1.
Ouvi o interfone tocar mas permaneci imóvel, deitado na cama sem a menor vontade de acordar e me levantar. O interfone tocou novamente, um sinal mais longo. Esperei alguns minutos com a respiração suspensa esperando que a pessoa desistisse como tantas fizeram antes. Talvez fosse um vendedor qualquer ou fosse engano. Eu não estava esperando por ninguém naquela noite. Talvez não fosse nada. Fechei os olhos com força, cruzei as mãos sobre a cabeça displicentemente fingindo que dormia para mim mesmo.
A mão nervosa tocou o interfone várias vezes ininterruptamente desta vez. "Já vou, já vou!". Eu resolvi atender. Preferia estar dormindo. Reuni forças de algum lugar que não sabia que existia. Quando me vi de pé, tive a mesma sensação de quem encontra dinheiro esquecido por um longo tempo numa gaveta do móvel da sala.
Atendi a voz tensa que não me deixou terminar de dizer alô. Disse: "Alô, boa noite. Preciso falar com você, é rápido!". Tive vontade perguntar da mesma forma insolente, o porquê ( pelo qual eu deveria recebê-lo, sem qualquer identificação, sem conhecê-lo ). Perguntar quem era e dizer cuidadosamente que estava no telefone, no banho, enfim... muito ocupado "...ora bolas!". Que me dissesse ao menos o que era. Mas, abri. Já tinha atendido o interfone mesmo, era tarde demais para dizer não. Apertei o botão que abriu a portaria e fui até a porta da sala.
No caminho a campainha tocou bem devagar, primeiro um 'ding', e depois, eu diria de uma forma bem calculada, o 'dong'. Ao abrir a porta vi um homem jovem, desconhecido por completo. Mas tive aquela sensação estranha que formigava na minha fronte, de quem já viu alguém antes em algum lugar, alguma vez ou várias vezes e não sabe direito quem é. Um "déjà vu" sem graça enquanto desço as escadas do prédio dizendo o bom dia habitual e apertos de mão insossos. Fazendo o mesmo caminho habitual, maquinalmente, vendo sem notar. Algo que é quase parte fixa da rua porque está sempre lá quando passo.
Algo como um poste da rua, a árvore, os estudantes ruidosos e alegres indo para a escola. Algo que não se presta mais atenção porque sabe-se que sempre estará lá. Senti uma sensação desagradável de quando alguém desconhecido senta-se no mesmo banco querendo ocupar os dois lugares ao mesmo tempo ou entabular uma conversa nonsense e acalorada sobre o tempo, a política, o futebol.
Mas ali éramos dois estranhos. Eu disse: "Boa noite, pois não?" Ele parecia, pelo contrário, me conhecer bastante bem. Neste momento eu quase juraria que o conhecia também, mas não... não me lembrava de nada.
- Se esqueceu de mim?
- ...
- Não se lembra mais de mim? "Estava tão patente assim, na minha cara?"
- Não, desculpe... Quem é você?
Ele sorriu como um fauno. Ou um gato, se gatos sorrissem. E faunos não existem mais. Deu um passo apressado na minha direção. Estaquei e olhei bem em seus olhos por alguns segundos, logo desviou o olhar do meu para outro ponto do meu rosto. Deu mais dois passos decididos e me esbofeteou com a palma da mão. Perdi o equilíbrio, fiquei estupefato mais que ferido. Ele foi bastante cuidadoso ao bater-me para que fosse apenas um assalto. E então o que era aquilo? Tentei fechar a porta instintivamente "O que é isso?!" Não houve tempo de me sentir ofendido e ter uma reação de defesa. Não fiz nem uma coisa, nem outra. Estava surpreso e chocado. Desta vez ele gargalhou, com a voz anasalada e roufenha, como quem ri afetando naturalidade. Segurou a porta com a mão esquerda, para impedir em definitivo que eu fechasse a porta quando aquele transe passasse. Tudo parecia sobrenatural e eu pouco reagia. "É um sonho, é isso!" Perdi minha segurança habitual. “Acho que estou enlouquecendo.” Mas eu via, perdido em conjecturações desesperadas, o ódio nos seu olhar. Aqueles olhos injetados de fumaça ( ele cheirava a fumo barato ) estavam plenos de ódio. Ouvi o estampido de uma arma, um estalo seco, como outro tapa. "Por isso não me olhou nos olhos." Desta forma eu era apenas algo desprovido da condição humana, menos que uma barata que se pisa com raiva.
Olhei para o meu próprio peito, numa fração de segundos. Aquilo parecia um filme. Eu, o ator e o espectador de mim mesmo. Vi um pequeno buraco, com as bordas queimadas, na camisa. Do lado esquerdo, onde se pensa que o coração esteja. Senti o cheiro da pólvora e de queimado. Não senti dor, as coisas me aconteciam de forma vertiginosa. Não senti dor, não senti nada. Olhei seu rosto novamente e me detive na boca desta vez, contorcida de dor, brilhando com a saliva que escorria. Ele continuava balbuciando palavras o tempo todo, mastigando-as entre os dentes. Compreendi que me matar lhe dava imenso prazer, era uma vingança. Vasculhei a mente procurando desesperadamente todas as razões possíveis para o meu assassinato. Quem era aquele homem, se era sua última cartada, uma demência temporária.
Desta vez ele atirou bem próximo do meio do meu tórax. Deu outro tiro na barriga e outros na cabeça até descarregar a arma. Antes de cair, vi que ele olhou para a minha sala como se já conhecesse tudo que se encontrava ali. O eco no corredor da arma caindo no chão me trouxe de volta porque eu já começava a perder os sentidos, a cabeça pulsava. Caí sem sequer fechar os olhos, só era difícil respirar. No chão vi o bico de seus sapatos bem engraxados, a menos de um palmo do meu nariz, apontados pra mim. "Eu devia ter me lembrado".
Quando tudo acabou, eu disse:
- Não, obrigado.
Sorri polidamente antes de falar "Volte outro dia..." com um sorriso amarelo. Fechei a porta com muita dificuldade e voltei para o meu quarto com passos trôpegos de sono. Olhei para a cama com os lençóis revoltos e me joguei como um saco de batatas. Fechei os olhos e desta vez dormi. Estava muito cansado.
2.
Outro dia, ouvi o interfone tocar. Mas permaneci imóvel, deitado na cama. Perguntei mentalmente que horas eram. Sem a menor vontade de levantar. Mas o interfone tocou novamente, um sinal mais longo, sinal que não ia desistir assim tão fácil. Esperei alguns segundos, com a respiração suspensa. Esperei que a pessoa desistisse como tantas fizeram antes. Ouvi o burburinho da vida do lado de fora. O carro com auto-falantes na rua de trás berrando ritmadamente que vendia praticamente tudo a um real. O sotaque nordestino do forró numa luta encarniçada com o rap que repetia dezenas de vezes 'egüinha pocotó'. “Eu não sei o que é pior: quando falam tudo com clareza ou quando usam metáforas infantis”. Os gritos ensandecidos da vizinha do bloco da frente prevenindo uma criança mais afoita de cair da bicicleta. Os caminhoneiros berrando ordens para o acostamento dos mostrengos que grunhiam ferozes. Um bebê chorava bem longe, de pirraça.
A mão nervosa tocou o interfone várias vezes. Cobri a cabeça com o lençol e disse baixinho:
- Vá embora! Por favor, vá embora!
Preferia voltar a dormir mas me lembrei de algo indefinido, “um sonho?”, e me levantei automaticamente. Desta vez disposto a dizer que não poderia atender a ninguém. "Não quero nada. Por favor, vá embora". Peguei o interfone com raiva.
- Um momento!
Apertei o botão e nem perguntei quem era. Era indiferente, o incômodo seria o mesmo. Antes de abrir a porta reprimi a minha raiva para tomar aquele ar indiferente de quem diz palavras educadas quando se esquiva de alguém impertinente. "Isto são horas?!" Abri a porta e ela já estava lá, postada ereta.
- Bom dia!
- Bom dia. O que a senhora deseja, por favor?
A mulher estranha curvou a cabeça levemente para a esquerda e me fitou com os olhos abertos e brilhantes. Sorriu cheia de uma alegria genuína. Era uma pessoa de meia idade, "...um pouco mais que eu", calculei. Havia um quê de insanidade, tamanha espontaneidade de alguém que não se conhece, pela primeira vez. Seu sorriso me desarmou. "Será alguém da "Bíblia"?". Antes que eu esboçasse qualquer reação seus lábios se entreabriram bem lentos. Era a face de uma criança. Seus dentes brancos, perfilados, sorriram também, de ponta a ponta.
- Estou aqui para ajudar você. Me deixe ajudar você!
- ?
- Posso abraçar você? “Mas que conversa maluca... Isso não está acontencendo, definitivamente!”
Fiz força para me lembrar dela porque eu decerto tinha de conhecê-la. De onde, quando, por quê? Ela estava tão emocionada, eu não sabia o que pensar. Ultimamente minha vida parecia um disco de vinil arranhado.
- Irmão, me deixe abraçar você!
Ela mais que pediu, ela suplicou com uma voz embargada. Deixei os braços pendidos sobre o corpo e assenti com a cabeça sem sair do lugar. Se quisesse me vender algo depois, eu até compraria. Fingiria que adotaria sua nova religião de salvação para afinal me despedir. "Eu quero dormir"
Eu me deixei ser abraçado. Fiquei aconchegado naquele abraço fraterno. Correspondi ao abraço. "Será um parente desconhecido?" Suas mãos friccionavam as minhas costas e dava alguns tapinhas carinhosos. Ainda envolto naqueles braços apertados, que deixaram de ser estranhos senti um beijo úmido, colado na face direita.
Uma dor aguda no flanco esquerdo. Algo perfurou a camisa, rasgou a minha pele, invadiu a carne adentro. Era frio, muito frio. A mão moveu-se ágil para a minha barriga sem encontrar obstáculos. Senti a camisa empapada por um líqüido viscoso e quente. O líqüido esfriava com rapidez, era sangue. Ela me apertava mais e falava, falava, com voz de quem conta estórias para crianças. Eu não entendia nada, a dor era tamanha que eu não atinava, parecia um pesadelo daqueles que a gente não se lembra de ter dormido. O meu corpo desinflou como um balão, a minha alma parecia vazar por aquela fenda. Jamais senti dor igual.
Fechei os olhos e me deixei cair no chão, escorrendo pelo corpo dela ainda colado ao meu. Caí amparado por aqueles braços que não me largavam. No chão senti um enorme alívio. Estava tudo tão bom, tão calmo. Já não sentia mais frio. Eu voltara para o útero da minha mãe. Aquela escuridão me deixou completamente relaxado.
Por fim, falei:
- Não quero nada, obrigado. Volte outro dia.
Fechei a porta de forma mecânica, dando duas voltas com a chave. Soltei o chaveiro dependurado na fechadura num ruído escandaloso diante do silêncio que se assomou. Voltei para o quarto. Não reparei em nada até me ver deitado na minha cama. "Preciso ir à praia e tomar um pouco de sol". Virei de lado e dormi. Estava tão cansado.
Fim
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