aquela figura estranha de jaleco na frente da sala com os braços estendidos e mãos abertas, ela movimenta os lábios, mas eu não entendo o que ela diz e atiro nela. O carinha do meu lado treme de medo numa poça de urina. Miro, atiro nele e o projétil segue numa rota incerta. Vou passando pelo corredor entre as mesas e continuo atirando. Primeiro nos maiores, depois qualquer um. Quente, um clarão rubro da luz do sol invade a sala. Suo frio apesar do ar condicionado.
Pessoas correm do lado de fora. Vasilhames e frascos de vidros estilhaçam no chão. Bancadas caem com aqueles que tentam se esconder debaixo delas. Alguns escorregam nessa poça viscosa também sob meus pés. Só escuto os estampidos da arma. Sinto o cheiro de pólvora, o calor da arma quente. Meu corpo está gelado como o inferno deve ser.
Olho para uma janela fechada coberta por uma vidraça. Vejo a professora caída no chão que tenta fingir que não me olha. Está sangrando. Por quê? Quem é esse cara de pé na minha frente? De camiseta vermelha, os olhos esbugalhados com cara de louco.
  ̶   Qual foi, maluco? Tá me encarando por que?
Ele é bizarro, parece que eu o conheço e tem uma arma na mão. Não devem permitir pessoas armadas entrarem numa faculdade. Parece perdido, mais perdido que eu. Ele conduz o cano da arma na boca. Tenho muito medo. O duplo me encara revoltado.
Senti o gosto de pólvora, o cano é quente e queima a mucosa da minha boca. Ouvi a explosão de um tiro. Tudo está vazio. Eu me sinto caindo no fundo de algum lugar bem escuro enquanto as pessoas correm por cima de mim. Meus olhos ainda estão abertos. Quero chamar alguém, mas não consigo, a voz não sai.
Os jornais noticiaram mais uma tragédia como aconteceu em Connecticut, Estados Unidos e no Rio de Janeiro recentemente, desta vez ocorrida em um prédio da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mais um atentado desta vez praticado por um homem de 24 anos, de nome Carlos Carvalho da Silva, aluno regular dessa entidade pública matriculado na disciplina de Biologia. Atirou nos alunos e na professora dentro de uma das salas do prédio com uma arma que pertencia ao pai. Especula-se se o estudante foi vítima de um provável distúrbio mental momentâneo, ou se estava sob efeito de drogas, pois se levantou exaltado gritando frases desconexas antes de começar a atirar.
O atirador chegou por volta das oito horas da manhã conforme atestam várias testemunhas. Um motorista da rede interna de ônibus da UFRJ declarou que viu o estudante descer e agradecê-lo como de outras vezes. Ninguém sabia que ele portava uma arma. Por volta das nove horas ouviram-se tiros e houve muita correria.
Todos assim que puderam correram para fora da sala, um laboratório. Alguns escaparam ilesos, outros levaram outros no colo ou agarrados pelo ombro que não pode correr. Todos comentam que não houve nenhum aviso do tiroteio até o momento que ocorreu. Após o atendimento pelos bombeiros, chamados ao local tão logo se ouviu os tiros, foi constatado que não houve vítimas. Os tiros pareceram ter sido dados a esmo ou o atirador não mirou para matar. O prédio foi lacrado pela polícia para verificar evidências e o trabalho de perícia.
            Os pais foram chamados ao local logo após o final do acontecimento com a identificação exata do agressor. A mãe entrou em estado de choque, antes ela declarou que o filho era um bom rapaz. O pai do estudante disse que a arma pertencia a ele e que foi roubada por Carlos há alguns anos sem que ele soubesse. Ainda declarou: “Todos fomos vítimas desta tragédia”. Alguns alunos, conhecidos e amigos declararam que ele sempre foi uma pessoal cordial ou normal, ainda que calada na maior parte do tempo. Disseram que não conseguiam acreditar no que aconteceu. Muitos não quiseram declarar nada.              
            Por ironia, o único tiro fatal foi o que o estudante deu na própria boca. Ele se suicidou depois de ficar imóvel olhando para seu reflexo na vidraça de uma janela fechada, disse a professora.

2013


Fim

O século de ouro

      O menino colocou a última pedra sobre o chão pedregoso recém revolvido. “Foi a decisão dela. Agora estou sozinho, mãe. Aos menos te deram a honra de ser sepultada e sua carne, sagrada pra mim, não ser comida pelos abutres até apodrecer. Este será o nosso segredo”. As poucas pessoas se afastaram sob o sol forte, o chão soltava fagulhas de volta para o céu. Todos calados, cabisbaixos, não olhavam mais o rapaz. Quando se dispersaram da necrópole em direção aos portões da cidade, uma moça de cabelos longos respirou fundo, olhou para trás e voltou. Seus cabelos estavam soltos e sujos da terra. Pegou o irmão pelo braço e puxou-o com firmeza mas com carinho. Ela estava resignada e não esperava nada melhor desde muito. Ele fervia por dentro como só Hades poderia saber.
- Você não vê que não adianta?
- Ela ainda falou comigo um pouco antes...
- Vamos voltar, anda. Teu senhor te espera.
- Vai embora! Você é uma egoísta, só pensa em você mesma!
       A moça olhou séria, pressionou os lábios e deixou-o com seus pensamentos. Afastou olhando para o chão, olhava para frente de vez em quando até os pórticos da cidade solidificarem no seu portentoso tamanho. “Cada um fez a sua escolha, eu tentei”. Quando chegou às portas da cidade olhou para trás e ele ainda estava lá, uma imagem longe e escura, sentado no chão olhando para cima, para o céu azul. Agora aquela pequena sombra lhe parecia um vulto sinistro. Abutres voavam em círculos no éter sem nuvens. Um casal a esperava, abraçou-a e a levou para dentro dos muros de pedra.
- Vou me vingar da sua partida tão cedo, mãe. Por Palas, a quem a senhora me confiou, eu vou.
       Não conseguia mais chorar, os olhos ardiam. Tentava e nada saia. Não era época de chuva nos dias de Hera. Palas de Atenas vinha por alguns momentos e parecia o fim do mundo entretanto depois se recolhia e tudo voltava ao normal. O sol crestava aquela terra de ninguém do ponto mais alto. Ele voltou as costas à mãe. Ele vai me pagar, juro que vai.
Passou pelo pórtico, pelos vendeiros, pelos sacerdotes, pelos servos do palácio e entrou na construção sólida. Sentiu-se menor ainda dentro daquela construção avantajada. Apoiou a mão numa das colunas alvas e olhou para os olhos azuis de Zeus. Brilhavam plácidos. “Olhos que não me dizem nada. Parecem com os dele. Para mim acabou”. Caminhou pelo mosaico de quadrados negros e brancos que levavam a outro aposento. Esgueirou pelos corredores dando lugar às servas com seus jarros, chegou noutro grande aposento e se jogou numas almofadas escarlates no canto mais afastado. Os outros meninos não ousaram olhar para ele. Só quero dormir.
      Teve sonhos. Presságios? Era abraçado pelos pais tão novos, brincava com miniaturas. A cada vez que olhava para o rosto deles pareciam diferentes, mais velhos. Sim, havia já cabelos brancos e vincos profundos por detrás de seus sorrisos. Uma outra mulher olhava para ele. Sentiu que tocaram seu ombro pelas costas. Ela tomou seu pescoço e beijou sua boca enquanto afagava os primeiros pelos que cresciam no seu peito viril. Depois foi embora. Então mordeu algo duro, uma chave. O chão começou a sacolejar e uma fenda se abriu no penhasco. Chamou pelos pais, sua voz era de um homem mas não saia da boca. Correu despenhadeiro abaixo apertando nas mãos uma figurinha de terracota, um boi. Alguém soprava nos seus ouvidos insistentemente e não era o vento forte varrendo tudo.
- Acorda garoto. Você tem de comer alguma coisa ou vai ficar doente. Hoje a noite é sua, faça o que quiser contanto que não saia dos arredores e não se aproxime da ala real. Mas esteja bem amanhã.
- Me deixa, quero dormir.
- Você já dormiu demais. Vai ficar sem sono, rondando os corredores de madrugada. A rainha já te viu uma vez e reclamou às aias.
- O quê me importa? Quero dormir.
- Você não é agradecido a ninguém. Se quer chorar, chore. Depois que se cansar lembre dos que tiveram destino pior. Ninguém foge das moiras.
- Sou diferente, eunuco, eu posso. Agora vai e me deixa aqui.
- Então durma se quer assim. Quando quiser conversar me procure.
      O homem, de seus trinta e poucos anos, levantou; antes cobriu o garoto com uma manta. Apalpou sua fronte avermelhada e quente. Parece ter febre. “Vou mandar uma serva dar néctar de abelhas ao garoto. O rei vai ficar satisfeito comigo. Passei pelo mesmo, entendo o fedelho mas ele precisa crescer. Precisa de pulso firme. Se crescer desse jeito terá o mesmo destino do pai dele. Afrodite sabe o quanto eu o protegi. O quanto pude. Os outros também precisam de mim e me dão menos trabalho”.
- Se não fosse esse temperamento tão difícil.
       O sussurro não foi ouvido por ninguém, já estava escuro e a lamparinas mal iluminavam o caminho. As estátuas pareciam figuras do além. O grande general volta amanhã, com honras de vitórias. Deve querer descanso e eu também quero. Não vou permitir que esse jovem tolo estrague o meu trabalho. Sentiu algo frio escorrer pelas costas e não tinha ninguém atrás dele. Voltou aos aposentos, o menino dormia. “O escuro nunca me deu medo”.
Quando Evandro acordou era bem cedo. O carro de Hélio ainda mal principiou a subida no horizonte. Foi para o lugar de comer. Aos poucos chegavam outros servos e meninos juntavam-se perto dele. Comeu calado e não olhou para os lados. O som de harpas já flutuava pelos corredores mas aquilo não lhe dava mais prazer. Uma mulher velha e rotunda afagou seus cabelos anelados e deu um pedaço de pão e uma vasilha de leite de cabra. Ele tinha olhos brilhantes e quis que ela o abraçasse.
- O quê quer meu menino? Quer uma fruta?
- Eu... eu não, estou satisfeito. Não quero nada.
- Rapazes sonhadores... Uma sombra azul já mancha o seu rosto. Tenho um filho da mesma idade que a sua. -
       A escrava deu um beijo na testa dele. O colo dela cheirava a alabastro.
Maquinalmente saiu do palácio até a sombra de um árvore onde um ancião explanava a outros jovens sobre as ciências. Mais tarde teria equitação. As aulas preenchiam quase todas as horas da manhã. Será que meu pai teria vergonha de mim agora? Ouviu a preleção sobre plantas exóticas e da terra, a matemática dos orientais, as táticas de guerra, normas de tratamento quanto às mulheres. Ele fixou os olhos no pergaminho desenrolado de uma das hastes e as letras dançavam na frente dos olhos dele, ficavam fora de foco. Se recompunham, formavam outras palavras. “Que droga! Não pedi nada disso, estava feliz na minha casa com meus pais e meu irmãos até o exército dele chegar!” Sentiu remorso por não escutar o pedagogo. Quando ele veio ver o que marcava sobre a tabuinha de cera com o estilete apertou o braço dele. Abraçou o homem velho e chorou.
- Ora rapazinho, homens não choram. Mas deixe os humores saírem do seu jovem corpo e vai se sentir mais leve. Vamos, leia o que escreveu para mim.
- Peço permissão para sair senhor.
- Não desperdice o tempo nem as oportunidades. Lembre-se de agarrá-las pelos cabelos quando estiver na sua frente. Depois não terá mais nada para agarrar. Só vai ver o rosto dela pelas costas te olhando.
- Preciso sair. Desculpe professor mas as palavras o vento leva.
- Palavras escritas, não. Não se alguém ainda puder lê-las, hoje ou daqui a milênios.
- O senhor tem razão.
- Evandro, vá ver o rebanho pastar e aprenda algo observando-o. Conte-me depois o que viu, está combinado?
      Assentiu com a cabeça e saiu sem saber para onde se evadir.
De tarde dedilhava a cítara para esquecer que fugiu das aulas de equitação mais cedo. Por isso não pode comer. Puxou uma corda de cada vez. Foi percorrendo a escala enquanto uma mão descia e outra subia o instrumento. Desta vez quando ver o senhor de novo vou agir. Enquanto o uníssono das cordas desaparecia no ar lembrou de que há pouco nos dias da constelação do pelego de ouro completou 14 anos. Ele é bom comigo, nunca me machucou, mas é sujo. Ele vai ver do que um homem é capaz para defender sua honra. Puxou as cordas com precisão.
      Assim que abriu os olhos do sono da tarde viu que todos já tinham saído. O grande dia da chegada do rei e seu exército. Passava longas temporadas fora mas parecia estar sempre presente. O lugar era chamado de república pelos sábios e por ele. Que diferença isso faz... se continua a ser chamado de rei. Todos respeitavam-no. Vestiu a túnica branca de qualquer jeito e correu para o salão de entrada. Desta vez não se deteve no corredor para olhar as estátuas que ladeavam o caminho. Cada uma com sua história. Não relanceou nem mesmo à preferida, a do matador da górgona. Os olhos daquela bela cabeça de mulher eram belos embora as serpente verdes fossem tão repelentes que pareciam vivas. Era o deus que mais admirava. Queria também ter um pégasus e sair dali para outras paragens. Chegou sorrateiramente e se uniu ao grupo semelhante a ele. Que sorte! Ninguém sentiu minha falta.
- Não sabe mais se vestir neném?
- Não tive muito tempo para dispor das vestes. O que foi Filipe?
- Deixa eu ajeitar o alfinete da túnica aqui no seu ombro, está torta.
O tutor virou-se de lado, retirou o alfinete e o recolocou por entre o tecido. Tocou o pescoço do menino com um de seus dedos e não o tirou.
- Tira as mãos de cima de mim seu velho imundo!
Apesar da confusão do salão alguns olhavam de lado e pediam silêncio porque o rei já ia falar a todos.
- Calma aí, rapaz! Se não se comportar e me obedecer volta agora para o dormitório.
- Cala a boca!
- Calado você!
- Vai fazer o quê? Vai invocar sua deusa,  seu nojento?
      Afastou-se do preceptor e ficou empertigado num canto olhando firme para longe. Quando a respiração arrefeceu seu orgulho juvenil olhou os vários grupos espalhados pelo amplo salão. Ficou encantado com os soldados sacudindo suas longas cabeleiras louras. Falavam alto e riam contando as glórias do último combate em terras distantes ao norte. O rei não gostava de guerras mas procurava se defender, igual aos outros. Quero ser um deles quando crescer. Mas foi desse jeito que o senhor invadiu as terras onde eu vivi e meu pai morreu em combate. As lanças, os elmos, os escudos de bronze, os pelegos que cobriam seus corpos bronzeados. Um grupo de vários estrangeiros falavam numa língua desconhecida ao lado. Discutiam em voz alta e bebiam vinho. Jovens belas passavam com vozes de naiades, aquelas estranjeiras portavam jóias de resina feitas de âmbar. Houve uma na casa do seu pai. Muitos nobres recostavam-se em divãs disfrutando as carnes trazidas pelos servos.
A rainha entrou primeira. Madura e altiva, vergava uma túnica violeta. Pouco falava, só ouvia e sorria, entre uma frase e outra, matendo um olhar aquilino ao redor que ocultava sob um semblante sério.
- Pega o copo de vinho, Evandro! Quem sabe Dioniso não te dá melhores conselhos que o líquido amargo que já sai da sua boca.
Bebeu o líquido avermelhado, adocicado, acre e Dioniso primeiro chegou manso e dissimulado. O efeito do vinho ocultava seus pensamentos fragmentados. A música parecia mais ampla. O mundo parecia fazer sentido. Começou a sentir a felicidade da embriaguez. Por fim o rei chegou e ocupou o divã num degrau mais alto quase no centro do salão, à vista de todos. As pessoas comiam, riam, contavam as glórias do imperador, louvavam sua sabedoria. Ele nunca tira o elmo em público, dizem que tem o crânio deformado por uma pedra numa batalha. Só eu e a rainha sabemos da verdade. Sorriu com altivez e andou por entre as pessoas e os divãs de mármore com sua túnica púrpura. Sabia que era observado e isso agradava o seu orgulho. Parou quando o rei levantou e disse palavras de paz entre os povos, louvou aos deuses e convidou a todos para que se divertissem e bebessem o vinho enquanto não acabasse. O rei olhava as dançarinas orientais serpenteando no centro do salão, tocando os convivas com suas vestes coloridas. Músicos sonavam estranhos instrumentos de percursão feito de couro de animais e outro de madeira ou de metais. São tantas cores que não conheço. Ele tem um olhar sábio, bondoso, só eu sei quem ele é.
Atrás dele estava uma Minerva de mármore coberta de cera e de pigmentos coloridos. Seu olhar repousava sobre ele além da cabeça da coruja que ela portava no ombro. A deusa guerreira segurava seu escudo e sua espada com a outra mão e trazia na fronte seu capacete. A ver assim parecia que a estátua o contemplava e que o protegia. Era um apenas um homem pequeno mas era dela. Ele foi vagando entre as pessoas.
      Filipe alcançou o rapaz e puxou-o para o grupo dos rapazes.
- O senhor o quer esta noite. Parabéns seu pirralho mimado, caiu nas graças do rei!
- Você não tem nada com isso.
- São todos assim da terra de onde veio? Toscos e intratáveis? Você já sabe o que fazer.
- Antes de anoitecer completamente estarei nos aposentos real.
- Assim fica melhor. Você é um jovem bonito, Apolo soube te contemplar quando viu a luz do mundo.
- Não toque mais em mim. Você vai morrer escravo e eu não sou igual aos outros.
- Não é mesmo, os outros têm educação. Sabem agradar. Você é um animal. Anda, vai... As mulheres precisam te banhar e ungir com os óleos aromáticos. Não vá me prejudicar.
- Controle-se senhor, sei o que fazer. Você não me interessa.
      No fundo, Filipe do alto de seus trinta anos admirava aquela alma indomesticável. O rei sabia escolher bem. Ele tem futuro.
Evandro já estava sóbrio e antevia o encontro. Mais tarde já estava no leito do rei.
- Fique aí, meu rapaz. De noite o mármore esfria muito.
- Deixa que eu lhe sirva.
- Calma... parece que é sempre a primeira vez. Quer saber? Isso me agrada. Você é o meu preferido. Até a rainha parece nutrir ciúmes de ti, meu caro.
- Desculpe, não pretendi ofender a nobre rainha com minha existência.
- Deixe pra lá, eu a conheço bem. Ela é uma mulher nobre e sabe seu lugar.
Alguém bateu palmas do lado de fora.
- Quem é? É você Aspásia? Entre.
- O nobre senhor deseja algo mais? Deseja que chame as servas ou que eu mesmo o sirva?
- Não, minha senhora. Deite-se e durma cedo. Amanhã teremos muito a fazer. Quero que me dê alguns conselhos sobre decisões a tomar. – A mulher madura perscrutou o quarto amplo, viu o anteparo com a jarra de vinho, as estátuas, o jovem assustado no leito, tudo de um jeito impassível.
- O senhor realmente não deseja mais nada? - Olhou nos olhos do rapaz.
- Deixe-me beijar sua face, antes que Morfeu visite seu sono. Agora vá.
- Há guardas como de costume na entrada do seu aposento. Sendo assim vou me recolher.
     Evandro levantou do leito e chegou a mesa. Serviu o vinho rubro e contemplou a superfície do líquido vermelho. Parece sangue. O aroma da beberagem o sabia com muito prazer. Olhou as largas costas já desnudas do rei. Sentiu um peso nas costas e uma tristeza infindável. “Sim, pai vou cumprir seu pedido”. Apalpou a cintura e por baixo da faixa tirou um minúsculo alforje de couro. Deu as costas ao rei e derramou um pó arenoso de um frasco num dos copos e afastou-o para um canto da salva sobre um arabesco incomum. Seus olhos se refletiram. “Hoje o senhor paga o que me deve”.
Sentiu as mãos grandes e fortes do senhor virando-o pelos ombros já bem largos.
- Vá para o leito agora. Levo o vinho.
O soberano colocou a bandeija no chão, perto da cama.
- Sim, senhor.
     Recostou-se nas almofadas e olhou a fronte ampla do rei. Seus olhos delineados por finas rugas eram duros mas não eram maus. Seu perfil era típico da terra, angular. As barbas encaroladas pareciam esculpidas sobre o rosto circular com arestas angulares. “Sinto-me cansado, nunca me vi tão só. Minha irmã já está salva. Quanto aos outros não há mais o que fazer”.
- Farei de você um grande guerreiro. Lutará ao meu lado e sei que defenderá a minha vida com a sua. Você tem fibra, a mesma estirpe dos teus.
- O senhor é muito bom.
O rapaz aquieceu e olhou para os lados, viu uma nesga negra coberta de estrelas da noite. A lua tinha ido visitar outro canto do mundo. “Onde estaria?”
- Terá a sua mulher e eu mesmo vou escolher. Será uma nobre e esse casamento vai assegurar que esteja sempre próximo a mim.
- O senhor tem razão.
- Repouse essa testa franzida, meu menino. As respostas serão encontradas a seu tempo.
Olhou o fundo dos olhos dele: “Eu odeio você. Tenho nojo do seu cheiro. Odeio a sua mão. Serei condenado ao degredo e nunca conhecerei os Campos Elísios”. No entanto a juventude dissimulava sem esforço o veneno já destilado pela mente dele.
- Você treme. Beba um pouco do vinho, vamos.
     O menino sorveu do copo sofregamente.
 - Agora você é meu.
       Evandro sorriu. “Eu sei. Mas a vitória é minha. Você conseguiu, aquele rato imundo do Filipe vai ficar satisfeito”. Abriu os olhos e viu o rei tirar o elmo. Por instantes viu os olhos de Zeus na frente dos seus.
Ele olhou novamente o rosto do assassino do seu pai, do mandante do assassinato, era igual. Do assassino da mãe dele, do motivador, era equivalente. “Não me lembro mais do rosto do meu pai”. Sentiu as mãos do homem maduro tocar suas orelhas e deslizarem para a nuca. Olhos para os lábios dele antes que se encostassem nos dele. Ele olhou o rapaz com um olhar compreensivo, depois pegou a salva de prata e ofereceu uma taça. Evandro escolheu bem o copo. Esperou o rei beber do dele. Depois sorveu tudo do próprio copo e um calor agradável se espalhou a partir do ventre pelo corpo todo. Fechou os olhos e sentiu outro beijo, a língua do inimigo explorando a sua boca. Afastou-o com uma das mãos. Sentiu um murro na boca do estômago, suas entranhas se queimaram. Ele correspondeu ao beijo.


2011


Fim