quarta-feira, 19 de junho de 2013

A sonhadora

Hoje de manhã chego mais cedo na escola e o lugar está vazio. Entro na minha classe completamente vazia e me sento na carteira da frente. Debruço a cabeça cheio de preguiça. Quando a levanto, constato que a sala ainda está vazia. Para onde foi todo mundo? A tia de matemática entra na sala, carregada de livros, do diário da turma e não faz a chamada. õe os livros na mesa e vira-se para o quadro verde sem olhar para mim.
̶  Bom dia, tia.
Não me responde e escreve no quadro: “Não se preocupe, nada importa”. Vira-se para frente, entretanto tem um olhar vazio.
 ̶  Tia, estou aqui.                                                                                
Então ela olha nos meus olhos como se não me conhecesse. Parece outra pessoa.
 ̶  Tia, sou eu, o Carlinhos. Bom dia.
Ela permanece calada.
̶  Pra onde foi todo mundo?
̶  O quê está acontecendo?
Ela fica bem na minha frente e tira a pele do rosto como se fosse feita de massinha de modelar, vira-se e coloca aquela máscara mole em cima da mesa dela e dá as costas para o quadro. De frente para mim seu rosto é o mesmo. Vejo uma boneca na mesa dela.
 ̶  Tem um brinquedo de menina na sua mesa.
 ̶  Não tem nada ali, Carlos.          
 ̶  Tia, você não gosta mais de mim?
Ela retira aquela pele mole de cima do rosto e a deixa na minha mesinha. Mira nos meus olhos e diz:  ̶             ̶  É melhor que saia da frente do espelho.
 ̶  A senhora está me assustando.
          Desvio meus olhar das órbitas abertas da casca para o rosto da professora.
 ̶  Agora acorda e cresce.
Vi que seus olhos estavam verdes e brilhantes, mudavam de cor e continuavam cada vez mais verdes. Havia uma luminosidade branda em volta dos globos coloridos. Tenho medo e choro de verdade. Quero gritar, a voz não sai, meu corpo não responde à minha vontade. Ela continua me encarando com aqueles olhos verdes iridescentes, indecentes.
   ̶  Acorda, filho. Vai se atrasar.
Sinto uma mão acariciando as minhas costas e reconheço o som da voz da minha mãe. Ou será da professora? Saio de um lugar profundo. Reconheço o meu quarto e o rosto dela. Afundo no colchão, mais relaxado. Abro os olhos completamente e me sinto confuso.
               ̶  Foi um pesadelo? Você está quente, está suando frio. Está tremendo, Carlinhos. Será que está resfriado? Vou pegar um termômetro agora.
   ̶    Estou bem mãe, bom dia.
   ̶  Você estava falando coisas confusas. Estava muito agitado. Tentei conversar com você enquanto falava. Vou buscar um remédio.
   ̶   Não, mãe. Vou tomar banho e me vestir pra ir à faculdade.
Não quero remédio nenhum, sua atenção me oprime. Logo você que parecia querer me conhecer mais a fundo. Vá atender ao seu marido, sua autômata perdida. Por que você não se ajuda? Por que se tornou tão subserviente assim, mãe?
             ̶   Depois vá tomar café com seu pai. As roupas limpas estão sobre a cadeira.
Você até fala, age e se comporta igual a ele, virou um clone dele. Só falta me dar banho. Parece que sou uma continuação do meu pai, porém ele é um semideus e sei que sou só carne e osso. Eu me levanto vou até o banheiro e escuto a voz grave dele, lá da cozinha.
  ̶   Atrasado de novo, neném? Vem tomar seu café para sair.
Entro no banheiro, abro o chuveiro. Não quero tomar banho. Molho os cabelos na pia para me pentear e os prendo com um elástico. Visto uma camiseta branca, pego minha mochila de dentro do armário trancado e vou finalmente tomar o café da manhã. Logo vejo da porta uma folha de jornal aberta, adivinho que na parte dos crimes mais hediondos e o sujeito escondido atrás dela. Ele vive de pijama desde que conseguiu afastamento da polícia militar por doença. Acho que pensa que sou um de seus soldados ou pior, outro delinqüente. Foi o jeito que me tratou quando descobriu que eu fumava maconha. Uma besteira que ele transformou num caso de polícia. Só para me salvar. Salvar de quem? Dele?
    ̶  Bom dia, pai.
   ̶   Tá atrasado de novo. Toma isso logo e sai.
   ̶   Já vou.
   ̶   Quando vai cortar suas longas madeixas e parecer um homem de verdade?
No dia em que eu cortar a sua língua, seu babaca. Você não tem sequer a coragem de abaixar esse jornal e olhar na minha cara. Silêncio. Minha mãe só lava as louças, calada, de costas para nós dois. Ela tomou seu café mais cedo para que ele ocupasse o seu território, a mesa, todos os cantos da casa. Quem é neutro no fundo apóia o mais forte por mais que queira ser justo.
   ̶   Devia largar essa estória de estudo e ir trabalhar. Mas para ficar por mais que um ano no mesmo emprego. No último não ficou nem seis meses. Vive dando despesas e dar aulas particulares só pagam os livros onde você vive enterrado nos últimos meses. Quando não são os livros é o computador. Você não paga a conta de luz.             
   ̶   Faço o que posso.
Cara invasivo. Tanto mais serei evasivo. Uma luz se acende no meu cérebro, o sonho. Quem vive detrás da máscara que ele usa? Quantas máscaras serão? Não consigo me lembrar de mais nada. Porra, aquilo, aquela sensação onírica mexe comigo.
   ̶  Não gosto do seu tom, rapazinho. O problema é com você. Não vê que eu quero te ajudar?
Não, obrigado. Sua hostilidade já me ajudou bastante até aqui. É melhor ficar calado. Quanto mais eu falo mais ele usa minhas palavras contra mim. Para fazer nada é melhor fazer nada na faculdade. Minha mãe resolve se manifestar.
              ̶   Ele faz bem, deve estudar. Seja alguém na vida. Agora falta pouco, só mais dois anos e meio. Vai logo meu filho; para não perder o ônibus.
  ̶   Então não me meto mais. Vê se não perde o caminho até o ponto, mocinha.
  ̶   Deixa o menino quieto. Quer outra torrada?                              
  ̶ Chega dessa porcaria sem gosto, sem manteiga, sem nada. Você acostumou o seu filho muito mal. Sempre defende esse inútil. Vai logo tomar o seu ônibus pro fundão e ser “alguém” na vida.
   ̶   Até logo, pai. Até logo, mãe.
Sujeito parvo, metido a esperto. Não sabe sequer achar o que perde. Bato a porta atrás de mim. Filho de um “maluco de guerra” e de uma “vendida” no que poderia dar. Não quero ser o mediador dos dois, afinal de contas. O que posso ser eu? Admito que numa coisa ele tem razão: o conhecimento não me trouxe nenhuma felicidade.                     
Tenho lembranças obscuras da minha infância e outras tão claras. Meu pai me pegando no colo aos três anos. Meu pai me dizendo de coisas que não devo contar a ninguém. Meu pai bebendo muito no meu aniversário de seis anos, com bandeiras do Flamengo, e pagando mico para os convidados. Meu pai me levando no puteiro pela primeira vez aos treze anos. Meu pai comemorando no dia que entrei no exército. Meu pai descobrindo maconha na minha gaveta. Meu pai me enchendo de porrada. Meu pai batendo na minha mãe por minha causa. Meu pai reclamando que perdeu “alguma coisa” que estava em cima do guarda-roupa. Meu pai chorando e pedindo perdão quando resolvi “sair da festa mais cedo”, depois que “acordei”. Meu pai é um grande idiota.
Lembro agora do sonho estranho. Estranho... no fundo nunca sei quando sonho ou quando é realidade. Não quero mais saber o que é real. No fim vai dar tudo na mesma. Só fica uma vaga lembrança do passado. O ônibus, 696, Méier, Maracanã, “Fundão”, passou antes do 665. A porta se abre. Bom dia, obrigado, maquineta, cartão, roleta. Ao menos não me dou mais o trabalho de fazer perguntas há um ano e meio. Desço na estação perto do hospital e pego o ônibus azul. Bom dia? Hoje parece ser um daqueles dias bem ruins.     
  ̶   Bom dia, valeu piloto.
 Ônibus cheio, uns calados, dormindo de pé, outros gritam, conversando com o ônibus inteiro. Vagou um lugar.
  ̶  Quer que eu segure a sua bolsa?
  ̶  Obrigada.
 As pessoas, de todas idades, se comprimem. Um senhor de terno olha perdido pela janela do ônibus antes dele partir. O mar. O mar sujo por mais que tentem limpar. As garças pousam lá iguais às modelos de passarela.
  ̶  Senta aqui, senhora. Eu já vou saltar. A sua bolsa, moça.
  ̶   Obrigada, meu filho.
  ̶   Não há de quê.
Será que ficarei assim, tão paciente, se envelhecer?
   As curvas me dão vontade de vomitar. As pessoas a minha volta falam, falam, falam. Pela janela é tudo verde, verde igual às folhas que a minha mãe põe no meu prato e me obriga a comer. Os urubus são pretos, pretos como o meu pequeno tesouro na mochila. Apalpo o fundo dela embaixo do meu braço direito. Tudo certo, ainda está aqui. “Não vi nada não pai”. Ele nunca soube que cresci porque não quer me ver. Os calouros da Matemática discutem equações e problemas. Outros lêem ou dormem com os olhos abertos. As pessoas esbarram, pedem desculpa. Eu estudo a vida, mas deveria fazer Filosofia. Deveria estar dormindo.                                                           
Salto do ônibus azul e esse calor infernal atinge o meu corpo. É janeiro, véspera do carnaval, o auge do verão. Vejo na frente dos meus olhos dezenas de pessoas mortas. Dezenas, não. Centenas, milhares, um monte de gente morrendo de fome na África ou ali noutro estado brasileiro. Perto daqui, pessoas vagando pela rua e dormindo nas calçadas. Parecem zumbis do Craque. Mortos na guerra entre o Irã e o Iraque, mortos em atentados fundamentalistas suicidas. Franco-atiradores em escolas e cinemas. Mulheres violentadas por tarados em ônibus e jogadas na estrada como latas de refrigerante na Índia. O aquecimento global que aumenta a cada ano. O mundo que não acabou naquela sexta de 2012. Este planeta é uma cesta de lixo, não devia ser e, no entanto sempre foi assim desde quando me lembro. Queria deixar de existir.
Vivemos na Idade Mídia, a Dona da Verdade. Tudo o que ela mostra parece ter mais valor que a própria realidade. Acho que perdemos a noção de valor, não sabemos mais de coisas que jamais devem acontecer e outras que são tão simples e bonitas. Por mais que tentem dirigir a minha atenção “apenas informando os fatos” nunca alcançarão mostrar de fato as verdades mais horrendas, nem as mentiras mais belas, do jeito que são. O que acontece é que cada vez que ligo a tv, ouço o rádio, leio um jornal, uma revista, um livro, vejo um filme, ouço uma múscia ou vasculho o poço sem fundo da Internet visto mais um disfarce. Sou enganado pensando que apenas vejo, quando sou visto. Esse limite tão embaçado entre realidade e ficção. Discutir isso comigo mesmo é caminho certo para a insanidade e essa brincadeira vicia. Às vezes acho que existe alguma conspiração do universo, parece que o fantasma da velhice chegando mais cedo.
Dezenas de borboletas amarelas e laranjas sobrevoam o caminho. São atírias ou monarcas? Na saída verei a pequena coruja que pisca um olho só. Lembro-me de alguém dizendo com a boca cheia de dentes: “A mãe natureza é justa e pródiga”. Só se for mãe tipo Medeia. A natureza não pode ser humanizada, ela não tem ética, não tem uma escala de valores. Os mais fracos sempre serão a comida dos mais fortes que por sua vez serão o repasto de outros maiores e seus filhotes. Essa é a pirâmide da morte. Nenhum ser humano nasce bonzinho. Herança dos nossos ancestrais pré-históricos é o instinto da sobrevivência, a adrenalina para correr ou matar. As várias faces da morte, a sonhadora. Tornamo-nos bons por conveniência social. Ninguém quer morrer de graça. Essa é a natureza que temos.
 Assim que o homem deixou de ser nômade para buscar comida e passou a ser sedentário, criou as primeiras civilizações. Quando teve o bastante para comer, o primeiro que fez foi cobiçar o que outro tinha, suas riquezas, mais terras e escravos. Decidiram invadir, atacar, matar aos montes para se apossar do que é alheio. Dar valor ao que havia de escasso, para quê decidiu-se que o ouro era uma medida de valor das coisas? Escassez ou dificuldade de conseguir não me parece uma boa desculpa. Houve época que valorizavam conchas do mar.                                                                                                     
Há poucos setenta anos um tal Dr. alemão decidia quem ia trabalhar nos campos e quem estava fodido. Se na idade média os médicos precisavam roubar peças nos cemitérios para dissecação, ele usava gente viva como cobaia. Abria suas cabeças, seus corpos, ainda vivos para observar o funcionamento do organismo humano. A história atesta que foi quando a medicina mais avançou. Se o Dr. Fausto se assustou quando viu um camundongo vermelho saindo da boca de uma feiticeira enquanto dançavam, aquele médico maluco introduzia ratos vivos nos úteros das mulheres, pela vagina. Para que uns privilegiados vivam, outros devem ser mortos.                                                                       
 Patricídios, matricídios, parricídios, latrocínios, assassinatos, carnificinas, prostituição dos próprios filhos, pedofilia, estupros, tarados, intolerâncias religiosas, racismo, preconceitos, minorias perseguidas. Loucura. Será que Deus sabe que eles existem? Será que Deus sabe que eu existo? Porque não sei se Deus existe. Muito mudou e no fundo tudo continuará o mesmo, mais uma vez, enquanto houver possibilidade de uma terceira guerra mundial. Amanhã é sábado.
 Cruzo o pátio, a caminho da faculdade, no meio da multidão que invade o mesmo portão. Saio da turba e passo os dedos num cão sujo deitado na grama entre os trailers, dou um pedaço do meu lanche. Um gato vem ressabiado por baixo de um banco atraído pelo cheiro do presunto. Eles já me conhecem pela comida que comem. Eu e meu complexo de Branca de Neve. Ocupo novamente o meu lugar na turba andante e vejo árvores, pássaros, insetos, antes de entrar no prédio, parecem ser os únicos que me compreendem neste lugar. Alguém bate no meu ombro esquerdo. Nesta selva fui batizado para ser uma árvore de espécie diferente no meio de outras e de um habitat repleto de diversos espécimes sem um par.
  ̶   E aí, véio?
  ̶   Tudo na boa. Aula no laboratório hoje.
  ̶   Tô sabendo. Tu veio na aula de ontem?
  ̶  Vim.
  ̶   Pô aí, deixa o teu caderno comigo, maluco.
  ̶   Sem problema. A gente se vê no final dessa aula, valeu?
  ̶   Demorou.  
O corredor, os seguranças, a equipe de limpeza, alunos, professores, funcionários, portas, cadeiras, um corredor que não tem fim. Chego ao fundo e passo pela porta envidraçada. A mochila pesa nas costas. A aula já tinha começado, a professora manda que os alunos se separem em duplas e escolham um microscópio. Um cara forte que não fala muito sobrou do meu lado. Nós dois perscrutamos, um de cada vez, as células mortas de um tecido emoldurada nas lâminas de vidro. Tudo pesa e nada faz sentido. Minha mochila ainda nas costas. Procuro nela um caderno, um lápis para desenhar aquelas células e a deixo no colo. Duas meninas discutem baixinho sobre uma festa na noite de ontem.
A professora faz uma preleção sobre o material da aula e eu não consigo prestar atenção. Prefiro ouvir o que as meninas falam.
              ̶  Ela ainda me fica com o cara. Pô, fala sério. Caraca, muito sequelada. Devia era estar muito doida e agora faz carinha de santa. Ih, deu mal. A mulher tá olhando pra gente agora. Vem cá, é isso mesmo?
A boca rosa não pára quieta. Por Deus, alguém faça meu pensamento parar. 
  ̶  Observem que o núcleo e as diversas organelas estão destacadas pelo corante. São células de um tecido epitelial. Quero que reproduzam o que vêem da forma mais idêntica... ...os unicórnios existem... ...e as mitocôndrias são, como sabem, responsáveis pela respiração celular... ...tudo é um jogo... ...Carlos, é a sua vez. Você deve agir agora.
 Sinto uma pressão forte na minha cabeça, quase caio da banqueta. As têmporas doem, os olhos ardem, a luz cega os meus olhos. Levanto prontamente atendendo a uma ordem. Está tudo escurecendo. Vazio. Mecanicamente pego a mochila do chão, meto a mão nela e procuro o meu tesouro. Pesa gelada, a minha mão. O que estou fazendo? Meu sangue corre desordenadamente pelo corpo.
  ̶  Carlos, quem permitiu a sua entrada no prédio com isto?
  ̶  Quem é a senhora de verdade? Fala logo.
Não sei dizer o quanto me sinto ingênuo e vulnerável. A criança do sonho.
  ̶   Cuidado todos vocês. Alguém chame o segurança, ele está armado.
  ̶  Todo mundo calado. Pro chão, pro chão. Ninguém sai da sala, ninguém entra. Isso é para o próprio bem de vocês.
Ouço gritos de longe. Vejo aquela figura estranha de jaleco na frente da sala com os braços estendidos e mãos abertas, ela movimenta os lábios, mas eu não entendo o que ela diz e atiro nela. O carinha do meu lado treme de medo numa poça de urina. Miro, atiro nele e o projétil segue numa rota incerta. Vou passando pelo corredor entre as mesas e continuo atirando. Primeiro nos maiores, depois qualquer um. Quente, um clarão rubro da luz do sol invade a sala. Suo frio apesar do ar condicionado.
Pessoas correm do lado de fora. Vasilhames e frascos de vidros estilhaçam no chão. Bancadas caem com aqueles que tentam se esconder debaixo delas. Alguns escorregam nessa poça viscosa também sob meus pés. Só escuto os estampidos da arma. Sinto o cheiro de pólvora, o calor da arma quente. Meu corpo está gelado como o inferno deve ser.
Olho para uma janela fechada coberta por uma vidraça. Vejo a professora caída no chão que tenta fingir que não me olha. Está sangrando. Por quê? Quem é esse cara de pé na minha frente? De camiseta vermelha, os olhos esbugalhados com cara de louco.
  ̶   Qual foi, maluco? Tá me encarando por que?
Ele é bizarro, parece que eu o conheço e tem uma arma na mão. Não devem permitir pessoas armadas entrarem numa faculdade. Parece perdido, mais perdido que eu. Ele conduz o cano da arma na boca. Tenho muito medo. O duplo me encara revoltado.
Senti o gosto de pólvora, o cano é quente e queima a mucosa da minha boca. Ouvi a explosão de um tiro. Tudo está vazio. Eu me sinto caindo no fundo de algum lugar bem escuro enquanto as pessoas correm por cima de mim. Meus olhos ainda estão abertos. Quero chamar alguém, mas não consigo, a voz não sai.
Os jornais noticiaram mais uma tragédia como aconteceu em Connecticut, Estados Unidos e no Rio de Janeiro recentemente, desta vez ocorrida em um prédio da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mais um atentado desta vez praticado por um homem de 24 anos, de nome Carlos Carvalho da Silva, aluno regular dessa entidade pública matriculado na disciplina de Biologia. Atirou nos alunos e na professora dentro de uma das salas do prédio com uma arma que pertencia ao pai. Especula-se se o estudante foi vítima de um provável distúrbio mental momentâneo, ou se estava sob efeito de drogas, pois se levantou exaltado gritando frases desconexas antes de começar a atirar.
O atirador chegou por volta das oito horas da manhã conforme atestam várias testemunhas. Um motorista da rede interna de ônibus da UFRJ declarou que viu o estudante descer e agradecê-lo como de outras vezes. Ninguém sabia que ele portava uma arma. Por volta das nove horas ouviram-se tiros e houve muita correria.
Todos assim que puderam correram para fora da sala, um laboratório. Alguns escaparam ilesos, outros levaram outros no colo ou agarrados pelo ombro que não pode correr. Todos comentam que não houve nenhum aviso do tiroteio até o momento que ocorreu. Após o atendimento pelos bombeiros, chamados ao local tão logo se ouviu os tiros, foi constatado que não houve vítimas. Os tiros pareceram ter sido dados a esmo ou o atirador não mirou para matar. O prédio foi lacrado pela polícia para verificar evidências e o trabalho de perícia.
            Os pais foram chamados ao local logo após o final do acontecimento com a identificação exata do agressor. A mãe entrou em estado de choque, antes ela declarou que o filho era um bom rapaz. O pai do estudante disse que a arma pertencia a ele e que foi roubada por Carlos há alguns anos sem que ele soubesse. Ainda declarou: “Todos fomos vítimas desta tragédia”. Alguns alunos, conhecidos e amigos declararam que ele sempre foi uma pessoal cordial ou normal, ainda que calada na maior parte do tempo. Disseram que não conseguiam acreditar no que aconteceu. Muitos não quiseram declarar nada.              
            Por ironia, o único tiro fatal foi o que o estudante deu na própria boca. Ele se suicidou depois de ficar imóvel olhando para seu reflexo na vidraça de uma janela fechada, disse a professora.

2013


Fim

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