Qual artista, artesão poderia criar
uma rosa, com suas cores, formas e textura
acaso nunca houvesse conhecido nenhuma?
terça-feira, 24 de dezembro de 2013
domingo, 22 de dezembro de 2013
Muito pouco
Abre os meus poros
sem medo do que vão falar.
Porque estou na sua
e é aí que eu quero estar.
Como seria diferente
se com você sinto paz;
Quero que saia da margem
porque vou me lançar no mar.
Só dizer que te amo
me deixa ansioso, isso é pouco.
sem medo do que vão falar.
Porque estou na sua
e é aí que eu quero estar.
Como seria diferente
se com você sinto paz;
Quero que saia da margem
porque vou me lançar no mar.
Só dizer que te amo
me deixa ansioso, isso é pouco.
Pathos, Ethos, Rictus, Hybris, Mimo
Todo desafio
leva alguém além
do lugar onde está.
Toda dor
faz o melhor sentido
aflorar quando passar.
Todo medo
traz alegria
quendo se sente paz.
Todo impasse
faz você pouco se importar
com as armadilhas da vida.
Desafio, dor, medo, impasse
incomodam mas levam a algum lugar,
ao melhor lugar,
aquele onde a emoção
encontra a razão.
(Pathos)
*
O amanhã pouca importa
se não se pode contar
com absoluta certeza
que ele chegará.
O amanhã é o lugar
mais longinqüo que você
poderá encontrar.
O hoje é o amanhã de ontem.
Então deixe o tempo passar
sem contar com o que não tem.
Contente-se com o agora.
E, seja como for,
que ao final,tudo fique bem.
(Ethos)
*
leva alguém além
do lugar onde está.
Toda dor
faz o melhor sentido
aflorar quando passar.
Todo medo
traz alegria
quendo se sente paz.
Todo impasse
faz você pouco se importar
com as armadilhas da vida.
Desafio, dor, medo, impasse
incomodam mas levam a algum lugar,
ao melhor lugar,
aquele onde a emoção
encontra a razão.
(Pathos)
*
O amanhã pouca importa
se não se pode contar
com absoluta certeza
que ele chegará.
O amanhã é o lugar
mais longinqüo que você
poderá encontrar.
O hoje é o amanhã de ontem.
Então deixe o tempo passar
sem contar com o que não tem.
Contente-se com o agora.
E, seja como for,
que ao final,tudo fique bem.
(Ethos)
*
A dor aumenta a distância
e multiplica a alegria do reencontro.
A dor pode nos destruir
por dentro mas faz crescer.
A dor corrói as entranhas
mas a cura faz renascer.
A dor trái o corpo
mas quando passar
fará sua mente levitar.
(Rictus)
*
Depois de tudo
que eu viver.
O único que quero levar
é o alívio do último instante
e deixar meu lugar
para quem virá.
(Hybris)
*
Imitação da vida
Nâo perderei meu tempo
com predições do futuro.
Mas não importa como
levarei comigo meus sonhos.
(Mimo)
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
Tudo
De tudo o que eu digo
eu me aproprio.
E do que vejo o tempo todo
quase sempre me esqueço.
Se o que me falam entra pelo ouvido
o que não presta, sai pelo outro.
Quem não conta consigo
não conta com ninguém.
Sinto cansaço milenar
e o peso do mundo nas costas.
2005
eu me aproprio.
E do que vejo o tempo todo
quase sempre me esqueço.
Se o que me falam entra pelo ouvido
o que não presta, sai pelo outro.
Quem não conta consigo
não conta com ninguém.
Sinto cansaço milenar
e o peso do mundo nas costas.
2005
Vem
Não me adianta poder
falar e ser
condenado à mudez.
Você não sabe
o quanto isso me deixa
mal.
Então vem,
abre os meus poros
sem medo
do que vão falar.
Porque estou
na sua
vida.
É aí onde quero
estar.
Como seria diferente
se com você
sinto
paz.
Quero que você saia
da margem
porque vou
me lançar
no seu mundo.
Então só
diz
que te amo,
me deixa
ansioso,
isso
é
pouco.
2013
falar e ser
condenado à mudez.
Você não sabe
o quanto isso me deixa
mal.
Então vem,
abre os meus poros
sem medo
do que vão falar.
Porque estou
na sua
vida.
É aí onde quero
estar.
Como seria diferente
se com você
sinto
paz.
Quero que você saia
da margem
porque vou
me lançar
no seu mundo.
Então só
diz
que te amo,
me deixa
ansioso,
isso
é
pouco.
2013
O que de mim é reflexo e nem assim decido se posso
E essa estranheza que me trouxe bem mas me quer partido
Quanto descanso que trouxe momentâneo alívio
E ao sair deixou-me ralo, inconsistente e acabado
E de que mais posso falar?
Ontem a chuva arrastou dezenas de pessoas
O asfalto cedeu e formou um barranco
E aqui a urgência de me sentir vivo
2004
E essa estranheza que me trouxe bem mas me quer partido
Quanto descanso que trouxe momentâneo alívio
E ao sair deixou-me ralo, inconsistente e acabado
E de que mais posso falar?
Ontem a chuva arrastou dezenas de pessoas
O asfalto cedeu e formou um barranco
E aqui a urgência de me sentir vivo
2004
Não espero o teu perdão
Nem aquele que lhe dei
Porque a ti dei meu perdão
E você não o devolveu
Deixar de abrigar tanto ódio
É tão difícil quanto largar um vício
Dia chegará, nos abraçaremos sem rancor
Depois de uma noite trágica, sôfrega de dor
O mal e o bem são iguais
Quando o queremos igual
E vivem irmanados, entre nós, entrelaçados
Porque é do ser humano
O resto é estar aqui
Tanto ódio assim envenena
A alma, teu corpo
Teu coração todo se turva
Morde os lábios que te abrigam
Beija-os com cupidez
Amor e ódio podem ter preço
Mas o coração só se rende ao querer
Plantei uma semente de querer
Para o desejo vingar
E assim encontrar o amor
E nos irmanarnos juntos
Puros como uma plantinha que vinga
Crescer envolto da terra revolta e macia
2011
Nem aquele que lhe dei
Porque a ti dei meu perdão
E você não o devolveu
Deixar de abrigar tanto ódio
É tão difícil quanto largar um vício
Dia chegará, nos abraçaremos sem rancor
Depois de uma noite trágica, sôfrega de dor
O mal e o bem são iguais
Quando o queremos igual
E vivem irmanados, entre nós, entrelaçados
Porque é do ser humano
O resto é estar aqui
Tanto ódio assim envenena
A alma, teu corpo
Teu coração todo se turva
Morde os lábios que te abrigam
Beija-os com cupidez
Amor e ódio podem ter preço
Mas o coração só se rende ao querer
Plantei uma semente de querer
Para o desejo vingar
E assim encontrar o amor
E nos irmanarnos juntos
Puros como uma plantinha que vinga
Crescer envolto da terra revolta e macia
2011
O que mais
O que de mim é reflexo e nem assim decido se posso
E essa estranheza que me trouxe bem mas me quer partido
Quanto descanso que trouxe momentâneo alívio
E ao sair deixou-me ralo, inconsistente e acabado
E de que mais posso falar?
Ontem a chuva arrastou dezenas de pessoas
O asfalto cedeu e formou um barranco
E aqui a urgência de me sentir vivo
2005
Que posso dizer mais
que doeu?
Então eu amadureceu
cresceu
morreu
Deu seu lugar
pra mim
Alguém tão perto
sem que soubesse
Assim, completo
posso esperar por você
Num dia como esse
Para sermos gente no plural
Todo dia é a mesma luta
Insisto em ter esperança
Por falta de opção
É pra rir
2012
E essa estranheza que me trouxe bem mas me quer partido
Quanto descanso que trouxe momentâneo alívio
E ao sair deixou-me ralo, inconsistente e acabado
E de que mais posso falar?
Ontem a chuva arrastou dezenas de pessoas
O asfalto cedeu e formou um barranco
E aqui a urgência de me sentir vivo
2005
Que posso dizer mais
que doeu?
Então eu amadureceu
cresceu
morreu
Deu seu lugar
pra mim
Alguém tão perto
sem que soubesse
Assim, completo
posso esperar por você
Num dia como esse
Para sermos gente no plural
Todo dia é a mesma luta
Insisto em ter esperança
Por falta de opção
É pra rir
2012
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
Arquivo com todas edições da Revista Bizz com Marisa Monte, de 1988 a 2002
Quem não tiver todas revistas Bizz dessa época, vale a pena ler. Tem fotos incríveis e matérias e crítica, à princípio negativas até a revista reconhecer o talento e o sucesso indiscutível de Marisa Monte, cantora, compositora e a grande artista e pessoa que é.
http://www.4shared.com/office/LM6bwzkB/Bizz_Especial.html
Meus sonhos sãos fluem pelos seus,
Água, Marinhas, Poesias e Diamantes.
Risos, teto, amor, canção sem adeus.
Instrumento que sou, a dor distante.
Sua fonte, nossa vida floresceu.
Alegria: seus dias, as cores: instantes.
Mina de versos que se canta, vive, fica.
Ondas, bruma, grãos, amor, nossas vidas.
Nuvens, beijos me cobrem, me explica.
Tudo de onde você vem, mar, maresias
Em cada dia, sempre mais musa linda.
http://www.4shared.com/office/LM6bwzkB/Bizz_Especial.html
Meus sonhos sãos fluem pelos seus,
Água, Marinhas, Poesias e Diamantes.
Risos, teto, amor, canção sem adeus.
Instrumento que sou, a dor distante.
Sua fonte, nossa vida floresceu.
Alegria: seus dias, as cores: instantes.
Mina de versos que se canta, vive, fica.
Ondas, bruma, grãos, amor, nossas vidas.
Nuvens, beijos me cobrem, me explica.
Tudo de onde você vem, mar, maresias
Em cada dia, sempre mais musa linda.
sábado, 17 de agosto de 2013
Breve
Sementes de um passado imperfeito
Inexoravelmente seguem a florescer
Deste passado vão e seu orgulho inútilEnquanto vou vendo lírios a fenecerem
A história que se reinventa pelo avesso
Euterpe
A musa suave alivia e cura feridas,
em paz a vida floresce quando canta.
Chamei uma fada, que veio na brisa.
Ele não pediu muito, quase nada.
A pedra bruta se torna poesia breve,
o amor esquece os males das lutas.
Como esta lua nua e plácida reflete
esta alma dorida que ora flutua.
Porque breve é tudo nesta vida,
só mudam as vias do seu sonho.
No bem ponho meu desejo, querida.
Nesta lida que não terá incômodos.
Apenas quero para mim, cantá-las
vivazes, claras notas em arpejo.
A felicidade prevejo, o mel tornar
imagem no ar, palavras rimadas, ensejo
da arte, em enlevo, da alma, espelho.
em paz a vida floresce quando canta.
Chamei uma fada, que veio na brisa.
Ele não pediu muito, quase nada.
A pedra bruta se torna poesia breve,
o amor esquece os males das lutas.
Como esta lua nua e plácida reflete
esta alma dorida que ora flutua.
Porque breve é tudo nesta vida,
só mudam as vias do seu sonho.
No bem ponho meu desejo, querida.
Nesta lida que não terá incômodos.
Apenas quero para mim, cantá-las
vivazes, claras notas em arpejo.
A felicidade prevejo, o mel tornar
imagem no ar, palavras rimadas, ensejo
da arte, em enlevo, da alma, espelho.
Inventário de idéias
Na minha vida,
Uns fizeram-me bem.
Alguns fizeram bastante mal,
E outros, tiraram tudo.
Meu lar, meu respeito,
meu amor ou meu leito.
Quem quer que tenha sido eu,
Conquanto tenha sido meu.
Outros, que nada eu tivesse,
deram-me, para poder tirar.
Alguns quiseram meu corpo,
Uns quiseram o sexo
Outros só a razão.
Uns quiseram meu esforço,
Alguns um pedaço de pão,
Outros quiseram seu reflexo.
Uns fizeram-se amar,
Alguns tiveram-me nojo,
Outros tiveram quase nada.
Uns esforçaram-se em me achar,
Desses eu quis me perder.
Alguns acharam-me, em vão,
Então quiseram me vender.
Por outros deixei-me abraçar,
Para enfim conseguir morrer.
Na minha vida,
Uns exigiram a esmola,
Alguns puxaram a corda,
Outros quiseram o meu bem,
Depois quiseram minha alma.
Tiveram o mesmo corpo,
Dividimos a mesma jaula.
Foi-se a minha vida.
Na minha vida.
Uns fizeram-me bem.
Alguns fizeram bastante mal,
E outros, tiraram tudo.
Meu lar, meu respeito,
meu amor ou meu leito.
Quem quer que tenha sido eu,
Conquanto tenha sido meu.
Outros, que nada eu tivesse,
deram-me, para poder tirar.
Alguns quiseram meu corpo,
Uns quiseram o sexo
Outros só a razão.
Uns quiseram meu esforço,
Alguns um pedaço de pão,
Outros quiseram seu reflexo.
Uns fizeram-se amar,
Alguns tiveram-me nojo,
Outros tiveram quase nada.
Uns esforçaram-se em me achar,
Desses eu quis me perder.
Alguns acharam-me, em vão,
Então quiseram me vender.
Por outros deixei-me abraçar,
Para enfim conseguir morrer.
Na minha vida,
Uns exigiram a esmola,
Alguns puxaram a corda,
Outros quiseram o meu bem,
Depois quiseram minha alma.
Tiveram o mesmo corpo,
Dividimos a mesma jaula.
Foi-se a minha vida.
Na minha vida.
Sonetos temporões
Capitulação
Sabe, daria um abraço em você desses mornos
De saudade intensa, mas de carícias amenas.
Sinto ainda vívido o fulgor dos nossos sonhos
E a cumplicidade da origem comum, terrena.
Escutaria paciente cada um dos seus conselhos
Se pudesse estar novamente debaixo de seu olhar
A ponto de poder pegar na sua mão, seu cabelo
Sentir-te tão quente, o seu perfume sem par.
Tão quente quanto meus pensamentos.
Inebriado com tudo que sai da sua boca.
Sermos irmãos, namorados, neste tormento.
Um incesto de amor disfarçado,
Seguindo sofregamente instigados,
Abençoados enfim de qualquer pecado.
*
Ternura
Deus, dai-me outra vez a graça
De no seu regaço confortar-me.
Uma vez mais, lhe peço, que seja,
E ser um cativo de seu charme.
Olhar os seus olhos de amêndoas.
Uma paz que não é de marasmo,
Uma paixão, sem urgência a toa,
Um amor sem sequer nos falarmos.
Um afago morno que se perpetua
Que nada cobra ou espera de volta.
Carinho que é tão só a ternura.
Tão simples e que nem se denota,
Que não depende do tempo e dura.
Prende, sem corda, a quem se gosta.
*
O centro de você
Eu ouço bem quase tudo que você me diz.
Não se culpe, das realidades esta me apraz.
Falo sobre você também, não porque eu quis,
sou obrigado a você mas você quer demais.
Sei que você, igual a mim, quer ser feliz.
Mas não se pode ter tudo, não caia ainda mais,
seja você sempre, este diligente aprendiz.
Não sou eu a causar-lhe mal, não sofra demais.
A paixão levou-nos a ninguém, a lugar algum.
Não sou escravo de seus deleites e desmandos.
Sinto em mim a sua dor, é encargo nenhum
mas é só o que posso oferecer a você, tateando
pelo mesmo caminho que já percorri chorando.
E a culpa não é do amor. Deixe assim, por enquanto.
*
Auto psicografia
Basta! Quero acordar deste pesadelo medonho!
Ver quem se esconde por detrás de cada rosto
E não viver mais apenas desses dias tristonhos,
Apagado de dor, enuviados olhos, morto desgosto.
Deixei-o lá no horizonte sempre de olhos postos
no amanhã que não trouxe paz além de escolhos.
Eu quero renascer, reaver da vida seu gosto.
A alegria e o amor estão ali onde eu os ponho.
Expulso foi o vigia insano de seu excelso posto.
O rei caiu, tornou-se um homem ao perder o trono.
Ambos os mesmos seres porém cristais foscos.
Talvez eles voltem a luzir se renascido for o sonho.
Sem perseguição e sem seu deus irado e louco.
Cuidado, pedras atiradas são nódoas em seu rosto.
*
Mãe
Mãe que um dia me acolhestes dentro de ti
E de bom grado me oferecestes tuas entranhas
Para que eu, verbo tornasse carne em mim
Mãe de quem sempre fui e ainda sou tudo
Fui teu marido, teu pai, o filho que ora amas
E tu, minha mulher, a filha, a crença no futuro
Para ti isto nunca foi motivo de diferença
Não há mistérios que sejam parte do teu ser
Tu sempre soubestes, sem sabedoria pretensa
Sabiamente convives com o direito e o dever
Ah, mãe... quantas estradas já percorremos juntos
Quantas vezes nos deparamos de frente sorrindo
Mas ainda que seja este o nosso primeiro encontro
Tu és o amor e continuamos o caminho seguindo
*
Perdão
Por mais que me custará e por mais que me doa.
E tu sabes o porquê, eu vou tirar de mim, a capa
que me cobre da dor, mas o tempo urge e escoa.
Verte pelos meus dedos nus, dilacerados e escapa.
E deixarei o meu peito nu, onde cada ferida destoa
do que devia ser saúde, e ser perfeição à socapa.
Vês cada hematoma, e manchas roxas à mancheia?
Vês cada marca de pus, mal cicatrizada de carne?
Eu me desnudo diante de ti, não porque descreias!
Te mostro cada seqüela assim coberta de escárnio.
Porque eu quero provar, por a mais b, minha estrela.
Para mostrar que esta dor segue impune e infame.
A vergasta do carcereiro nada foi, ao horror de vê-la
ao ver-me. Peço-te o perdão, sacrifício que alivia e liberta
*
reviveR
Preparo-me maquinalmente para me engendrar
de novo e que se calem as vozes de espanto!
Não me importa mais agora se fará frio ou calor.
Majestosamente e impoluto visto só meu manto.
E se tu estiveres ainda comigo, não enlouqueças:
A gente nasce todos os dias num doce acalanto.
Quando meus olhos se abriram minha alma vazou
e o frio estalou, trincando tudo, meus frágeis ossos.
Imóvel, assisti incólume ao que por fim soçobrou,
arrastando numa vaga esmagando sonhos póstumos.
Quantas vezes ela me levará leve, pesado, inerte?
Quantas vezes da morte me esqueci, infante risonho...
Folhas secas sussurram ao ouvido o que me entristece.
Mas não há mais porque chorar e suave me encolho.
*
Sincronicidade louca
Dá-me teu sorriso para alegrar-me, abrir portas.
Não te apresses a dizer que eu não tenho lógica.
Ouça-me uma vez mais e perceba a brisa que sopra.
O cordão de prata verte meu peito feito fio d'água fria.
Eu já não posso mais andar pelos caminhos tortos.
Meus olhos ardem de poeira, essas lágrimas vadias.
Sossegues, isto foi construído para durar a vida toda.
As lágrimas que verti, mataram-me tamanha sede.
A gente nasce novo sempre, a cada dia que acorda.
E um dia também desistirão de ti, eu de perder-te.
O tempo perdeu sua lógica nesta sincronicidade
louca, canto aos quatro cantos o futuro, ao presente.
Mas nada está de fato marcado nem início destarte,
o certo pode estar errado, e até a verdade desmente.
Sabe, daria um abraço em você desses mornos
De saudade intensa, mas de carícias amenas.
Sinto ainda vívido o fulgor dos nossos sonhos
E a cumplicidade da origem comum, terrena.
Escutaria paciente cada um dos seus conselhos
Se pudesse estar novamente debaixo de seu olhar
A ponto de poder pegar na sua mão, seu cabelo
Sentir-te tão quente, o seu perfume sem par.
Tão quente quanto meus pensamentos.
Inebriado com tudo que sai da sua boca.
Sermos irmãos, namorados, neste tormento.
Um incesto de amor disfarçado,
Seguindo sofregamente instigados,
Abençoados enfim de qualquer pecado.
*
Ternura
Deus, dai-me outra vez a graça
De no seu regaço confortar-me.
Uma vez mais, lhe peço, que seja,
E ser um cativo de seu charme.
Olhar os seus olhos de amêndoas.
Uma paz que não é de marasmo,
Uma paixão, sem urgência a toa,
Um amor sem sequer nos falarmos.
Um afago morno que se perpetua
Que nada cobra ou espera de volta.
Carinho que é tão só a ternura.
Tão simples e que nem se denota,
Que não depende do tempo e dura.
Prende, sem corda, a quem se gosta.
*
O centro de você
Eu ouço bem quase tudo que você me diz.
Não se culpe, das realidades esta me apraz.
Falo sobre você também, não porque eu quis,
sou obrigado a você mas você quer demais.
Sei que você, igual a mim, quer ser feliz.
Mas não se pode ter tudo, não caia ainda mais,
seja você sempre, este diligente aprendiz.
Não sou eu a causar-lhe mal, não sofra demais.
A paixão levou-nos a ninguém, a lugar algum.
Não sou escravo de seus deleites e desmandos.
Sinto em mim a sua dor, é encargo nenhum
mas é só o que posso oferecer a você, tateando
pelo mesmo caminho que já percorri chorando.
E a culpa não é do amor. Deixe assim, por enquanto.
*
Auto psicografia
Basta! Quero acordar deste pesadelo medonho!
Ver quem se esconde por detrás de cada rosto
E não viver mais apenas desses dias tristonhos,
Apagado de dor, enuviados olhos, morto desgosto.
Deixei-o lá no horizonte sempre de olhos postos
no amanhã que não trouxe paz além de escolhos.
Eu quero renascer, reaver da vida seu gosto.
A alegria e o amor estão ali onde eu os ponho.
Expulso foi o vigia insano de seu excelso posto.
O rei caiu, tornou-se um homem ao perder o trono.
Ambos os mesmos seres porém cristais foscos.
Talvez eles voltem a luzir se renascido for o sonho.
Sem perseguição e sem seu deus irado e louco.
Cuidado, pedras atiradas são nódoas em seu rosto.
*
Mãe
Mãe que um dia me acolhestes dentro de ti
E de bom grado me oferecestes tuas entranhas
Para que eu, verbo tornasse carne em mim
Mãe de quem sempre fui e ainda sou tudo
Fui teu marido, teu pai, o filho que ora amas
E tu, minha mulher, a filha, a crença no futuro
Para ti isto nunca foi motivo de diferença
Não há mistérios que sejam parte do teu ser
Tu sempre soubestes, sem sabedoria pretensa
Sabiamente convives com o direito e o dever
Ah, mãe... quantas estradas já percorremos juntos
Quantas vezes nos deparamos de frente sorrindo
Mas ainda que seja este o nosso primeiro encontro
Tu és o amor e continuamos o caminho seguindo
*
Perdão
Por mais que me custará e por mais que me doa.
E tu sabes o porquê, eu vou tirar de mim, a capa
que me cobre da dor, mas o tempo urge e escoa.
Verte pelos meus dedos nus, dilacerados e escapa.
E deixarei o meu peito nu, onde cada ferida destoa
do que devia ser saúde, e ser perfeição à socapa.
Vês cada hematoma, e manchas roxas à mancheia?
Vês cada marca de pus, mal cicatrizada de carne?
Eu me desnudo diante de ti, não porque descreias!
Te mostro cada seqüela assim coberta de escárnio.
Porque eu quero provar, por a mais b, minha estrela.
Para mostrar que esta dor segue impune e infame.
A vergasta do carcereiro nada foi, ao horror de vê-la
ao ver-me. Peço-te o perdão, sacrifício que alivia e liberta
*
reviveR
Preparo-me maquinalmente para me engendrar
de novo e que se calem as vozes de espanto!
Não me importa mais agora se fará frio ou calor.
Majestosamente e impoluto visto só meu manto.
E se tu estiveres ainda comigo, não enlouqueças:
A gente nasce todos os dias num doce acalanto.
Quando meus olhos se abriram minha alma vazou
e o frio estalou, trincando tudo, meus frágeis ossos.
Imóvel, assisti incólume ao que por fim soçobrou,
arrastando numa vaga esmagando sonhos póstumos.
Quantas vezes ela me levará leve, pesado, inerte?
Quantas vezes da morte me esqueci, infante risonho...
Folhas secas sussurram ao ouvido o que me entristece.
Mas não há mais porque chorar e suave me encolho.
*
Sincronicidade louca
Dá-me teu sorriso para alegrar-me, abrir portas.
Não te apresses a dizer que eu não tenho lógica.
Ouça-me uma vez mais e perceba a brisa que sopra.
O cordão de prata verte meu peito feito fio d'água fria.
Eu já não posso mais andar pelos caminhos tortos.
Meus olhos ardem de poeira, essas lágrimas vadias.
Sossegues, isto foi construído para durar a vida toda.
As lágrimas que verti, mataram-me tamanha sede.
A gente nasce novo sempre, a cada dia que acorda.
E um dia também desistirão de ti, eu de perder-te.
O tempo perdeu sua lógica nesta sincronicidade
louca, canto aos quatro cantos o futuro, ao presente.
Mas nada está de fato marcado nem início destarte,
o certo pode estar errado, e até a verdade desmente.
terça-feira, 30 de julho de 2013
Segredos de Família
“Basta, Cidade de Deus; soa, trombeta de Gabriel;
Ai, mas como o mundo demora em morrer!”
Carlos Fuentes, in Aura
Pelo que eu sei, Magno mal bateu a porta do carro, motivo de orgulho, virou-se para seu prédio. Passou ligeiro pela recepção e subiu pelas escadas rumo ao sexto andar. Evitou marcar qualquer encontro com alguma mulher bonita. “Nada de baladas, nem sacanagens, por esta noite”. Ele tinha acordado pensando na chamada da noite anterior, saído do trabalho mais cedo e voltado para casa. Tudo devido a uma visita que faria um pouco mais tarde à sua tia. Não é que a velha soube ser bastante persuasiva? Ela soube acordar sentimentos já apascentados com anos de análise e uma rotina bastante corrida. “Venha logo, filho. Você sabe que nós, os velhos, não podemos esperar muito depois de uma certa idade”, ela disse. “Me lembro de quantas vezes minha mãe precisou deixar-me ainda menino com ela pois precisava trabalhar naquela loja. Apesar do rigor da ditadura eu só tinha a parte boa. A primeira década sempre me trouxe boas memórias da infância e a segunda, da adolescência. Titia sempre procurou suavizar a falta que eu sentia de mamãe. E conseguia quase sempre. Tia Stella foi minha segunda mãe, foi quem me deu carinho de verdade”, ele pensou.
Neste momento, noutro apartamento, bem menor e mais modesto, a senhora tão magra quanto idosa praticamente pairava no chão da cozinha. Andava rápido como uma formiga construindo seus castelos de areia. Os cabelos cinza-azulados, ela não tinha mais o cuidado de esconder os cabelos brancos, e as pequenas calvícies aqui e ali. Há muito tempo não se preocupava em restaurar a cor, quase loura, dos fartos cabelos da juventude ou iludir-se com o espelho. A velha andava rapidamente a despeito da fragilidade, escorada pelos aromas das carnes, das ervas, dos legumes, da refeição que ela preparava para o sobrinho. Um prato francês, seu famoso ragôut. “O ensopadinho”. O penoir cor de marfim amarelado, metaforseado numa segunda pele flutuando sobre o corpo seco da senhora era delicado o suficiente para receber visitas - de uma simplicidade bonita que caía nela como uma roupa de festa infantil. “Tia, tenho saudade. Quero vê-la logo”, ele me disse. “Por que não hoje à noite? Venha, estarei te esperando com aquele velho álbum de fotografias que você não suporta mais. Em compensação farei aquela comidinha que só você sabe dar valor”. “Tia, não se subestime, seus dotes de cozinheira só são comparáveis à beleza daquela moça, com sua voz suave, que me cantava cantigas que ainda hoje surgem nos meus sonhos e pensamentos distantes. Está combinado então, irei”. “Venha querido, dar um pouco de afeto à sua velha tia rabugenta”.
Mais tarde, quando me mudei para o Leme, no começo ainda trazia doces, camisas, porta-retratos depois parou e disse que a distância dificultava tudo”. Magno divagava enquanto fazia tudo mecanicamente. "Mesmo antes, quando adolescente, às vezes me oferecia pequenas somas, presentes que mamãe não via com bons olhos. D. Yara acreditava que isso podia me deixar com o caráter fraco, sem estímulos para alcançar uma boa posição profissional. Achava que podia estragar sua rígida educação para fazer de mim um homem honesto e independente. Seus pensamentos eram limitados conforme a educação que recebera para ser “a senhora do lar”, que por ironia da vida, nunca foi. Entretanto ela se preocupava já com a minha orientação profissional: eu iria fazer administração numa escola técnica. Péssima escolha, até hoje penso que esta escolha era resultado de um pensamento limitado: administração me daria um emprego seguro e o curso seria bem mais barato. Foi o que me era permitido mas eu era bom o bastante para passar e concluir uma faculdade do estado, Engenharia".
Mais tarde, quando me mudei para o Leme, no começo ainda trazia doces, camisas, porta-retratos depois parou e disse que a distância dificultava tudo”. Magno divagava enquanto fazia tudo mecanicamente. "Mesmo antes, quando adolescente, às vezes me oferecia pequenas somas, presentes que mamãe não via com bons olhos. D. Yara acreditava que isso podia me deixar com o caráter fraco, sem estímulos para alcançar uma boa posição profissional. Achava que podia estragar sua rígida educação para fazer de mim um homem honesto e independente. Seus pensamentos eram limitados conforme a educação que recebera para ser “a senhora do lar”, que por ironia da vida, nunca foi. Entretanto ela se preocupava já com a minha orientação profissional: eu iria fazer administração numa escola técnica. Péssima escolha, até hoje penso que esta escolha era resultado de um pensamento limitado: administração me daria um emprego seguro e o curso seria bem mais barato. Foi o que me era permitido mas eu era bom o bastante para passar e concluir uma faculdade do estado, Engenharia".
Nos anos breves que conheci as delícias da noite, depois que mamãe e eu nos mudamos para o Engenho da Rainha, as visitas da titia ficaram cada vez mais raras. Eu aprendia que ‘fazer 30’ não estava muito longe. Titia permaneceu no apartamento do casarão do Grajaú. Meu avô vinha de uma família tradicional e ser do Grajaú foi meu cartão de visitas durante os meus anos de estudo. A amizade era tão forte entre mamãe e titia que depois da morte dos meus avós elas viviam juntas. Nas fotos antigas parecem gêmeas mas titia era um pouquinho mais velha que mamãe. Quando mamãe teve um caso de amor mal resolvido porque meu pai foi para o exterior prometendo fazer fortuna e voltar, depois desapareceu. Não enviou nem notícias e ela fechou-se no mundo dela – comigo dentro, mesmo quando morávamos com a titia. Nunca vi uma foto dele. Tia Hortência dizia que eu era cada vez mais uma versão maior dele, os mesmos olhos, a mesma cor e que parecia que eu seria tão alto quanto ele. Mamãe sempre dava um jeito de mudar o rumo da conversa ou pigarrear alto, reclamar das correntes de ar e se limitar a sair da sala para coar um café ou fazer alguma faxina. Apesar das minhas perguntas insistentes pelo meu pai ela nunca me falou nada, nunca mostrou uma foto. Ela nunca o perdoou e às vezes acho que me punia por culpa dele, mas não. Porém titia seguiu dizendo o mesmo sobretudo depois que mamãe também se foi e eu já trabalhava o bastante para ter o meu próprio lugar, sem depender de ninguém. Confesso que tinha certo orgulho quando a tia dizia com voz imperiosa: “tem o olhar seguro do pai, puxou até na cor castanho-escuro. Você vai ganhar muitos corações, rapaz”.
O apartamentinho onde titia ainda mora era um lugarzinho charmoso perto do velho Jardim Zoológico - lugar malvisto porque a garotada invadia o lugar para ‘puxar erva’ na esperança de fugirem da vigilância feroz da polícia (e, conseguiam com freqüência). Eu gostava de andar por lá quando não podia ir aos lugares que meus colegas freqüentavam no final de semana. O silêncio do jardim abandonado me trazia paz.
Mesmo depois de tornar-me um sobrinho distante, literalmente, porque já morava no Leme. O amor que eu nutria por aquela irmã única da minha mãe, que às vezes me fazia chamá-la de mãe, sem pensar, nunca arrefeceu. A lembrança das festas de natal, as lembranças mais tristes e sombrias que ainda tenho (ficávamos os três sozinhos em casa degustando os quitutes que as irmãs preparavam), e tinha aquela tacinha de cidra que era uma beleza pra mim – meus primeiros pilequinhos. Todas as festas de cada ano - as mais felizes como os reveillons, as festas juninas... Mesmo naquele tempo suas pequenas lembranças me eram mais caras que os presentes na festa mais chata que eu recebia. Depois da ceia ia para a rua cobiçar os regalos que os meus amigos exibiam logo que nos encontrávamos na rua para criticar a chatice das festas natalinas.
Aquele lugar ainda era antigo, na cozinha daquele apartamento minúsculo de um subúrbio carioca. Apesar das panelas areadas e do fogão limpo minuciosamente, tudo lembrava um comercial de tv em preto e branco dos idos dos anos 70 no século passado. As paredes de um branco enodoado e lascas de pintura espalhadas como insetos que não se percebe até que se reproduzam de um modo tal que só mesmo um trabalho de dedetizador para expulsar as visitas indesejáveis. Uma penumbra persistente apesar de não ser tão tarde, as cortinas de veludo verde fechadas e as luzes de antigos abajures herdados de gerações quase esquecidas. Toalhinhas caprichosamente bordadas, cópias de quadros conhecidos bastante desbotadas nas paredes da saleta de entrada. O facão apesar de antigo tinha um fio preciso e cortava pedaços dos órgãos bovinos de forma quase geométrica, não tivessem a consistência de gelatina e serem escorregadios. Fora um presente de um genro açougueiro.
Acho que que não queria ir lá mas ela merece um abraço, um pouco de atenção. No entanto tudo concorreu contra, caramba. Quando fiz a barba, teve um pequeno corte no rosto que demorou a estacar o sangue. Um cortezinho de merda. Pressa dá nisso. Agora estou super cansado de estar sempre apressado, quase atrasado para algum lugar de todo dia mais uma visita à titia lá onde o diabo perdeu as botas". Desci de elevador de serviço para a garagem no subsolo e entrei no meu carro. Quando liguei a chave um gato passava por entre os carros na minha direção. Este estacou olhando o meu rosto com os olhos arregalados como se visse algo do outro mundo.
- Ei, seu pulguento, você também é muito feio, falou? Vem cá gato rueiro, não sou tão mal assim. Deixa eu fazer um carinho em você.
O gato baixou a cabeça e tornou adiante com um passo certeiro para baixo dos outros carros estacionados sem olhar para trás. “Eu hein, que coisa mais sinistra. Besteira. Nunca acreditei em superstições. Que sua noite de vagabundagem seja sublime, seu gato bolado. Titia, aqui vou eu. Me lembro da minha infância, tudo tão perfeito, dias tão claros, lembranças de escola e amigos exceto... Exceto alguns lugares onde eu nunca podia entrar. Exceto o pai que nunca conheci. Tudo o mais foi perfeito e não quero levar más lembranças comigo”.
- Ei, seu pulguento, você também é muito feio, falou? Vem cá gato rueiro, não sou tão mal assim. Deixa eu fazer um carinho em você.
O gato baixou a cabeça e tornou adiante com um passo certeiro para baixo dos outros carros estacionados sem olhar para trás. “Eu hein, que coisa mais sinistra. Besteira. Nunca acreditei em superstições. Que sua noite de vagabundagem seja sublime, seu gato bolado. Titia, aqui vou eu. Me lembro da minha infância, tudo tão perfeito, dias tão claros, lembranças de escola e amigos exceto... Exceto alguns lugares onde eu nunca podia entrar. Exceto o pai que nunca conheci. Tudo o mais foi perfeito e não quero levar más lembranças comigo”.
Os dois não sabem mas agem de acordo com uma estranha sincronicidade. Parece que precisavam se encontrar há bastante tempo. “Ele já vem”. Os olhos embaçados por uma leve membrana branca olhou pela sala, as estatuetas do Arcanjo Miguel e de N. Sra. Das Graças. “Tudo certinho, ele vai gostar”. Na parede, no centro da saleta, uma bela reprodução envelhecida da morte de São Pedro, de Caravaggio, que descreve o pedido de São Pedro para não morrer igual ao seu mestre e que invertessem a cruz. “Não foi esse discípulo, o mais experiente de todos, um tanto quanto pretensioso? Logo aquele discípulo mais velho a quem Jesus repreendeu duas vezes, a primeira por dizê-lo que não permitiria que ele sofresse seu destino para absolver a mal da humanidade e a segunda ao cortar a orelha de um centurião romano. Morrer crucificado, igual a Jesus, já devia ser o bastante. Pedro negou Jesus três vezes. Enfim, só de servir de inspiração para o artista já o absolveu para mim. Crucifixos invertidos não têm nada demais exceto para alguns ocultistas”.
A campainha tocou e o rapaz procurou mostrar seu melhor sorriso em frente ao olho mágico. Olhou para o relógio no pulso e viu que estava sendo tão pontual quanto um britânico. Ele sentiu um cheiro de incenso, em contraste com seu perfume másculo amadeirado, mas um tanto acre naquele dia. “Coisas de gente velha”. Já estava bem acostumado às manias da tia, às vezes suspeitosamente mistica, o contrário de mamãe, mas preocupada com um ambiente que agradasse. A velha abriu a porta e parecia frágil de fato, vergada pelo peso do tempo. Ela abraçou e convidou-o a entrar. “Tia, a senhora está muito bem”. “Ora, não me tente, seu velhaco. Você, sim, se tornou um belo homem, melhor que seu pai" ”. A tia olhou-o com um certo embaraço e gritou: “Meu Deus, a comida no fogo!” Ele ia perguntar sobre a origem paterna nunca comentada mas foi forçado a se desembaraçar do longo abraço. “Seu bom humor continua irresistível”, ele gritou da sala. “Quer beber algo? Uma cerveja ou uma taça de vinho?”, ela respondeu da cozinha. “Uma taça de vinho, vamos brindar. A ocasião merece titia”. “Vinho tinto? Sim? É melhor para esta ocasião”.
"Só então reparei no cheiro convidativo da comida e também naquele apartamento que parecia ter encolhido. O único que pareciam ter crescido com as sombras eram os móveis de madeira escura. A estante, repleta de livros, alimento das traças, papeis amarelados e estatuetas réplicas de algumas estátuas gregas. Havia seus próprios livros de infância ao lado de Cervantes, Machado, Queiroz e Pessoa. Berloques e biscuits vestidos a “la século XIX”. Heranças da vovó. Devem valer uma grana. A reprodução do quadro também continua aqui, o traseiro do homem anônimo, vestido com roupas da época de Caravaggio, virado para a minha cara. O rosto sereno de São Pedro se destacava do todo pela luminosidade a volta dele. O clero, que havia pago pela obra, pelo famoso traseiro em perspectiva frontal. Detesto assuntos de religião mas gosto de arte e nosso ‘amigo’ pintor era um arruaceiro, beberrão e arrumador de encrencas dependente das encomendas da igreja. Era também um artista de um dom único. Os gênios parecem sempre uns “sem-lugar”, no lugar e no tempo. Titia viu o original em uma única viagem que ela fizera ainda moça, viu aquele quadro e ficou apaixonada por ele. Então comprou esse pôster tamanho mega, giga, monstro. Ainda sim, e por isso mesmo, uma bela pintura".
O que será esta coisa morna roçando na minha perna? “Você está ótima para a sua idade, gata. Sua dieta de ratos está muito bem. A pintura é linda mas não gosto de coisas de religião. Já me basta o que fui obrigado a aprender na escola religioso da infância. Vem cá bonitona, deixa eu passar a mão no seu pelo macio. Boa moça”.
O que será esta coisa morna roçando na minha perna? “Você está ótima para a sua idade, gata. Sua dieta de ratos está muito bem. A pintura é linda mas não gosto de coisas de religião. Já me basta o que fui obrigado a aprender na escola religioso da infância. Vem cá bonitona, deixa eu passar a mão no seu pelo macio. Boa moça”.
- Você reencontrou então minha menina. Ela tem se escondido durante dias e é impossível fugir do apartamento. Esta preguiçosa não faria isto comigo. Acho que deve ficar hibernando nalgum canto aquecido. Teremos mais uma convidada. Espero que não seja incômodo para você. É a filha de uma velha amiga e achei que nós três faríamos este jantar ficar bem divertido. Enquanto isso divirta-se vendo nosso álbum que você conhece bem.
“Vou redescobrir esta sala até que ela comece a trazer os pratos, vou comer e depois ir embora rapidinho”.
- Perdidos no seu pensamento novamente, filho? Vamos ao jantar. Minha visita está bastante atrasada e ela sabe que eu não a perdoaria se se atrasar, ou pior, se não vier. Pra mesa, já. Lá vem o nosso jantar.
A velha adquiriu uma velocidade impensável em relação aos seus modos até ali e à idade avançada. Eram forças e agilidade de quem viveu só por muito tempo. Magno ficou com o olhar pensativo perdido sobre uma mesinha onde estava uma aquela coisa horrível que lhe dava pesadelos desde muito cedo. “Que coisa horrorosa, essa ave empalhada, parece coisas de filme de terror barato. Mamãe me bateu quando chutei a bola, sem querer, e derrubei aquela coisa, com um certo prazer. Ela disse que me entendia porque eu vivia fechado em casa por excesso de cuidados dela mas que aquele pássaro era obra de um tio qualquer, taxidermista por diversão, e que tinha muito tempo na família”.
A velha adquiriu uma velocidade impensável em relação aos seus modos até ali e à idade avançada. Eram forças e agilidade de quem viveu só por muito tempo. Magno ficou com o olhar pensativo perdido sobre uma mesinha onde estava uma aquela coisa horrível que lhe dava pesadelos desde muito cedo. “Que coisa horrorosa, essa ave empalhada, parece coisas de filme de terror barato. Mamãe me bateu quando chutei a bola, sem querer, e derrubei aquela coisa, com um certo prazer. Ela disse que me entendia porque eu vivia fechado em casa por excesso de cuidados dela mas que aquele pássaro era obra de um tio qualquer, taxidermista por diversão, e que tinha muito tempo na família”.
A velhinha entrou intenpestivamente na sala com uma panela fumegando e a pôs sobre um aparador de madeira traçada na mesa.
- Então vamos ver se sua velha tia tem o mesmo tempero, hein?
- Tia, desculpe mas... “preciso ir embora logo, desculpe, tenho um compromisso bem cedo amanhã..." ...me lembrei agora, trouxe uma lembrancinha. Espera aqui, sentadinha, um momento e vou pegar na mochila.
Magno levantou-se devagar, foi até o sofá e abriu a mochila. Tirou com delicadeza uma caixa embrulhada num papel de presente ornado de flores vermelhas e amarelas.
- Abra e diz se gostou, titia.
- Oh, um casaquinho de lã. Não precisava. Magno, mas é lindo! Um beijo para o meu sobrinho preferido!
- Tia, sou seu único sobrinho! - Recebeu o beijo murcho no rosto de barba bem feita, marcado por uma sombra cinza de que ele se orgulhava quando se olhava no espelho. Também recebeu um abraço enquanto se sentou e a tia se levantou estabanada da cadeira. Ela queria agradá-lo por remorso tardio ou para esconder alguma mágoa.
- Gostou da cor?
- Claro, é minha preferida: grená. Sua memória sempre me surpreendeu. Você tem o mesmo bom gosto com suas namoradas?
- Namoradas? Ficam comigo por tão pouco tempo que não chega a ser namoros. Estou à vontade no meu lugar, desse jeito, sozinho. Quando me sinto tão tremendamente só tomo umas cervejas com os amigos e esqueço tudo no dia seguinte e acho que esses sentimentos são bobagens da idade que começa a pesar um pouco”.
Enquanto ele falava como ela murmurava uma canção antiga como se devaneasse sozinha. Dobrou o casaquinho de lá, embrulhou-o no papel fino e recolocou na caixa de presente.
- É uma pena! Um homem tão bonito. Não parece estar próximo dos 50, um jovem senhor! Deveria já estar casado e ter me dado sobrinhos. Sabe o quanto gosto de crianças.
- Tia, sou independente demais para uma mulher aceitar o meu comportamento egocêntrico por maior que seja o amor dela. Sinto te contrariar mas nunca pretendi ser pai. Não tenho muito talento para educar crianças.
- É mesmo? Precisamos dar um jeito nisto urgente. - Stella piscou o olho esquerdo para Magno.
A senhora não vai usar o presente que te dei? Já sei, não gostou, porque achou que é coisa de gente velha, fora de moda.
- Não se preocupe eu te compreendo. Eu te conheço ainda melhor que você mesmo. Cuidado com suas observações argutas e a capacidade de pensar nos vários significados possíveis, ou todas, possibilidades de sentido de tal frase ou situação: sua capacidade lógica pode te causar problemas, meu caro.
- Preciso te dizer uma coisa, acho que terei que deixar para conhecer sua jovem amiga outro dia, preciso ir logo depois do jantar. Desculpe tia, tenho um... amanhã, eu... vou...
- Deixemos quem conseguiu sair deste mundo em paz. Fique, minha amiga deve estar a caminho.
Olhei de relance o meu relógio enquanto falava para enfatizar a mensagem. “Meu relógio está meio maluco. Está marcando 7:12 mas eu vi de relance que já marcava no mínimo uns quarenta e cinco minutos não faz nem 15 minutos. O relógio não parou, o ponteiro de segundos continua a correr e ainda ouço o tique-taque quase exagerado no silêncio da casa da minha tia. Se ao menos esse lugar não estivesse tão escuro. Parece que já é madrugada”.
- Não, não vai me fazer esta desfeita. Fique um pouco mais com sua velha tia. Eu esperei tanto para te ver. E ela deve chegar logo. Podemos tomar um licorzinho juntos mesmo que o jantar já tenha acabado.
O sorriso da tia deixou Magno com um pouco de culpa.
- Me desculpe, tia. Não vou sair tão cedo. O prato está uma delícia! Queria ter esta comidinha caseira todos os dias bem pertinho do trabalho.
Este vinho parece forte, é doce, parece ter o gosto de cravos ou alguma erva desconhecida. Não é enjoativo mas parece que estou com os sentido alterados. Algumas imagens esquecidas surgiam na memória. Nos dias que morei com minha tia às vezes via os vizinho mais velhos (ou não tão velhos quanto a minha perspectiva atual) reunidos em um círculo bastante fechado, em frente ao prédio, do lado do canteiro de flores, plantas e cocô de gato. Eles falavam baixo porém riam alto. Quando saí, não me viram, suas confabulações não admitiam interrupções. Tinha sempre a impressão que estavam mais preocupados em serem notados. Nunca mais me lembrei disto.
- Por que a senhora me olha assim?
Magno sentiu um olhar felino sobre sua fronte. “Ela está zangado comigo. Que bobagem fui fazer”.
A mulher tinha o álbum de capas de couro puído nas mãos e uma expressão estranha nos olhos, expressões opostas, atração e repulsa... “Não parece os olhos dela ou será que não está me reconhecendo? Pobre tia, já está ficando gagá...”
- Ter lembranças é um presente, meu querido. Aqui tem as fotos. De agora em diante este livro das lembranças da nossa família é seu. Já era hora. Não, não adianta recusar. Não vou aceitar e você sabe o quanto sou teimosa. Apenas aceite. Acredite que, de todos os presentes que te dei, este é o que mais tem valor pra mim. Agora que o álbum é seu, poderá vê-lo quantas vezes quiser.
Ela abraçou-o pelas costas. Ele agradeceu e olhou para trás enquanto tocavam nas mãos ossudas e cheias de pintas brancas e negras dispostas como uma tatuagem ao longo do braço da velha.
- A senhora não tem mesmo nenhuma foto do meu pai. Nem uma?
- A luz está ruim para ver fotos agora mas aproxime-se do abajur.
- Tia, desculpe, mas isso é importante pra mim.
- Oh, tem uma panela no fogo. Foi até a cozinha e voltou. Encostou-se no batente da porta da cozinha e começou a verificar as modificações do sobrinho. Depois começou a falar sozinha.
- Desculpe se não consigo te atender bem. Você sempre foi muito curioso, até demais, digamos assim. Pare que continuar a querer cavar o passado a essa altura da vida. Se há fósseis, eles estão tão bem enterrados que você, nem ninguém, nunca os acharão, fique certo disso. "Segredos devem morrer com quem os mantem ou ditos a tempo, antes que seja tarde demais".
“Ela estava me olhando, me censurando pelo que achava que eu tinha feito de errado dizendo que me amava acima de tudo. Tinha um olhar levemente divertido, eu diria, felino. Quando o bichano mija no sofá ou rouba algo da mesa e depois se reaproxima do dono provavelmente para pedir mais comida ou mijar no sofá de novo logo que ele se distrair”.
- Que ruídos estranhos que vem lá dos quartos. O que é, será que é um rato?
- Não há ratos nesta casa. Nunca houve.
- O ruído parou mas...
Alguém bateu na porta apesar da campainha e ele percebeu que os estalidos tinham vindo da porta de saída.
- O ruído vem da porta. O ruído são batidas na porta, seu medroso. A nossa convidada chegou.
“Meus sentidos estão meio desorientados, droga. Até a minha audição está me sacaneando”.
A mulher mais velha foi até a porta e abriu sem olhar no olho mágico. Se ela soubesse o quanto é perigoso abrir a porta assim, sobretudo se for estranhos. Pareceu cumprimentar alguém. E logo atrás da tia um vulto pequeno de mulher, muito mais jovem, com as cores naturais tão viçosas que pareciam uma pintura expressionista, insinuou-se da sombra e desdobrou-se do anteparo que minha tia formara. As duas pareciam ser da mesma estatura, ou seja, pareciam ser baixas e magras em relação a ele. O rapaz teve um relance pegou o álbum de fotos no outro canto da mesa e folheou até encontrar uma foto antiga tão parecida. A velha tomou o livro das mãos dele.
Num breve instante de olhar, embora tudo parecesse normal, seu olhar ficou parado, as pupilas dilataram para depois contraírem e ficarem normais no ambiente um pouco mais iluminado que o corredor e a noite lá fora. Parecia o susto de quem encontra alguém que não esperava absolutamente mais encontrar. Parecia um olhar lupino, do desejo de saciedade de consumir a presa acrescido de uma certa sensação de alívio por poder matar a fome.
Num breve instante de olhar, embora tudo parecesse normal, seu olhar ficou parado, as pupilas dilataram para depois contraírem e ficarem normais no ambiente um pouco mais iluminado que o corredor e a noite lá fora. Parecia o susto de quem encontra alguém que não esperava absolutamente mais encontrar. Parecia um olhar lupino, do desejo de saciedade de consumir a presa acrescido de uma certa sensação de alívio por poder matar a fome.
- Chega de fotos! Eis minha amiga. Perdeu o jantar mas não a noite.
- Prazer em conhecê-la. Parece tão jovem. Desculpe a indelicadeza mas devo perguntar sua idade porque parece ser uma adolescente. As duas poderiam ser avó e neta.
- Tenho 24 anos.
- Parece 16!
- Pare de fazer perguntas indiscretas, rapaz. Deixe que eu leve a sobremesa que você trouxe para o nosso encontro.
- Deixa pra lá, D. Stella. Já me acostumei. Ele deve estar pensando que tem idade para ser meu pai.
- E tem mesmo Íris. Porém, não é um homem bonitão pra idade dele?
A moça ficou corada só que no escuro isso não era percebido exceto para Magno que a observava minuciosamente. Ele ficou sem jeito quando ela pareceu assustado por vê-lo mas a sensação estranha passara logo.
- Seu filho é realmente um homem elegante. Seremos bons amigos dependendo do bom humor – que ele tenha ou não.
- Sobrinho, Íris. Magno é filho da minha irmã. Aquela outra da foto na penteadeira do meu quarto.
- Não se preocupe, titia deveria estar acostumada com equívocos. Ela e mamãe pareciam irmãs gêmeas. Não seja rabugenta com a moça, isso não é legal, tia.
- Ora se eu dissesse quem é o rabugento aqui... Mas não digo nada.
A velha fez uma careta. Instalou-se então um estado agradável de família na sala escura.
- Desculpe o atraso. Vejo que perdi o jantar mas ainda não é tarde.
- À juventude desculpa-se tudo, minha menina.
Enquanto a velha tia lavava louça na cozinha, Magno e Íris sentaram-se em cadeiras uma à frente da outra. Ele percebeu uma tatuagem muito discreta entre os seios dela, pelo decote discreto da camiseta de cor preta dela, porém o local ainda estava visível pelo decote da camiseta. Uma mancha, um círculo, uma letra? Ela baixou os olhos, vermelha, e seus cabelos compridos entrecobriram o busto dela. Magno sentiu-se um homem tarado atormentado por desejos proibidos.
Acho que pareci um “sem noção”.. Preciso arrumar um jeito de pedir desculpas. O rosto dela é bonito, não parece com ninguém que conheço e no entanto eu sinto que temos uma intimidade de muito tempo.
- O que é essa marca no seu colo? É um sinal de nascença”.
- Ah, a tatuagem... é a lembrança de um amigo, só isso”.
“O que é, uma inicial num círculo?”.
- É uma estrela. Uma estrela de Salomão ou um pentagrama para ser mais precisa.
- Seus olhos têm uma cor muito bonita”.
- Obrigado, os olhos verdes de sua tia são mais bonitos que os meus.
“Essa cor verde é uma herança de todas as mulheres da família. Prefiro essa cor de ouro dos seus olhos”.
- Cor de ouro?.
- Sim, brilham igual a ouro. “Se você vê assim...”.
- O que é essa marca no seu colo? É um sinal de nascença”.
- Ah, a tatuagem... é a lembrança de um amigo, só isso”.
“O que é, uma inicial num círculo?”.
- É uma estrela. Uma estrela de Salomão ou um pentagrama para ser mais precisa.
- Seus olhos têm uma cor muito bonita”.
- Obrigado, os olhos verdes de sua tia são mais bonitos que os meus.
“Essa cor verde é uma herança de todas as mulheres da família. Prefiro essa cor de ouro dos seus olhos”.
- Cor de ouro?.
- Sim, brilham igual a ouro. “Se você vê assim...”.
“Pode chegar mais perto de mim”, pensei. Quando minha tia voltou ela roçava o meu ombro com as mãos, igual a água do mar depois que a onda quebra e se recolhe sobre a areia. Minha tia sorriu de um modo satisfeito. Minha percepção estava realmente alterada. A sala parecia imersa num fluído verde, parecia uma fumaça tênue ou aquário enorme. “Acho que vou apagar. Sinto tanto sono”.
- Ótimo, estamos os três aqui. Podemos começar a comer. Vamos, sirva um pouco de vinho para nossa amiga enquanto sirvo os pratos. Por que você olha tanto para aquele aparador, querido? Ouviu algum ruído estranho, talvez ratos? Minha gata não tem mais forças para caçar sequer camundongos.
Falta algo sim e eu não sei o que é. Mas me faz tanta falta. Tanta que me levanto de modo estabanado e vou até pequena bancada de madeira escura com três gavetas. Olhei as paredes úmidas e levemente mofadas me sentindo alheio, perdido. Havia uma marca mais clara na parede. Senti que algo muito importante da minha vida tinha acabado.
- Não sei, tia. O que tinha aqui na parede? Um quadro?
- Não me diga que esqueceu? Tinha um retrato seu. Nem era tão bonito... coloquei-o no quarto. Sei lá.
- Qual era?
"Não me lembro de nenhum retrato meu ali. Sinto ainda mais aquele torpor, parece que estou drogado. Parece que saí da minha realidade para viver a realidade de outra pessoa. Um tempo diferente noutro tempo do tempo lá de fora. Tinha um espelho, era isso. Um espelho que guardava segredos mais do que mostrava. Quando me cansei de fugir dele comecei a desvendar o que ele me mostrava para além do meu rosto. Qual rosto? O de criança, o de adolescente, ou o que deveria ter agora? Olhei para o arcanjo na mesinha da sala e depois olhei para a mesa. Ia retrucar mas comecei a sentir que me movia do mesmo jeito que estivesse mergulhado n’água. Mesmo assim retruquei:
- Era um espelho, tia.
Porém minha tia não estava mais lá.
- Ela precisou ir mas deixou isto pra você.
- Ir para onde?
- Não importa. Fique calmo, sim? Ela deixou comigo outro presente pra você.
Ela me mostrou um pedra arredondada como os seixos mas de cor interessante.
- O que é? Um cristal?
- Isto é um cristal rosa. Abra a sua mão esquerda.
Ela depositou o cristal na mão dele e fechou os dedos sobre a pedra com delicadeza e continuar a segurar a mão dele. Ele sentiu que havia sulcos na superfície fria e lisa da pedra, pareciam desenhos, ou melhor, caracteres. A ansiedade de Magno não deixou que ele visse o que era.
- Pareço que te conheço. Será que já nos vimos antes?
- Não importa quem fui, o mais importante é quem serei a partir de agora.
- Eu me sinto tonto demais, preciso me deitar em algum lugar.
A moça permitiu que ele se amparasse no ombro dele e deixou-se levar até o quarto no final do corredor. Ela o sustentava a contento apesar das óbvias diferenças de altura e peso. Mesmo com a visão nublada, viu a penteadeira oval com três espelhos da avó. Sentia um cansaço como se sua alma estivesse vazando do seu corpo, algo próximo da morte. Estava tão confuso que não se assustou ao pensar que viu a tia vestida com uma camisola branca e as mãos sobre o ventre. Seu semblante sereno apesar dos olhos fechados e fundos. Olhou para quem agora era a única pessoa com quem contar.
- Confie em mim. Não acredite em tudo que vê.
Ela deitou o corpo quase inerte do rapaz. Não havia ninguém deitado ao lado dele.
- Seus cabelos parecem com o do seu pai, tão negros e espessos.
- De onde você conheceu meu pai? Você não tem idade para tê-lo conhecido.
Magno esforçou-se para focar a visão e viu jornais velhos caídos no chão, baratas furtivas fugindo de qualquer movimento. Panos coloridos na cadeira, vidros de perfume espalhados e uma vela apagada na cômoda. Depois assustou-se por ver sua mão nas mãos delas.
- Esta união só terá valor se você quiser de verdade. Você me aceita por todo caminho do conhecimento. Nunca se utilizará do seu conhecimento para me destruir e nem eu a você?
- Do que você está falando?
Agora parece a minha tia. Parece que ainda estou dormindo mas a garota merece minha confiança. Quero confiar nela. De qualquer forma não tenho forças nem para me levantar, quanto menos para correr para longe daqui.
- Isso quer dizer que sim?
- Quando conheci você?
- Num dia de sol quando a gente era muito jovem.
- Mas nós somos jovens.
- Não há mais tempo.
- Seus olhos, eles parecem verdes agora.
- É a luz, querido. Na sala você viu meus olhos castanhos, não foi? Quando fui ao banheiro eu... eu precisei chorar um pouco porque não quero me despedir mais de você.
- Mas é tão estranho. Seus olhos eram tão lindos quando achei que eram castanhos-claros e agora. Agora parecem com... - “os olhos de tia Stella, como pode ser? Seus olhos verdes, seu rosto parecem com o dela há poucos 30 anos”
- Você está tão diferente e bonita. Parece minha tia. Não. Parece minha mãe. Eu estou cansado, preciso dormir.
- Você está tão diferente e bonita. Parece minha tia. Não. Parece minha mãe. Eu estou cansado, preciso dormir.
- Isto, dorme um pouco.
Ela levantou meio temerosa as mãos para o rosto daquele homem com olhar confuso e cansado. Ele permitiu que ela o tocasse tão intimamente. Na verdade, Magno, pediu por isso.
- Posso te dar um beijo, na sua testa?
Ele consentiu e sentiu os olhos molhados de um choro preso. Odiava que alguém o visse chorar embora aquilo também lhe desse prazer.
- Feche os olhos, Miguel.
A moça beijou os lábios dele de forma casta até que ambos entreabriram os lábios e suas línguas roçavam-se como serpentes num ritual de perpetuação da espécie. A saliva dos dois agradava a cada um pois não tinha o gosto travoso das bebidas adocicadas. O dentes às vezes se chocavam mas até isso provocava prazer. Por um momento inesperado ela roçou seus dentes na boca úmida dele e provocou um pequeno corte com uma mordida incisiva.
- Você me mordeu.
- Quieto, querido. Foi sem querer mas tinha que acontecer. Deixe eu sentir o gosto.
- Não, isso é nojento. Desculpa, não quero te ofender. Eu detesto sentir o gosto enjoativo de sangue.
- Fique calmo, sim?
- Fique calmo, sim?
Quando eles permitiram-se esse beijo que parecia algo tão ruim mas que transformou-se de novo no beijo íntimo. Sentiu que a pele torneada e tornava-se seca, fina. Sentiu que os lábios bem desenhados tomavam a forma de uma boca fina, contornada de minúsculas rugas. Ele quis abrir os olhos. Quando viu o rosto da moça beijando-o com os olhos aberto viu também sua tia. Ela estava de pé atrás dela e olhava fixamente. Eram o rosta da tia, a pele fina e marcada por linhas do tempo, os mesmo lábios delgados, murchos que ela sentiu beijar há menos de um minuto.
- É melhor pararmos com isso.
- Você é teimoso. Quer explicar tudo. Não vê que o mundo não tem lógica e que tudo que segue ordenado, faz isso por hábito? Agora durma.
E então ele viu espantado que apesar do mesmo rosto, dos cabelos iguais, ela vestia o mesmo robe cor de marfim amarelado – e com umas manchinhas indiscretas aqui e ali, da tia. “Minha tia se foi de novo. Parece que estou sob o efeito de uma droga que provoca delírios. Os delírios da noite, do infinito de quase todas línguas que conheço”.
- Sua face está tão envelhecida... digo: lívida! E seu vestido... parece o mesma da minha tia.
- Sou a mesma. A roupa te importa tanto assim? Eu estou usando a mesma roupa de antes.
Sim, ela estava vestida com o mesmo jeans e a mesma camiseta, agora desabotoada.
Sim, ela estava vestida com o mesmo jeans e a mesma camiseta, agora desabotoada.
- É verdade.
- É efeito da escuridão. Amanhã nossas vidas serão diferentes. Nossas vidas serão uma só como estava destinada a ser.
- Eu não sei... eu não sei. Me sinto tão confuso.
Magno não quis mais entender nada, nem discutir. Ela fala agora igual a titia. Ele fechou os olhos e começou a chorar. “São Miguel arcanjo, me protege nesse momento de confusão”.
- Obrigado. Você faz com que eu me sinta bem e não tenha sequer vergonha de chorar.
Ela acariciou suas largas costas com o carinho da mulher que tece uma peça de renda. Suas unhas não arranhavam, ao contrário, fazia com que sentisse feliz. Até que ele teve um insight: corria na praia fugindo das ondas até que tudo ficou escuridão. Magno não sentiu mais o toque da moça e não ouviu nenhuma resposta. Seu calor estava distante, parecia que nunca esteve ali. Olhou assustado para o outro lado da cama de casal e viu com os cantos dos olhos que Íris estava deitada na cama igualzinho à visão da tia, com as mãos cruzadas sobre os seios. Parecia dormir profundamente. Ela murmurou como em resposta a alguma pergunta dele:
- Dorme querido, amanhã a gente conversa. Agora precisamos da noite. O sol pode nos esperar. Seremos um e até o sol aguardará por nós.
- Você vai estar comigo amanhã.
- Vou estar contigo por uma eternidade.
- Você vai estar comigo amanhã.
- Vou estar contigo por uma eternidade.
Eu os observava sem ser vista da porta e escolhia a melhor forma para contar esta estória.
Fim
quinta-feira, 27 de junho de 2013
ora vejo
Ontem a noite escura derramou cedo,
devastou fato tornado
- ventos ainda virão.
A chuva já foi.
Seu rosto castigado de água
abriu-se plácido.
A passagem do tempo tornara-se clara
e ao lado do que está arrasado
trouxe-lhe à tona mal tratada.
Deu-se à cura. Mar
ia, vinha, seu cheiro, na areia.
Limpou o ar, amanda dona.
Preparou-lhe para o bem que irá chegar.
Divina bonança ora vejo.
A luz divisou na vista uma ordem natural, não imposta.
sexta-feira, 21 de junho de 2013
Ilíadas
Páris
Pelo pão e a moeda que me deu de bom grado
vou contar tuas glórias jovem pastor.
Basta de pena por esses olhos vazados
e os trapos que cobrem esse corpo degradado.
Perante os deuses sou um mensageiro que os canta,
um grande rei, grande como teu pai. Ouve:
Ela ainda te acolherá e consentirá ser levada.
Antes terás de volta todas as terras do teu reino.
Este cajado será uma espada e as ovelhas, o seu povo.
Daqui até as muralhas da cidade de Tróia.
Não te alegres ainda, agora só o mar é tua fronteira
logo farás fronteira das lágrimas dos teus e a dor.
Mas esses dias de pasmaceira, balidos tristes
e a fumaça que te aquece logo serão esquecidos
pela ostentação e o incenso da casa do teu pai.
Terás vestes púrpuras cobrindo teu corpo jovem,
de músculos esculpidos pelas rochas desta escarpa.
Mas encontrarás o amor e a tua ruína no mesmo lugar:
no teu coração.
Aceitarás o presente de quem não se pode confiar,
embora eu também a cante por sua beleza,
inebriado pela promessa de um futuro feliz.
Esse futuro distante cobrará o que não ouso te dizer.
Se te agrado ouso pedir que fuja das contendas dos grandes
e da sedução da beleza. Peça a sabedoria
ou serás obrigado a trocar a fidelidade dos teus por quem não possuis.
Mas é inútil, eu sei. Desmentir seu coração sonhador
é o mesmo que ouvir pedras que cantam.
Por fim com tua flecha farás o impossível e tu mesmo darás cabo da tua sina
enquanto as mulheres gritam e gemem a espera do cárcere.
*
Helena
A prata polida devolve meus olhos
de azuis que prenunciam tempestades.
Não diz de mim o que todos já não saibam.
Entretanto não me responde quem sou.
Essa nuvem revolta e loura emoldurando meu rosto
atrai quem não quero.
Este é o reflexo dos nichos onde sou guardada e adorada.
Uma divindade de carne, vazia como uma estátua oca.
Você sabe o que sei, sabe o que sinto?
Pode adivinhar o quanto as lacunas do meu corpo doem?
Nem minha irmã pressente o rumor que me ensurdece
entre as paredes onde sou uma serva consentida.
Elas só servem para esconder o meu grito.
Sei que um dia ele virá me buscar, um dia ele vem
e a despeito dos mortos vou segui-lo aonde for,
farta de ser nada.
Deuses não podem nada se não conseguem ser.
Ironia da minha vida: da fina casca do ovo de Leda e Zeus
adentrei a casa do meu senhor, amante e tirano.
Vivo desgraçada como o dia encoberto pela noite.
Até lá descansarei o meu olhar no mar.
Ele me fala que dia chegará
em que novamente o fitarei com o coração opresso pela dor,
dividida entre mim e minha outra metade.
Que o destino siga o seu curso ainda que
eu venha a lamentar minha sorte de novo.
*
Aquiles
Filho, como ousou pedir por sua ruína?
Quando me pediu um caminho, ofereci dois
na esperança que da fama quisesse a vida
e despedacei meu coração com sua glória.
As águas sagradas onde banhei seu pequeno corpo
são poucas diante do choro que derramei seguindo seus passos.
Agora meus olhos estão secos diante do seu corpo
chorado pelos seus.
Lançou-se na batalha derradeira pela morte do seu amado Pátroclo
cujo amor pueril era tornar-se você, vestido da sua armadura e lança.
Foi a perda de um pequeno inocente jogado nas rochas.
Que Deus permitiu que saisse do meu útero e da sua casa?
Seus feitos serão narrados por novos mundos
atiçando a minha dor eterna que me atravessa de lado a lado.
Maldito! Pelo dor que me abre uma ferida que jamais há de fechar.
Não serei mais sua mãe, agora Hades é seu pai.
Hermes já chega apressado, expedido por Palas, para levá-lo de mim.
Ninguém se lamenta por Tétis.
Talvez a culpa seja minha.
Os pais adestram seus filhos para ocuparem seus lugares
e poucos conseguem fugir dessa sina sem lutas.
Cada onda batendo na areia dessa cidade devastada
despedaça meu coração com suas honras.
Elas serão testemunha do meu ódio e do meu amor.
Não posso sequer culpar o arqueiro cujo arco te alcançou o pé.
Quem te matou foi seu ponto fraco, sua pretensão.
De que me importa que te adorem se só os deuses são imortais.
Semideuses têm data para deixar a existência.
Você é a ruína de um mundo que desmorona
e outro herói ocupará seu lugar.
Mas o meu coração de mãe continuará vazio e árido
como esta terra após seu apogeu.
*
Heitor (à nova ordem)
Abri os olhos cheios de terra.
Eu vejo, por todos os lados,
O chão, o céu desabando.
Alguém me leva pelos pés atados.
Não tenho dor, não sinto nada,
Vou sendo arrastado,
Esfolado vivo.
Os braços sacodem a esmo
E as pedras se chocam contra
a minha cabeça.
O corpo sua encharcado
De suor e terra vermelha
Uma presa de guerra.
Sei que devia correr
Sei que devia gritar
Se eu soubesse eu faria
Procuro deixar-me imóvel
Mas não consigo.
Quero ver a frente
E só vejo suas largas costas
A proteger-me enquanto
Eu me desfaço pelo caminho.
Você chama o meu nome
Mas não diz mais nada
Vai acabando comigo
Enquanto me ajuda.
Você nunca me destruirá,
Tampouco saberá
Quem sou.
Eu sou uma esfinge –
- que fala muito.
Pelo pão e a moeda que me deu de bom grado
vou contar tuas glórias jovem pastor.
Basta de pena por esses olhos vazados
e os trapos que cobrem esse corpo degradado.
Perante os deuses sou um mensageiro que os canta,
um grande rei, grande como teu pai. Ouve:
Ela ainda te acolherá e consentirá ser levada.
Antes terás de volta todas as terras do teu reino.
Este cajado será uma espada e as ovelhas, o seu povo.
Daqui até as muralhas da cidade de Tróia.
Não te alegres ainda, agora só o mar é tua fronteira
logo farás fronteira das lágrimas dos teus e a dor.
Mas esses dias de pasmaceira, balidos tristes
e a fumaça que te aquece logo serão esquecidos
pela ostentação e o incenso da casa do teu pai.
Terás vestes púrpuras cobrindo teu corpo jovem,
de músculos esculpidos pelas rochas desta escarpa.
Mas encontrarás o amor e a tua ruína no mesmo lugar:
no teu coração.
Aceitarás o presente de quem não se pode confiar,
embora eu também a cante por sua beleza,
inebriado pela promessa de um futuro feliz.
Esse futuro distante cobrará o que não ouso te dizer.
Se te agrado ouso pedir que fuja das contendas dos grandes
e da sedução da beleza. Peça a sabedoria
ou serás obrigado a trocar a fidelidade dos teus por quem não possuis.
Mas é inútil, eu sei. Desmentir seu coração sonhador
é o mesmo que ouvir pedras que cantam.
Por fim com tua flecha farás o impossível e tu mesmo darás cabo da tua sina
enquanto as mulheres gritam e gemem a espera do cárcere.
*
Helena
A prata polida devolve meus olhos
de azuis que prenunciam tempestades.
Não diz de mim o que todos já não saibam.
Entretanto não me responde quem sou.
Essa nuvem revolta e loura emoldurando meu rosto
atrai quem não quero.
Este é o reflexo dos nichos onde sou guardada e adorada.
Uma divindade de carne, vazia como uma estátua oca.
Você sabe o que sei, sabe o que sinto?
Pode adivinhar o quanto as lacunas do meu corpo doem?
Nem minha irmã pressente o rumor que me ensurdece
entre as paredes onde sou uma serva consentida.
Elas só servem para esconder o meu grito.
Sei que um dia ele virá me buscar, um dia ele vem
e a despeito dos mortos vou segui-lo aonde for,
farta de ser nada.
Deuses não podem nada se não conseguem ser.
Ironia da minha vida: da fina casca do ovo de Leda e Zeus
adentrei a casa do meu senhor, amante e tirano.
Vivo desgraçada como o dia encoberto pela noite.
Até lá descansarei o meu olhar no mar.
Ele me fala que dia chegará
em que novamente o fitarei com o coração opresso pela dor,
dividida entre mim e minha outra metade.
Que o destino siga o seu curso ainda que
eu venha a lamentar minha sorte de novo.
*
Aquiles
Filho, como ousou pedir por sua ruína?
Quando me pediu um caminho, ofereci dois
na esperança que da fama quisesse a vida
e despedacei meu coração com sua glória.
As águas sagradas onde banhei seu pequeno corpo
são poucas diante do choro que derramei seguindo seus passos.
Agora meus olhos estão secos diante do seu corpo
chorado pelos seus.
Lançou-se na batalha derradeira pela morte do seu amado Pátroclo
cujo amor pueril era tornar-se você, vestido da sua armadura e lança.
Foi a perda de um pequeno inocente jogado nas rochas.
Que Deus permitiu que saisse do meu útero e da sua casa?
Seus feitos serão narrados por novos mundos
atiçando a minha dor eterna que me atravessa de lado a lado.
Maldito! Pelo dor que me abre uma ferida que jamais há de fechar.
Não serei mais sua mãe, agora Hades é seu pai.
Hermes já chega apressado, expedido por Palas, para levá-lo de mim.
Ninguém se lamenta por Tétis.
Talvez a culpa seja minha.
Os pais adestram seus filhos para ocuparem seus lugares
e poucos conseguem fugir dessa sina sem lutas.
Cada onda batendo na areia dessa cidade devastada
despedaça meu coração com suas honras.
Elas serão testemunha do meu ódio e do meu amor.
Não posso sequer culpar o arqueiro cujo arco te alcançou o pé.
Quem te matou foi seu ponto fraco, sua pretensão.
De que me importa que te adorem se só os deuses são imortais.
Semideuses têm data para deixar a existência.
Você é a ruína de um mundo que desmorona
e outro herói ocupará seu lugar.
Mas o meu coração de mãe continuará vazio e árido
como esta terra após seu apogeu.
*
Heitor (à nova ordem)
Abri os olhos cheios de terra.
Eu vejo, por todos os lados,
O chão, o céu desabando.
Alguém me leva pelos pés atados.
Não tenho dor, não sinto nada,
Vou sendo arrastado,
Esfolado vivo.
Os braços sacodem a esmo
E as pedras se chocam contra
a minha cabeça.
O corpo sua encharcado
De suor e terra vermelha
Uma presa de guerra.
Sei que devia correr
Sei que devia gritar
Se eu soubesse eu faria
Procuro deixar-me imóvel
Mas não consigo.
Quero ver a frente
E só vejo suas largas costas
A proteger-me enquanto
Eu me desfaço pelo caminho.
Você chama o meu nome
Mas não diz mais nada
Vai acabando comigo
Enquanto me ajuda.
Você nunca me destruirá,
Tampouco saberá
Quem sou.
Eu sou uma esfinge –
- que fala muito.
quarta-feira, 19 de junho de 2013
Completo
Fez-se preciso escrever para que não venha a esquecer
deste sentimento impreciso, sutil e alarmante.
enraizado. Ainda que apenas tenha pousado
e que um dia certamente tocará você.
Vem repousando no meu olhar descrente.
Este sentido novo que me faz sentir
o que não se pode ver nem comprovar
senão no lugar do faz-de-conta.
Tem vários nomes ou não carece que haja um.
Basta que me certifique da sua existência.
Um sopro vivificante que vem
uma, duas, quantas vezes numa vida? De quantas formas?
Desde o primeiro, não conhecido
mas muito bem guardado. Ganhou vida noutro corpo.
Amor: sentimento mais primitivo.
Vem e sempre suscita um mundo
de pessoas novas e reinventa a minha vida.
Nas noites infindas de poesia e mal dormidas.
Agora só sinto falta do violão.
Estou completo.
deste sentimento impreciso, sutil e alarmante.
enraizado. Ainda que apenas tenha pousado
e que um dia certamente tocará você.
Vem repousando no meu olhar descrente.
Este sentido novo que me faz sentir
o que não se pode ver nem comprovar
senão no lugar do faz-de-conta.
Tem vários nomes ou não carece que haja um.
Basta que me certifique da sua existência.
Um sopro vivificante que vem
uma, duas, quantas vezes numa vida? De quantas formas?
Desde o primeiro, não conhecido
mas muito bem guardado. Ganhou vida noutro corpo.
Amor: sentimento mais primitivo.
Vem e sempre suscita um mundo
de pessoas novas e reinventa a minha vida.
Nas noites infindas de poesia e mal dormidas.
Agora só sinto falta do violão.
Estou completo.
O nascimento dos deuses
Quando me vi na superfície do vidro, estaquei na calçada surpreso. E vi. Vi aquele rosto fitando
o meu. Senti medo. Um medo sem explicação, o mal do pânico de ver-se encurralado, sem saída.
Mais que medo, senti que nunca mais seria igual. É muito ruim pensar que hoje possa ser o último
dia de alguma coisa, mas algo em mim morreu naquele dia. Mas me lembrei que teria de acordar
cedo no outro dia para fazer uma prova e antegozei o fracasso que seria. Não pude deixar de
sentir um certo prazer de aceitar a derrota e até sentir-me livre de um compromisso que me
arrependia de ter contraído.
O sol batia nas minhas costas, refletia na capa dos livros e devolvia a minha imagem tesa,
sobreposta àquele rosto tão convidativo e familiar. Mas não era eu? O colorido desordenado da
moldura a volta dela perdia interesse. No que seu rosto devolvia sua luz como um astro sem luz
própria. O que eu tinha mesmo de fazer? Agora parecia que havia uma sincronia sinistra entre a
imagem e eu. Meus olhos lacrimejaram com a luz e esbocei um sorriso tímido, rezando para que
minhas espinhas não distorcessem tanto meu rosto mental. Ao que levantei a mão para fingir que
coçava os olhos e ‘ele’ fez o mesmo. Será que me via? Aquela imagem animada, estampada na
superfície fria parecia adivinhar caprichosamente meus gesto para provar sua onisciência.
Pensei que estava ficando louco e de súbito o reflexo de um raio de sol resvalou de um carro
passando célere atrás de mim e separou nossos olhares. Nos segundos que fiquei cego pensei
que quando o reflexo ocupasse novamente meu campo visual a figura não aparecesse mais. Parei
de respirar e senti raiva da minha covardia. Onde estava quem se achava capaz de fazer o que
quisesse por querer e por desafiar as convenções sociais? Às favas o que pensam de mim! Mas
aquela pessoa tão semelhante a mim ressurgiu do clarão mais idêntica e me olhava com olhos de
muda indagação.
Estranho... mas pensei em quando apanhei pela primeira vez do meu pai. Quis gritar que era
covardia, que eu era um menino de 8 anos e ele muito maior do que eu. Não, queria gritar que o
amava e que não podia suportar o peso da mão dele. Não da mão dele. Quis dizer que tinha razão
em querer me bater, o que era melhor do que quando me ignorava ao me ver chorando pelos
cantos. E agora... Eu sabia que iría odiá-lo pra sempre. “Seu filho da puta!” E a mão dele estalou
na minha boca. A mesma mão que me protegia dos garotos da rua. Acho que foi a primeira vez
que soube que chorar era proibido, porque ele batia mais e mais me mandando calar a boca. Dizia
que era coisa de ‘mulherzinha’ e que eu merecia apanhar. “Não abre a sua boca pra mim seu
pirralho mimado!” Quis perguntar porque me batia com tanto ódio. Quando parou suado e com a
respiração sôfrega eu vi aqueles olhos cheio de culpa, dizendo que nunca mais faria isto. Aquele
escroto! Eu me calei inchado de um orgulho mórbido. Calei que ia dizer que devolveria depois e ele
nem deixou que eu falasse. Por que deixava na mesa o que era proibido pra mim? Mas eu ia
devolver, eu ia. Quis me abraçar e eu gritei descontrolado que me batesse mais, que me matasse
de uma vez. A minha mãe interveio e me defendeu. Pediu que ele tivesse paciência e que já
bastava. Ele preferiu discutir com ela a continuar me batendo. Só me lembro vagamente dos gritos
dos dois no quarto abafado. E do quanto chorei de noite, escondido debaixo do travesseiro, com
pena e vergonha de mim mesmo. Foi a última vez que me lembro de ter chorado.
Que viagem mais sem nexo. Os olhos do reflexo me trouxeram à realidade. Estava com os
olhos molhados. E vi aqueles olhos de pergunta, amendoados, ligados por uma linha invisível aos
meus. E depois pareciam ter raiva por serem observados. Será que eu fiz algo errado? Cocei uma
espinha no queixo para fingir naturalidade. Pensei como era bom estar ali parado sentindo o
mormaço do sol e a cor laranja tingindo tudo. O barulho dos carros, as pessoas que vez por outra
me davam um esbarrão num esforço de continuarem seu caminho pela calçada. Pessoas paravam
do meu lado, olhando pra dentro. Será que viam o mesmo que eu? Eu fingia ignorar quando me
olhavam nos olhos. Por fim alguns entravam no estabelecimento, deixando um ar gelado escapar
numa lufada de vento, ou então seguiam adiante e me deixavam lá, absorto, contemplando aquele
ser esdrúxulo e interessante.
De súbito, como que por artifícios mágicos, a beleza daquele ser figurou-se única no meu
limitado mundo. Mais que isso, um sol da minha galáxia, distinguido-a em todo o universo. Ah,
Deus! Quanta divagação desvirtuada. Essa conversa de louco que travava comigo e meu íntimo,
para decifrar o todo do ser que me via e agora sorria pra mim, buscando cumplicidade. Tem de ser
ela, o reflexo da minha alma. Como queria ter uma máquina fotográfica aqui comigo agora. Ela
então quebrou a mágica da sincronia e alisou seus cabelos fartos. A displicência de seu gesto
tornava algo tão banal em um evento mundial. Juro que ouvi a torcida comemorando a vitória do
meu time. Era ela que merecia a luz de todos os refletores, o lugar mais alto do podium de
chegada. Depois resvalou o olhar da contracapa dos livros pra mim, parecia que olhava através do
meu corpo, embasbacado, parado ali sem defesas. Por fim sorriu como se me conhecesse
também. Meus pulmões ganharam ar revigorados. Senti ímpetos de falar com ela, perguntar se
sentia o mesmo que eu. Ela me via, ela pode me ver também! Quando mordeu seus lábios em
muda indagação, olhando para os lados, percebi que eu não era tão invisível quanto pensava. Um
rapaz apareceu detrás de suas costas e lhe disse algo no ouvido e ela riu com tanta naturalidade
que eu senti vontade de rir também. Apontou para mim, mas o rapaz alcançou um livro na vitrine.
Sem pensar me virei para as portas de vidro, decidido a entrar. Desta vez o rapaz apontou o dedo
pra mim, dizendo algo que me parecia usual. Ela sorriu e me olhou de soslaio. Eu sorri em
resposta.
Depois continuei a andar pelas ruas com a certeza que o mundo estava mudado. O centro do
meu mundo sempre foi eu mesmo e deste centro eu chegaria aonde mais quisesse ir. Conheceria
e iría interagir com outras pessoas-mundo. Senti a alegria de ser livre e apressei o passo para não
perder o meu ônibus que já chegava ao ponto.
o meu. Senti medo. Um medo sem explicação, o mal do pânico de ver-se encurralado, sem saída.
Mais que medo, senti que nunca mais seria igual. É muito ruim pensar que hoje possa ser o último
dia de alguma coisa, mas algo em mim morreu naquele dia. Mas me lembrei que teria de acordar
cedo no outro dia para fazer uma prova e antegozei o fracasso que seria. Não pude deixar de
sentir um certo prazer de aceitar a derrota e até sentir-me livre de um compromisso que me
arrependia de ter contraído.
O sol batia nas minhas costas, refletia na capa dos livros e devolvia a minha imagem tesa,
sobreposta àquele rosto tão convidativo e familiar. Mas não era eu? O colorido desordenado da
moldura a volta dela perdia interesse. No que seu rosto devolvia sua luz como um astro sem luz
própria. O que eu tinha mesmo de fazer? Agora parecia que havia uma sincronia sinistra entre a
imagem e eu. Meus olhos lacrimejaram com a luz e esbocei um sorriso tímido, rezando para que
minhas espinhas não distorcessem tanto meu rosto mental. Ao que levantei a mão para fingir que
coçava os olhos e ‘ele’ fez o mesmo. Será que me via? Aquela imagem animada, estampada na
superfície fria parecia adivinhar caprichosamente meus gesto para provar sua onisciência.
Pensei que estava ficando louco e de súbito o reflexo de um raio de sol resvalou de um carro
passando célere atrás de mim e separou nossos olhares. Nos segundos que fiquei cego pensei
que quando o reflexo ocupasse novamente meu campo visual a figura não aparecesse mais. Parei
de respirar e senti raiva da minha covardia. Onde estava quem se achava capaz de fazer o que
quisesse por querer e por desafiar as convenções sociais? Às favas o que pensam de mim! Mas
aquela pessoa tão semelhante a mim ressurgiu do clarão mais idêntica e me olhava com olhos de
muda indagação.
Estranho... mas pensei em quando apanhei pela primeira vez do meu pai. Quis gritar que era
covardia, que eu era um menino de 8 anos e ele muito maior do que eu. Não, queria gritar que o
amava e que não podia suportar o peso da mão dele. Não da mão dele. Quis dizer que tinha razão
em querer me bater, o que era melhor do que quando me ignorava ao me ver chorando pelos
cantos. E agora... Eu sabia que iría odiá-lo pra sempre. “Seu filho da puta!” E a mão dele estalou
na minha boca. A mesma mão que me protegia dos garotos da rua. Acho que foi a primeira vez
que soube que chorar era proibido, porque ele batia mais e mais me mandando calar a boca. Dizia
que era coisa de ‘mulherzinha’ e que eu merecia apanhar. “Não abre a sua boca pra mim seu
pirralho mimado!” Quis perguntar porque me batia com tanto ódio. Quando parou suado e com a
respiração sôfrega eu vi aqueles olhos cheio de culpa, dizendo que nunca mais faria isto. Aquele
escroto! Eu me calei inchado de um orgulho mórbido. Calei que ia dizer que devolveria depois e ele
nem deixou que eu falasse. Por que deixava na mesa o que era proibido pra mim? Mas eu ia
devolver, eu ia. Quis me abraçar e eu gritei descontrolado que me batesse mais, que me matasse
de uma vez. A minha mãe interveio e me defendeu. Pediu que ele tivesse paciência e que já
bastava. Ele preferiu discutir com ela a continuar me batendo. Só me lembro vagamente dos gritos
dos dois no quarto abafado. E do quanto chorei de noite, escondido debaixo do travesseiro, com
pena e vergonha de mim mesmo. Foi a última vez que me lembro de ter chorado.
Que viagem mais sem nexo. Os olhos do reflexo me trouxeram à realidade. Estava com os
olhos molhados. E vi aqueles olhos de pergunta, amendoados, ligados por uma linha invisível aos
meus. E depois pareciam ter raiva por serem observados. Será que eu fiz algo errado? Cocei uma
espinha no queixo para fingir naturalidade. Pensei como era bom estar ali parado sentindo o
mormaço do sol e a cor laranja tingindo tudo. O barulho dos carros, as pessoas que vez por outra
me davam um esbarrão num esforço de continuarem seu caminho pela calçada. Pessoas paravam
do meu lado, olhando pra dentro. Será que viam o mesmo que eu? Eu fingia ignorar quando me
olhavam nos olhos. Por fim alguns entravam no estabelecimento, deixando um ar gelado escapar
numa lufada de vento, ou então seguiam adiante e me deixavam lá, absorto, contemplando aquele
ser esdrúxulo e interessante.
De súbito, como que por artifícios mágicos, a beleza daquele ser figurou-se única no meu
limitado mundo. Mais que isso, um sol da minha galáxia, distinguido-a em todo o universo. Ah,
Deus! Quanta divagação desvirtuada. Essa conversa de louco que travava comigo e meu íntimo,
para decifrar o todo do ser que me via e agora sorria pra mim, buscando cumplicidade. Tem de ser
ela, o reflexo da minha alma. Como queria ter uma máquina fotográfica aqui comigo agora. Ela
então quebrou a mágica da sincronia e alisou seus cabelos fartos. A displicência de seu gesto
tornava algo tão banal em um evento mundial. Juro que ouvi a torcida comemorando a vitória do
meu time. Era ela que merecia a luz de todos os refletores, o lugar mais alto do podium de
chegada. Depois resvalou o olhar da contracapa dos livros pra mim, parecia que olhava através do
meu corpo, embasbacado, parado ali sem defesas. Por fim sorriu como se me conhecesse
também. Meus pulmões ganharam ar revigorados. Senti ímpetos de falar com ela, perguntar se
sentia o mesmo que eu. Ela me via, ela pode me ver também! Quando mordeu seus lábios em
muda indagação, olhando para os lados, percebi que eu não era tão invisível quanto pensava. Um
rapaz apareceu detrás de suas costas e lhe disse algo no ouvido e ela riu com tanta naturalidade
que eu senti vontade de rir também. Apontou para mim, mas o rapaz alcançou um livro na vitrine.
Sem pensar me virei para as portas de vidro, decidido a entrar. Desta vez o rapaz apontou o dedo
pra mim, dizendo algo que me parecia usual. Ela sorriu e me olhou de soslaio. Eu sorri em
resposta.
Depois continuei a andar pelas ruas com a certeza que o mundo estava mudado. O centro do
meu mundo sempre foi eu mesmo e deste centro eu chegaria aonde mais quisesse ir. Conheceria
e iría interagir com outras pessoas-mundo. Senti a alegria de ser livre e apressei o passo para não
perder o meu ônibus que já chegava ao ponto.
Poetas
Não há porque cobrar-me amor ou servidão
se vendo só ilusão vã na solidão de ti
cada um dá o melhor o de si. O poeta, a sua pena,
o lavrador, o lavor da enxada, o sábio, seu conhecimento.
Quando o real parecer faltar
o que fará a realidade senão o mito tornado rito?
E cada um se adorna das verdades que o aprouver.
Perdoa-me se te ofereço doces mentiras
ou amargas bebidas nas palavras que a dor atenua,
ou que a excede a felicidade vazia
sem trazer real ganho ou ventura
quando amizade e atenção recebo.
O cristal límpido de uma lágrima,
o luzir nublado de um sorriso.
Meu ofício é tecer sonhos
Onde poderás construir base do teu ideal.
As palavras estão sempre a teu serviço
embora aqui já não mais permanecer.
Tesouro lauto a mim dado, desgraça ou dita?
Faço um mundo de um espectro
e esta malha existe apenas por existir,
enquanto sigo só embriagado de palavras.
(Pequena homenagem a Goethe)
se vendo só ilusão vã na solidão de ti
cada um dá o melhor o de si. O poeta, a sua pena,
o lavrador, o lavor da enxada, o sábio, seu conhecimento.
Quando o real parecer faltar
o que fará a realidade senão o mito tornado rito?
E cada um se adorna das verdades que o aprouver.
Perdoa-me se te ofereço doces mentiras
ou amargas bebidas nas palavras que a dor atenua,
ou que a excede a felicidade vazia
sem trazer real ganho ou ventura
quando amizade e atenção recebo.
O cristal límpido de uma lágrima,
o luzir nublado de um sorriso.
Meu ofício é tecer sonhos
Onde poderás construir base do teu ideal.
As palavras estão sempre a teu serviço
embora aqui já não mais permanecer.
Tesouro lauto a mim dado, desgraça ou dita?
Faço um mundo de um espectro
e esta malha existe apenas por existir,
enquanto sigo só embriagado de palavras.
(Pequena homenagem a Goethe)
A sonhadora
Hoje de manhã chego mais cedo na escola e o lugar está
vazio. Entro na minha classe completamente vazia e me sento na carteira da
frente. Debruço a cabeça cheio de preguiça. Quando a levanto, constato que a sala ainda está vazia. Para onde foi todo mundo? A tia de
matemática entra na sala, carregada de livros, do diário da turma e não faz a
chamada. õe os livros na mesa e vira-se para o quadro verde sem olhar para
mim.
̶ Bom dia, tia.
Não me responde e escreve no
quadro: “Não se preocupe, nada importa”. Vira-se para frente, entretanto tem um
olhar vazio.
̶ Tia, estou aqui.
Então ela olha nos meus olhos como se não me
conhecesse. Parece outra pessoa.
̶
Tia, sou eu, o Carlinhos. Bom dia.
Ela
permanece calada.
̶
Pra onde foi todo mundo?
̶
O quê está acontecendo?
Ela fica bem na minha frente e tira a pele do rosto como se
fosse feita de massinha de modelar, vira-se e coloca aquela máscara mole
em cima da mesa dela e dá as costas para o quadro. De frente para mim seu rosto
é o mesmo. Vejo uma boneca na mesa dela.
̶
Tem um brinquedo de menina na sua mesa.
̶ Não tem nada ali, Carlos.
̶ Tia, você não gosta mais de mim?
Ela
retira aquela pele mole de cima do rosto e a deixa na minha mesinha. Mira nos
meus olhos e diz: ̶ ̶ É melhor que saia da frente do espelho.
̶ A senhora está me assustando.
Desvio meus olhar das órbitas abertas da casca para o
rosto da professora.
̶ Agora acorda e cresce.
Vi
que seus olhos estavam verdes e brilhantes, mudavam de cor e continuavam cada
vez mais verdes. Havia uma luminosidade branda em volta dos globos coloridos.
Tenho medo e choro de verdade. Quero gritar, a voz não sai, meu corpo não responde
à minha vontade. Ela continua me encarando com aqueles olhos verdes
iridescentes, indecentes.
̶ Acorda, filho. Vai se atrasar.
Sinto
uma mão acariciando as minhas costas e reconheço o som da voz da minha mãe. Ou
será da professora? Saio de um lugar profundo. Reconheço o meu quarto e o rosto
dela. Afundo no colchão, mais relaxado. Abro os olhos completamente e me sinto
confuso.
̶
Foi um pesadelo? Você está quente, está suando frio. Está tremendo,
Carlinhos. Será que está resfriado? Vou pegar um termômetro agora.
̶ Estou bem mãe, bom dia.
̶
Você estava falando coisas confusas. Estava muito agitado. Tentei
conversar com você enquanto falava. Vou buscar um remédio.
̶
Não, mãe. Vou tomar banho e me vestir pra ir à faculdade.
Não quero remédio nenhum, sua atenção me oprime. Logo
você que parecia querer me conhecer mais a fundo. Vá atender ao seu marido, sua
autômata perdida. Por que você não se ajuda? Por que se tornou tão subserviente
assim, mãe?
̶
Depois vá tomar café com seu pai. As roupas limpas estão sobre a
cadeira.
Você até fala, age e se comporta igual a ele, virou um
clone dele. Só falta me dar banho. Parece que sou uma continuação do meu pai,
porém ele é um semideus e sei que sou só carne e osso. Eu me levanto vou até o
banheiro e escuto a voz grave dele, lá da cozinha.
̶ Atrasado de novo, neném? Vem tomar seu café
para sair.
Entro
no banheiro, abro o chuveiro. Não quero tomar banho. Molho os cabelos na pia
para me pentear e os prendo com um elástico. Visto uma camiseta branca, pego
minha mochila de dentro do armário trancado e vou finalmente tomar o café da
manhã. Logo vejo da porta uma folha de jornal aberta, adivinho que na parte dos
crimes mais hediondos e o sujeito escondido atrás dela. Ele vive de pijama
desde que conseguiu afastamento da polícia militar por doença. Acho que pensa
que sou um de seus soldados ou pior, outro delinqüente. Foi o jeito que me
tratou quando descobriu que eu fumava maconha. Uma besteira que ele transformou
num caso de polícia. Só para me salvar. Salvar de quem? Dele?
̶
Bom dia, pai.
̶
Tá atrasado de novo. Toma isso
logo e sai.
̶
Já vou.
̶
Quando vai cortar suas longas
madeixas e parecer um homem de verdade?
No dia em que eu cortar a sua língua, seu babaca. Você
não tem sequer a coragem de abaixar esse jornal e olhar na minha cara.
Silêncio. Minha mãe só lava as louças, calada, de costas para nós dois. Ela
tomou seu café mais cedo para que ele ocupasse o seu território, a mesa, todos
os cantos da casa. Quem é neutro no fundo apóia o mais forte por mais que
queira ser justo.
̶ Devia
largar essa estória de estudo e ir trabalhar. Mas para ficar por mais que um
ano no mesmo emprego. No último não ficou nem seis meses. Vive dando despesas e
dar aulas particulares só pagam os livros onde você vive enterrado nos últimos
meses. Quando não são os livros é o computador. Você não paga a conta de luz.
̶
Faço o que posso.
Cara invasivo. Tanto
mais serei evasivo. Uma luz se acende no meu cérebro, o sonho. Quem vive detrás
da máscara que ele usa? Quantas máscaras serão? Não consigo me lembrar de mais
nada. Porra, aquilo, aquela sensação onírica mexe comigo.
̶
Não gosto do seu tom, rapazinho. O problema é com você. Não vê que eu
quero te ajudar?
Não, obrigado. Sua
hostilidade já me ajudou bastante até aqui. É melhor ficar calado. Quanto mais
eu falo mais ele usa minhas palavras contra mim. Para fazer nada é melhor fazer
nada na faculdade. Minha mãe resolve se manifestar.
̶ Ele faz bem, deve estudar. Seja alguém na
vida. Agora falta pouco, só mais dois anos e meio. Vai logo meu filho; para não
perder o ônibus.
̶
Então não me meto mais. Vê se não perde o caminho até o ponto, mocinha.
̶
Deixa o menino quieto. Quer outra torrada?
̶
Chega dessa porcaria sem gosto, sem manteiga, sem nada. Você acostumou o seu
filho muito mal. Sempre defende esse inútil. Vai logo tomar o seu ônibus pro fundão
e ser “alguém” na vida.
̶
Até logo, pai. Até logo, mãe.
Sujeito parvo, metido a esperto. Não sabe sequer achar
o que perde. Bato a porta atrás de mim. Filho de um “maluco de guerra” e de uma
“vendida” no que poderia dar. Não quero ser o mediador dos dois, afinal de
contas. O que posso ser eu? Admito que numa coisa ele tem razão: o conhecimento
não me trouxe nenhuma felicidade.
Tenho
lembranças obscuras da minha infância e outras tão claras. Meu pai me pegando
no colo aos três anos. Meu pai me dizendo de coisas que não devo contar a
ninguém. Meu pai bebendo muito no meu aniversário de seis anos, com bandeiras
do Flamengo, e pagando mico para os convidados. Meu pai me levando no puteiro
pela primeira vez aos treze anos. Meu pai comemorando no dia que entrei no
exército. Meu pai descobrindo maconha na minha gaveta. Meu pai me enchendo de
porrada. Meu pai batendo na minha mãe por minha causa. Meu pai reclamando que
perdeu “alguma coisa” que estava em cima do guarda-roupa. Meu pai chorando e
pedindo perdão quando resolvi “sair da festa mais cedo”, depois que “acordei”. Meu
pai é um grande idiota.
Lembro
agora do sonho estranho. Estranho... no fundo nunca sei quando sonho ou quando
é realidade. Não quero mais saber o que é real. No fim vai dar tudo na mesma. Só
fica uma vaga lembrança do passado. O ônibus, 696, Méier, Maracanã, “Fundão”, passou
antes do 665. A porta se abre. Bom dia, obrigado, maquineta, cartão, roleta. Ao
menos não me dou mais o trabalho de fazer perguntas há um ano e meio. Desço na
estação perto do hospital e pego o ônibus azul. Bom dia? Hoje parece ser um
daqueles dias bem ruins.
̶
Bom dia, valeu piloto.
Ônibus
cheio, uns calados, dormindo de pé, outros gritam, conversando com o ônibus
inteiro. Vagou um lugar.
̶
Quer que eu segure a sua bolsa?
̶
Obrigada.
As
pessoas, de todas idades, se comprimem. Um senhor de terno olha perdido pela
janela do ônibus antes dele partir. O mar. O mar sujo por mais que tentem
limpar. As garças pousam lá iguais às modelos de passarela.
̶
Senta aqui, senhora. Eu já vou saltar. A sua bolsa, moça.
̶
Obrigada, meu filho.
̶ Não há
de quê.
Será que ficarei
assim, tão paciente, se envelhecer?
As
curvas me dão vontade de vomitar. As pessoas a minha volta falam, falam, falam.
Pela janela é tudo verde, verde igual às folhas que a minha mãe põe no meu
prato e me obriga a comer. Os urubus são pretos, pretos como o meu pequeno
tesouro na mochila. Apalpo o fundo dela embaixo do meu braço direito. Tudo
certo, ainda está aqui. “Não vi nada não pai”. Ele nunca soube que cresci
porque não quer me ver. Os calouros da Matemática discutem equações e
problemas. Outros lêem ou dormem com os olhos abertos. As pessoas esbarram,
pedem desculpa. Eu estudo a vida, mas deveria fazer Filosofia. Deveria estar
dormindo.
Salto
do ônibus azul e esse calor infernal atinge o meu corpo. É janeiro, véspera do
carnaval, o auge do verão. Vejo na frente dos meus olhos dezenas de pessoas
mortas. Dezenas, não. Centenas, milhares, um monte de gente morrendo de fome na
África ou ali noutro estado brasileiro. Perto daqui, pessoas vagando pela rua e
dormindo nas calçadas. Parecem zumbis do Craque. Mortos na guerra entre o Irã e
o Iraque, mortos em atentados fundamentalistas suicidas. Franco-atiradores em
escolas e cinemas. Mulheres violentadas por tarados em ônibus e jogadas na
estrada como latas de refrigerante na Índia. O aquecimento global que aumenta a
cada ano. O mundo que não acabou naquela sexta de 2012. Este planeta é uma
cesta de lixo, não devia ser e, no entanto sempre foi assim desde quando me
lembro. Queria deixar de existir.
Vivemos
na Idade Mídia, a Dona da Verdade. Tudo o que ela mostra parece ter mais valor
que a própria realidade. Acho que perdemos a noção de valor, não sabemos mais
de coisas que jamais devem acontecer e outras que são tão simples e bonitas. Por
mais que tentem dirigir a minha atenção “apenas informando os fatos” nunca alcançarão
mostrar de fato as verdades mais horrendas, nem as mentiras mais belas, do jeito
que são. O que acontece é que cada vez que ligo a tv, ouço o rádio, leio um
jornal, uma revista, um livro, vejo um filme, ouço uma múscia ou vasculho o poço
sem fundo da Internet visto mais um disfarce. Sou enganado pensando que apenas vejo,
quando sou visto. Esse limite tão embaçado entre realidade e ficção. Discutir
isso comigo mesmo é caminho certo para a insanidade e essa brincadeira vicia.
Às vezes acho que existe alguma conspiração do universo, parece que o fantasma
da velhice chegando mais cedo.
Dezenas
de borboletas amarelas e laranjas sobrevoam o caminho. São atírias ou monarcas?
Na saída verei a pequena coruja que pisca um olho só. Lembro-me de alguém
dizendo com a boca cheia de dentes: “A mãe natureza é justa e pródiga”. Só se
for mãe tipo Medeia. A natureza não pode ser humanizada, ela não tem ética, não
tem uma escala de valores. Os mais fracos sempre serão a comida dos mais fortes
que por sua vez serão o repasto de outros maiores e seus filhotes. Essa é a
pirâmide da morte. Nenhum ser humano nasce bonzinho. Herança dos nossos
ancestrais pré-históricos é o instinto da sobrevivência, a adrenalina para
correr ou matar. As várias faces da morte, a sonhadora. Tornamo-nos bons por
conveniência social. Ninguém quer morrer de graça. Essa é a natureza que temos.
Assim que o homem deixou de ser nômade para
buscar comida e passou a ser sedentário, criou as primeiras civilizações.
Quando teve o bastante para comer, o primeiro que fez foi cobiçar o que outro
tinha, suas riquezas, mais terras e escravos. Decidiram invadir, atacar, matar
aos montes para se apossar do que é alheio. Dar valor ao que havia de escasso,
para quê decidiu-se que o ouro era uma medida de valor das coisas? Escassez ou
dificuldade de conseguir não me parece uma boa desculpa. Houve época que
valorizavam conchas do mar.
Há
poucos setenta anos um tal Dr. alemão decidia quem ia trabalhar nos campos e
quem estava fodido. Se na idade média os médicos precisavam roubar peças nos
cemitérios para dissecação, ele usava gente viva como cobaia. Abria suas
cabeças, seus corpos, ainda vivos para observar o funcionamento do organismo
humano. A história atesta que foi quando a medicina mais avançou. Se o Dr.
Fausto se assustou quando viu um camundongo vermelho saindo da boca de uma
feiticeira enquanto dançavam, aquele médico maluco introduzia ratos vivos nos
úteros das mulheres, pela vagina. Para que uns privilegiados vivam, outros
devem ser mortos.
Patricídios, matricídios, parricídios, latrocínios, assassinatos, carnificinas, prostituição dos próprios filhos, pedofilia, estupros, tarados, intolerâncias religiosas, racismo, preconceitos, minorias perseguidas. Loucura. Será que Deus sabe que eles existem? Será que Deus sabe que eu existo? Porque não sei se Deus existe. Muito mudou e no fundo tudo continuará o mesmo, mais uma vez, enquanto houver possibilidade de uma terceira guerra mundial. Amanhã é sábado.
Patricídios, matricídios, parricídios, latrocínios, assassinatos, carnificinas, prostituição dos próprios filhos, pedofilia, estupros, tarados, intolerâncias religiosas, racismo, preconceitos, minorias perseguidas. Loucura. Será que Deus sabe que eles existem? Será que Deus sabe que eu existo? Porque não sei se Deus existe. Muito mudou e no fundo tudo continuará o mesmo, mais uma vez, enquanto houver possibilidade de uma terceira guerra mundial. Amanhã é sábado.
Cruzo o pátio, a caminho da faculdade, no meio
da multidão que invade o mesmo portão. Saio da turba e passo os dedos num cão
sujo deitado na grama entre os trailers, dou um pedaço do meu lanche. Um gato
vem ressabiado por baixo de um banco atraído pelo cheiro do presunto. Eles já
me conhecem pela comida que comem. Eu e meu complexo de Branca de Neve. Ocupo
novamente o meu lugar na turba andante e vejo árvores, pássaros, insetos, antes
de entrar no prédio, parecem ser os únicos que me compreendem neste lugar.
Alguém bate no meu ombro esquerdo. Nesta selva fui batizado para ser uma árvore
de espécie diferente no meio de outras e de um habitat repleto de diversos
espécimes sem um par.
̶ E aí,
véio?
̶
Tudo na boa. Aula no laboratório
hoje.
̶
Tô sabendo. Tu veio na aula de
ontem?
̶
Vim.
̶
Pô aí, deixa o teu caderno
comigo, maluco.
̶
Sem problema. A gente se vê no
final dessa aula, valeu?
̶
Demorou.
O
corredor, os seguranças, a equipe de limpeza, alunos, professores,
funcionários, portas, cadeiras, um corredor que não tem fim. Chego ao fundo e
passo pela porta envidraçada. A mochila pesa nas costas. A aula já tinha
começado, a professora manda que os alunos se separem em duplas e escolham um
microscópio. Um cara forte que não fala muito sobrou do meu lado. Nós dois
perscrutamos, um de cada vez, as células mortas de um tecido emoldurada nas
lâminas de vidro. Tudo pesa e nada faz sentido. Minha mochila ainda nas costas.
Procuro nela um caderno, um lápis para desenhar aquelas células e a deixo no
colo. Duas meninas discutem baixinho sobre uma festa na noite de ontem.
A
professora faz uma preleção sobre o material da aula e eu não consigo prestar
atenção. Prefiro ouvir o que as meninas falam.
̶
Ela ainda me fica com o cara. Pô, fala sério. Caraca, muito sequelada.
Devia era estar muito doida e agora faz carinha de santa. Ih, deu mal. A mulher
tá olhando pra gente agora. Vem cá, é isso mesmo?
A
boca rosa não pára quieta. Por Deus, alguém faça meu pensamento parar.
̶
Observem que o núcleo e as diversas organelas estão destacadas pelo
corante. São células de um tecido epitelial. Quero que reproduzam o que vêem da
forma mais idêntica... ...os unicórnios existem... ...e as mitocôndrias são,
como sabem, responsáveis pela respiração celular... ...tudo é um jogo...
...Carlos, é a sua vez. Você deve agir agora.
Sinto uma pressão forte na minha cabeça, quase
caio da banqueta. As têmporas doem, os olhos ardem, a luz cega os meus olhos. Levanto
prontamente atendendo a uma ordem. Está tudo escurecendo. Vazio. Mecanicamente pego
a mochila do chão, meto a mão nela e procuro o meu tesouro. Pesa gelada, a
minha mão. O que estou fazendo? Meu sangue corre desordenadamente pelo corpo.
̶
Carlos, quem permitiu a sua entrada no prédio com isto?
̶
Quem é a senhora de verdade? Fala logo.
Não sei dizer o
quanto me sinto ingênuo e vulnerável. A criança do sonho.
̶
Cuidado todos vocês. Alguém chame o segurança, ele está armado.
̶
Todo mundo calado. Pro chão, pro chão. Ninguém sai da sala, ninguém
entra. Isso é para o próprio bem de vocês.
Ouço
gritos de longe. Vejo aquela figura estranha de jaleco na frente da sala com os
braços estendidos e mãos abertas, ela movimenta os lábios, mas eu não entendo o
que ela diz e atiro nela. O carinha do meu lado treme de medo numa poça de
urina. Miro, atiro nele e o projétil segue numa rota incerta. Vou passando pelo
corredor entre as mesas e continuo atirando. Primeiro nos maiores, depois qualquer
um. Quente, um clarão rubro da luz do sol invade a sala. Suo frio apesar do ar
condicionado.
Pessoas
correm do lado de fora. Vasilhames e frascos de vidros estilhaçam no chão.
Bancadas caem com aqueles que tentam se esconder debaixo delas. Alguns
escorregam nessa poça viscosa também sob meus pés. Só escuto os estampidos da
arma. Sinto o cheiro de pólvora, o calor da arma quente. Meu corpo está gelado
como o inferno deve ser.
Olho
para uma janela fechada coberta por uma vidraça. Vejo a professora caída no
chão que tenta fingir que não me olha. Está sangrando. Por quê? Quem é esse
cara de pé na minha frente? De camiseta vermelha, os olhos esbugalhados com
cara de louco.
̶
Qual foi, maluco? Tá me encarando por que?
Ele
é bizarro, parece que eu o conheço e tem uma arma na mão. Não devem permitir
pessoas armadas entrarem numa faculdade. Parece perdido, mais perdido que eu. Ele
conduz o cano da arma na boca. Tenho muito medo. O duplo me encara revoltado.
Senti
o gosto de pólvora, o cano é quente e queima a mucosa da minha boca. Ouvi a explosão
de um tiro. Tudo está vazio. Eu me sinto caindo no fundo de algum lugar bem
escuro enquanto as pessoas correm por cima de mim. Meus olhos ainda estão
abertos. Quero chamar alguém, mas não consigo, a voz não sai.
Os
jornais noticiaram mais uma tragédia como aconteceu em Connecticut, Estados
Unidos e no Rio de Janeiro recentemente, desta vez ocorrida em um prédio da
Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mais um atentado desta vez praticado
por um homem de 24 anos, de nome Carlos Carvalho da Silva, aluno regular dessa
entidade pública matriculado na disciplina de Biologia. Atirou nos alunos e na
professora dentro de uma das salas do prédio com uma arma que pertencia ao pai.
Especula-se se o estudante foi vítima de um provável distúrbio mental momentâneo,
ou se estava sob efeito de drogas, pois se levantou exaltado gritando frases
desconexas antes de começar a atirar.
O
atirador chegou por volta das oito horas da manhã conforme atestam várias
testemunhas. Um motorista da rede interna de ônibus da UFRJ declarou que viu o
estudante descer e agradecê-lo como de outras vezes. Ninguém sabia que ele
portava uma arma. Por volta das nove horas ouviram-se tiros e houve muita
correria.
Todos assim que puderam correram para fora da sala, um laboratório.
Alguns escaparam ilesos, outros levaram outros no colo ou agarrados pelo ombro
que não pode correr. Todos comentam que não houve nenhum aviso do tiroteio até
o momento que ocorreu. Após o atendimento pelos bombeiros, chamados ao local
tão logo se ouviu os tiros, foi constatado que não houve vítimas. Os tiros
pareceram ter sido dados a esmo ou o atirador não mirou para matar. O prédio
foi lacrado pela polícia para verificar evidências e o trabalho de perícia.
Os pais foram chamados ao local logo após o
final do acontecimento com a identificação exata do agressor. A mãe entrou em
estado de choque, antes ela declarou que o filho era um bom rapaz. O pai do
estudante disse que a arma pertencia a ele e que foi roubada por Carlos há
alguns anos sem que ele soubesse. Ainda declarou: “Todos fomos vítimas desta
tragédia”. Alguns alunos, conhecidos e amigos declararam que ele sempre foi uma
pessoal cordial ou normal, ainda que calada na maior parte do tempo. Disseram que
não conseguiam acreditar no que aconteceu. Muitos não quiseram declarar nada. Por ironia, o único tiro fatal foi o que o estudante deu na própria boca. Ele se suicidou depois de ficar imóvel olhando para seu reflexo na vidraça de uma janela fechada, disse a professora.
2013
Fim
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