sábado, 17 de agosto de 2013

Breve

Sementes de um passado imperfeito
Inexoravelmente seguem a florescer
Deste passado vão e seu orgulho inútil
Enquanto vou vendo lírios a fenecerem
A história que se reinventa pelo avesso


Euterpe

A musa suave alivia e cura feridas,
em paz a vida floresce quando canta.
Chamei uma fada, que veio na brisa.
Ele não pediu muito, quase nada.
A pedra bruta se torna poesia breve,
o amor esquece os males das lutas.
Como esta lua nua e plácida reflete
esta alma dorida que ora flutua.

Porque breve é tudo nesta vida,
só mudam as vias do seu sonho.
No bem ponho meu desejo, querida.
Nesta lida que não terá incômodos.
Apenas quero para mim, cantá-las
vivazes, claras notas em arpejo.
A felicidade prevejo, o mel tornar
imagem no ar, palavras rimadas, ensejo
da arte, em enlevo, da alma, espelho.

Inventário de idéias

Na minha vida,
Uns fizeram-me bem.
Alguns fizeram bastante mal,
E outros, tiraram tudo.
Meu lar, meu respeito,
meu amor ou meu leito.
Quem quer que tenha sido eu,
Conquanto tenha sido meu.
Outros, que nada eu tivesse,
deram-me, para poder tirar.
Alguns quiseram meu corpo,
Uns quiseram o sexo
Outros só a razão.
Uns quiseram meu esforço,
Alguns um pedaço de pão,
Outros quiseram seu reflexo.
Uns fizeram-se amar,
Alguns tiveram-me nojo,
Outros tiveram quase nada.
Uns esforçaram-se em me achar,
Desses eu quis me perder.
Alguns acharam-me, em vão,
Então quiseram me vender.
Por outros deixei-me abraçar,
Para enfim conseguir morrer.
Na minha vida,
Uns exigiram a esmola,
Alguns puxaram a corda,
Outros quiseram o meu bem,
Depois quiseram minha alma.
Tiveram o mesmo corpo,
Dividimos a mesma jaula.
Foi-se a minha vida.
Na minha vida.


Sonetos temporões

Capitulação

Sabe, daria um abraço em você desses mornos
De saudade intensa, mas de carícias amenas.
Sinto ainda vívido o fulgor dos nossos sonhos
E a cumplicidade da origem comum, terrena.

Escutaria paciente cada um dos seus conselhos
Se pudesse estar novamente debaixo de seu olhar
A ponto de poder pegar na sua mão, seu cabelo
Sentir-te tão quente, o seu perfume sem par.

Tão quente quanto meus pensamentos.
Inebriado com tudo que sai da sua boca.
Sermos irmãos, namorados, neste tormento.

Um incesto de amor disfarçado,
Seguindo sofregamente instigados,
Abençoados enfim de qualquer pecado.

*

Ternura

Deus, dai-me outra vez a graça
De no seu regaço confortar-me.
Uma vez mais, lhe peço, que seja,
E ser um cativo de seu charme.

Olhar os seus olhos de amêndoas.
Uma paz que não é de marasmo,
Uma paixão, sem urgência a toa,
Um amor sem sequer nos falarmos.

Um afago morno que se perpetua
Que nada cobra ou espera de volta.
Carinho que é tão só a ternura.

Tão simples e que nem se denota,
Que não depende do tempo e dura.
Prende, sem corda, a quem se gosta.

*

O centro de você

Eu ouço bem quase tudo que você me diz.
Não se culpe, das realidades esta me apraz.
Falo sobre você também, não porque eu quis,
sou obrigado a você mas você quer demais.

Sei que você, igual a mim, quer ser feliz.
Mas não se pode ter tudo, não caia ainda mais,
seja você sempre, este diligente aprendiz.
Não sou eu a causar-lhe mal, não sofra demais.

A paixão levou-nos a ninguém, a lugar algum.
Não sou escravo de seus deleites e desmandos.
Sinto em mim a sua dor, é encargo nenhum

mas é só o que posso oferecer a você, tateando
pelo mesmo caminho que já percorri chorando.
E a culpa não é do amor. Deixe assim, por enquanto.

*

Auto psicografia

Basta! Quero acordar deste pesadelo medonho!
Ver quem se esconde por detrás de cada rosto
E não viver mais apenas desses dias tristonhos,
Apagado de dor, enuviados olhos, morto desgosto.

Deixei-o lá no horizonte sempre de olhos postos
no amanhã que não trouxe paz além de escolhos.
Eu quero renascer, reaver da vida seu gosto.
A alegria e o amor estão ali onde eu os ponho.

Expulso foi o vigia insano de seu excelso posto.
O rei caiu, tornou-se um homem ao perder o trono.
Ambos os mesmos seres porém cristais foscos.

Talvez eles voltem a luzir se renascido for o sonho.
Sem perseguição e sem seu deus irado e louco.
Cuidado, pedras atiradas são nódoas em seu rosto.

*

Mãe

Mãe que um dia me acolhestes dentro de ti
E de bom grado me oferecestes tuas entranhas
Para que eu, verbo tornasse carne em mim

Mãe de quem sempre fui e ainda sou tudo
Fui teu marido, teu pai, o filho que ora amas
E tu, minha mulher, a filha, a crença no futuro

Para ti isto nunca foi motivo de diferença
Não há mistérios que sejam parte do teu ser
Tu sempre soubestes, sem sabedoria pretensa
Sabiamente convives com o direito e o dever

Ah, mãe... quantas estradas já percorremos juntos
Quantas vezes nos deparamos de frente sorrindo
Mas ainda que seja este o nosso primeiro encontro
Tu és o amor e continuamos o caminho seguindo

*

Perdão

Por mais que me custará e por mais que me doa.
E tu sabes o porquê, eu vou tirar de mim, a capa
que me cobre da dor, mas o tempo urge e escoa.

Verte pelos meus dedos nus, dilacerados e escapa.
E deixarei o meu peito nu, onde cada ferida destoa
do que devia ser saúde, e ser perfeição à socapa.

Vês cada hematoma, e manchas roxas à mancheia?
Vês cada marca de pus, mal cicatrizada de carne?
Eu me desnudo diante de ti, não porque descreias!
Te mostro cada seqüela assim coberta de escárnio.

Porque eu quero provar, por a mais b, minha estrela.
Para mostrar que esta dor segue impune e infame.
A vergasta do carcereiro nada foi, ao horror de vê-la
ao ver-me. Peço-te o perdão, sacrifício que alivia e liberta

*
reviveR

Preparo-me maquinalmente para me engendrar
de novo e que se calem as vozes de espanto!
Não me importa mais agora se fará frio ou calor.

Majestosamente e impoluto visto só meu manto.
E se tu estiveres ainda comigo, não enlouqueças:
A gente nasce todos os dias num doce acalanto.

Quando meus olhos se abriram minha alma vazou
e o frio estalou, trincando tudo, meus frágeis ossos.
Imóvel, assisti incólume ao que por fim soçobrou,
arrastando numa vaga esmagando sonhos póstumos.

Quantas vezes ela me levará leve, pesado, inerte?
Quantas vezes da morte me esqueci, infante risonho...
Folhas secas sussurram ao ouvido o que me entristece.
Mas não há mais porque chorar e suave me encolho.

*

Sincronicidade louca

Dá-me teu sorriso para alegrar-me, abrir portas.
Não te apresses a dizer que eu não tenho lógica.
Ouça-me uma vez mais e perceba a brisa que sopra.

O cordão de prata verte meu peito feito fio d'água fria.
Eu já não posso mais andar pelos caminhos tortos.
Meus olhos ardem de poeira, essas lágrimas vadias.

Sossegues, isto foi construído para durar a vida toda.
As lágrimas que verti, mataram-me tamanha sede.
A gente nasce novo sempre, a cada dia que acorda.
E um dia também desistirão de ti, eu de perder-te.

O tempo perdeu sua lógica nesta sincronicidade
louca, canto aos quatro cantos o futuro, ao presente.
Mas nada está de fato marcado nem início destarte,
o certo pode estar errado, e até a verdade desmente.