Bastou que ela entrasse numa trilha pré estabelecida pelo movimento entre a gente que os caminhos criaram nexo. Assim chegou às portas da estação, levada pelo fluxo das gentes à escada rolante. Para baixo. Enquanto desceu apalpou a bolsa pesada, verificou o celular e arrumou os cabelos. Daí pelas roletas ao local de embarque do metrô foi tudo mecânico. O zunido do trem anunciou sua vinda pelo túnel escuro. Uma voz robótica sorridente avisava a direção do comboio de vagões. A estação do outro lado parecia um espelho de imagens não coordenadas. As portas abriram e as duas massas, uma que saía e outra que entrava, entraram em choque de forma bastante organizada. Houve encontrões esperados, pequenos desvios até ser jogada num banco de fibra de vidro bastante duro. Com licença. Ele resmungou algo grave que mal se entendia. Fica à vontade.
Carinha grosso, nem olhou pra mim. Parece que não existo. Garota fresca. Pediu licença como se esse banco fosse meu. Fechou um pouco as pernas para dar espaço à moça. Ela permaneceu imóvel e olhou fixo para frente. Pediu para segurar a bolsa de outra mulher. Sorrisos de senha do banco, decorados, eficientes. Etiqueta de camaradagem nos veículos públicos. Olhar pelo canto dos olhos. Assaltante não parece ser. Tarado só se fosse muito maluco nesse metrô lotado. Ele encostou o queixo no punho e olhou as pernas dela pelo reflexo do vidro negro dentro do túnel. Gostosinha ela. Tão esticada no banco que não dá pra ver o rosto direito. Ele olhou o relógio por impulso.
Tudo prático, costumes. Ninguém se conhece e a pouca distancia entre um e outro não é constrangimento aqui. O equilíbrio é mantido pela velocidade constante do trem elétrico, um lugar onde se agarrar, a pessoa ao lado, à frente, ou atrás, na falta de onde segurar. Alguns tinham tanta prática que praticavam surf com a mesma cara indiferente. Alguém muito parecido que se conhece. Como poderia tamanha coincidência, pegar o mesmo metrô? Uma democracia do tempo estabelecido pelo lugar público. Parece mais alto, mais baixo, será a mesma pessoa? Ou só a lembrança remota de alguém que pegou o mesmo metrô ontem neste horário? Dois conhecidos talvez mantivessem distância apenas pela comodidade de ficar no mesmo lugar, sem ter que gritar para estabelecer alguma conversa.
Quem saberá se alguém já se conhece? Talvez a grande maioria reconheça uns a outros pelo mesmo horário que pegavam aquele metrô. Mamãe, banho, jantar, Facebook, tem um cara estranho me encarando porra. Ele pigarreou. Mais um defeito pra lista, é incômodo. O que tem essa menina? Parece que tenho alguma doença contagiosa. Fresca, fresca pra cacete. Livro para ler... não sei. Ligar para alguém com certeza. A moto tava novinha, o cara que me vendeu foi um amigão. Vou dar um trato na máquina hoje a noite e dar umas voltas. Chamar os cara pra um chopinho. Mesmice. Vistos detrás do banco parecem um casal. Não estão abraçados mas podem estar num desentendimento normal antes de se desculparem. Os cabelos longos jogados nas costa. O corte dele fora de moda há muito tempo, o rapaz não sabia, quase todos cortavam o cabelo assim.
Ele se endireitou na cadeira na primeira parada e se certificou do lugar. O anúncio gravado avisou. Estação Carioca. Olhou os atrasados deslizarem entre pessoas estacadas no lugar para tentar saltar. Olhou bem o perfil dela. Garota bonita, tem cara de ser cheia de manias. Parece ser bonita. Ela fingia que dormiu. De que jeito vou puxar conversa e pedir o celular dela? Pô, o cara praticamente enfiou o nariz no meu rosto. Nariz bem feito enquanto deu pra ver. Só falta tentar puxar conversa. O velho vai chegar com aqueles papos de droga de novo, saco. Já estou até trabalhando. Ei, ela olhou pra mim. Ele estava me olhando. Tenho certeza. Ela o observava pelo reflexo da barra de metal cromado.
O vagão foi arrastado em alta velocidade pelos trilhos e mergulhou na escuridão do túnel. A luz fria do vagão. Dá licença. Todos se ignoravam por educação. Vou perguntar a direção dessa linha. É esse papo não cola. Os dois joelhos roçaram um no outro numa curva acentuada. As pessoas se inclinaram e voltaram à mesma posição com as mesmas caras. Um outro parecia feliz, com ares de quem sonha. Feliz por voltar para casa que seja.
Luz mortiça. Um frigorífico cheio de pessoas vivas embora algumas parecessem o contrário. Um estudante dormia de pé. Lá em cima faz um calor muito forte. Se fosse eu já teria tentado algo. Se ela estivesse afim já tinha dado algum sinal. Se quiser falar comigo vai precisar merecer isso. Em que estação que ela desce. Qualquer coisa tem tempo de sobra. Daqui até o final da linha tem tempo pra caramba.
A mulher pediu a bolsa disfarçando a pressa. Praticamente arrancou a bolsa das mãos da moça dizendo obrigada. Não tem de quê. Da bolsa aberta dela caiu uma agenda. Ambos se abaixaram e bateram a cabeça. Foi mal. Não foi nada, tudo bem. Ela pegou a agenda primeiro. Jogou dentro da bolsa sem conferir os objetos e puxou o zíper com raiva.
Próxima parada Estação Glória. O cara é lindo bem podia ser mais educado. Que narizinho empinado, rapaz. Minha mãe já teria me jogado no colo dele sem qualquer garantia. Tá tudo bem? Tá sim. Enrolou. Que mania essa ilusão de mudarmos a ordem dos acontecimentos. A vontade conta mas é preciso ser firme. Talvez você consiga mudar o final deste conto, tudo é possível.
Ela se virou para ele com um meio sorriso. Ele olhou meio triste e levantou. Com licença. Passou entre os joelhos da moça e das costas do assento da frente com facilidade. Ainda posso pedir o número dela. Não vale a pena. ...parada: Estação... do Machado. ...a sua direita. Não olhou para trás ao passar pelas lacunas do vagão. Pensou em tirar a camisa prevendo o calor lá em cima. Ela olhou os bancos e as pessoas de pé pelo vidro no lado de fora. Quem sabe da próxima vez. Quem sabe. A porta fechou. A mochila foi firme pelo meio dos outros, ela viu. A vida é tão chata. Todo dia é igual.
Ela se virou para ele com um meio sorriso. Ele olhou meio triste e levantou. Com licença. Passou entre os joelhos da moça e das costas do assento da frente com facilidade. Ainda posso pedir o número dela. Não vale a pena. ...parada: Estação... do Machado. ...a sua direita. Não olhou para trás ao passar pelas lacunas do vagão. Pensou em tirar a camisa prevendo o calor lá em cima. Ela olhou os bancos e as pessoas de pé pelo vidro no lado de fora. Quem sabe da próxima vez. Quem sabe. A porta fechou. A mochila foi firme pelo meio dos outros, ela viu. A vida é tão chata. Todo dia é igual.
Última parada. Quase todos estão de pé. Longa caminhada até sair do subterrâneo. Ela alcançou a superfície da noite. Respirou o ar quente, um mormaço salgado úmido. Assim você me assustou. Dinheiro. Levou a mão no bolso da calça justa e com alguma dificuldade achou uma moeda. Deu sem pensar. Quase não parou no lugar. Por nada. A vigília por vezes parece sonho. Se já fosse carnaval mas nem isso.
Fim
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