Pelo pão e a moeda que me deu de bom grado
vou contar tuas glórias jovem pastor.
Basta de pena por esses olhos vazados
e os trapos que cobrem esse corpo degradado.
Perante os deuses sou um mensageiro que os canta,
um grande rei, grande como teu pai. Ouve:
Ela ainda te acolherá e consentirá ser levada.
Antes terás de volta todas as terras do teu reino.
Este cajado será uma espada e as ovelhas, o seu povo.
Daqui até as muralhas da cidade de Tróia.
Não te alegres ainda, agora só o mar é tua fronteira
logo farás fronteira das lágrimas dos teus e a dor.
Mas esses dias de pasmaceira, balidos tristes
e a fumaça que te aquece logo serão esquecidos
pela ostentação e o incenso da casa do teu pai.
Terás vestes púrpuras cobrindo teu corpo jovem,
de músculos esculpidos pelas rochas desta escarpa.
Mas encontrarás o amor e a tua ruína no mesmo lugar:
no teu coração.
Aceitarás o presente de quem não se pode confiar,
embora eu também a cante por sua beleza,
inebriado pela promessa de um futuro feliz.
Esse futuro distante cobrará o que não ouso te dizer.
Se te agrado ouso pedir que fuja das contendas dos grandes
e da sedução da beleza. Peça a sabedoria
ou serás obrigado a trocar a fidelidade dos teus por quem não possuis.
Mas é inútil, eu sei. Desmentir seu coração sonhador
é o mesmo que ouvir pedras que cantam.
Por fim com tua flecha farás o impossível e tu mesmo darás cabo da tua sina
enquanto as mulheres gritam e gemem a espera do cárcere.
*
Helena
A prata polida devolve meus olhos
de azuis que prenunciam tempestades.
Não diz de mim o que todos já não saibam.
Entretanto não me responde quem sou.
Essa nuvem revolta e loura emoldurando meu rosto
atrai quem não quero.
Este é o reflexo dos nichos onde sou guardada e adorada.
Uma divindade de carne, vazia como uma estátua oca.
Você sabe o que sei, sabe o que sinto?
Pode adivinhar o quanto as lacunas do meu corpo doem?
Nem minha irmã pressente o rumor que me ensurdece
entre as paredes onde sou uma serva consentida.
Elas só servem para esconder o meu grito.
Sei que um dia ele virá me buscar, um dia ele vem
e a despeito dos mortos vou segui-lo aonde for,
farta de ser nada.
Deuses não podem nada se não conseguem ser.
Ironia da minha vida: da fina casca do ovo de Leda e Zeus
adentrei a casa do meu senhor, amante e tirano.
Vivo desgraçada como o dia encoberto pela noite.
Até lá descansarei o meu olhar no mar.
Ele me fala que dia chegará
em que novamente o fitarei com o coração opresso pela dor,
dividida entre mim e minha outra metade.
Que o destino siga o seu curso ainda que
eu venha a lamentar minha sorte de novo.
*
Aquiles
Filho, como ousou pedir por sua ruína?
Quando me pediu um caminho, ofereci dois
na esperança que da fama quisesse a vida
e despedacei meu coração com sua glória.
As águas sagradas onde banhei seu pequeno corpo
são poucas diante do choro que derramei seguindo seus passos.
Agora meus olhos estão secos diante do seu corpo
chorado pelos seus.
Lançou-se na batalha derradeira pela morte do seu amado Pátroclo
cujo amor pueril era tornar-se você, vestido da sua armadura e lança.
Foi a perda de um pequeno inocente jogado nas rochas.
Que Deus permitiu que saisse do meu útero e da sua casa?
Seus feitos serão narrados por novos mundos
atiçando a minha dor eterna que me atravessa de lado a lado.
Maldito! Pelo dor que me abre uma ferida que jamais há de fechar.
Não serei mais sua mãe, agora Hades é seu pai.
Hermes já chega apressado, expedido por Palas, para levá-lo de mim.
Ninguém se lamenta por Tétis.
Talvez a culpa seja minha.
Os pais adestram seus filhos para ocuparem seus lugares
e poucos conseguem fugir dessa sina sem lutas.
Cada onda batendo na areia dessa cidade devastada
despedaça meu coração com suas honras.
Elas serão testemunha do meu ódio e do meu amor.
Não posso sequer culpar o arqueiro cujo arco te alcançou o pé.
Quem te matou foi seu ponto fraco, sua pretensão.
De que me importa que te adorem se só os deuses são imortais.
Semideuses têm data para deixar a existência.
Você é a ruína de um mundo que desmorona
e outro herói ocupará seu lugar.
Mas o meu coração de mãe continuará vazio e árido
como esta terra após seu apogeu.
*
Heitor (à nova ordem)
Abri os olhos cheios de terra.
Eu vejo, por todos os lados,
O chão, o céu desabando.
Alguém me leva pelos pés atados.
Não tenho dor, não sinto nada,
Vou sendo arrastado,
Esfolado vivo.
Os braços sacodem a esmo
E as pedras se chocam contra
a minha cabeça.
O corpo sua encharcado
De suor e terra vermelha
Uma presa de guerra.
Sei que devia correr
Sei que devia gritar
Se eu soubesse eu faria
Procuro deixar-me imóvel
Mas não consigo.
Quero ver a frente
E só vejo suas largas costas
A proteger-me enquanto
Eu me desfaço pelo caminho.
Você chama o meu nome
Mas não diz mais nada
Vai acabando comigo
Enquanto me ajuda.
Você nunca me destruirá,
Tampouco saberá
Quem sou.
Eu sou uma esfinge –
- que fala muito.
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