Quando me vi na superfície do vidro, estaquei na calçada surpreso. E vi. Vi aquele rosto fitando
o meu. Senti medo. Um medo sem explicação, o mal do pânico de ver-se encurralado, sem saída.
Mais que medo, senti que nunca mais seria igual. É muito ruim pensar que hoje possa ser o último
dia de alguma coisa, mas algo em mim morreu naquele dia. Mas me lembrei que teria de acordar
cedo no outro dia para fazer uma prova e antegozei o fracasso que seria. Não pude deixar de
sentir um certo prazer de aceitar a derrota e até sentir-me livre de um compromisso que me
arrependia de ter contraído.
O sol batia nas minhas costas, refletia na capa dos livros e devolvia a minha imagem tesa,
sobreposta àquele rosto tão convidativo e familiar. Mas não era eu? O colorido desordenado da
moldura a volta dela perdia interesse. No que seu rosto devolvia sua luz como um astro sem luz
própria. O que eu tinha mesmo de fazer? Agora parecia que havia uma sincronia sinistra entre a
imagem e eu. Meus olhos lacrimejaram com a luz e esbocei um sorriso tímido, rezando para que
minhas espinhas não distorcessem tanto meu rosto mental. Ao que levantei a mão para fingir que
coçava os olhos e ‘ele’ fez o mesmo. Será que me via? Aquela imagem animada, estampada na
superfície fria parecia adivinhar caprichosamente meus gesto para provar sua onisciência.
Pensei que estava ficando louco e de súbito o reflexo de um raio de sol resvalou de um carro
passando célere atrás de mim e separou nossos olhares. Nos segundos que fiquei cego pensei
que quando o reflexo ocupasse novamente meu campo visual a figura não aparecesse mais. Parei
de respirar e senti raiva da minha covardia. Onde estava quem se achava capaz de fazer o que
quisesse por querer e por desafiar as convenções sociais? Às favas o que pensam de mim! Mas
aquela pessoa tão semelhante a mim ressurgiu do clarão mais idêntica e me olhava com olhos de
muda indagação.
Estranho... mas pensei em quando apanhei pela primeira vez do meu pai. Quis gritar que era
covardia, que eu era um menino de 8 anos e ele muito maior do que eu. Não, queria gritar que o
amava e que não podia suportar o peso da mão dele. Não da mão dele. Quis dizer que tinha razão
em querer me bater, o que era melhor do que quando me ignorava ao me ver chorando pelos
cantos. E agora... Eu sabia que iría odiá-lo pra sempre. “Seu filho da puta!” E a mão dele estalou
na minha boca. A mesma mão que me protegia dos garotos da rua. Acho que foi a primeira vez
que soube que chorar era proibido, porque ele batia mais e mais me mandando calar a boca. Dizia
que era coisa de ‘mulherzinha’ e que eu merecia apanhar. “Não abre a sua boca pra mim seu
pirralho mimado!” Quis perguntar porque me batia com tanto ódio. Quando parou suado e com a
respiração sôfrega eu vi aqueles olhos cheio de culpa, dizendo que nunca mais faria isto. Aquele
escroto! Eu me calei inchado de um orgulho mórbido. Calei que ia dizer que devolveria depois e ele
nem deixou que eu falasse. Por que deixava na mesa o que era proibido pra mim? Mas eu ia
devolver, eu ia. Quis me abraçar e eu gritei descontrolado que me batesse mais, que me matasse
de uma vez. A minha mãe interveio e me defendeu. Pediu que ele tivesse paciência e que já
bastava. Ele preferiu discutir com ela a continuar me batendo. Só me lembro vagamente dos gritos
dos dois no quarto abafado. E do quanto chorei de noite, escondido debaixo do travesseiro, com
pena e vergonha de mim mesmo. Foi a última vez que me lembro de ter chorado.
Que viagem mais sem nexo. Os olhos do reflexo me trouxeram à realidade. Estava com os
olhos molhados. E vi aqueles olhos de pergunta, amendoados, ligados por uma linha invisível aos
meus. E depois pareciam ter raiva por serem observados. Será que eu fiz algo errado? Cocei uma
espinha no queixo para fingir naturalidade. Pensei como era bom estar ali parado sentindo o
mormaço do sol e a cor laranja tingindo tudo. O barulho dos carros, as pessoas que vez por outra
me davam um esbarrão num esforço de continuarem seu caminho pela calçada. Pessoas paravam
do meu lado, olhando pra dentro. Será que viam o mesmo que eu? Eu fingia ignorar quando me
olhavam nos olhos. Por fim alguns entravam no estabelecimento, deixando um ar gelado escapar
numa lufada de vento, ou então seguiam adiante e me deixavam lá, absorto, contemplando aquele
ser esdrúxulo e interessante.
De súbito, como que por artifícios mágicos, a beleza daquele ser figurou-se única no meu
limitado mundo. Mais que isso, um sol da minha galáxia, distinguido-a em todo o universo. Ah,
Deus! Quanta divagação desvirtuada. Essa conversa de louco que travava comigo e meu íntimo,
para decifrar o todo do ser que me via e agora sorria pra mim, buscando cumplicidade. Tem de ser
ela, o reflexo da minha alma. Como queria ter uma máquina fotográfica aqui comigo agora. Ela
então quebrou a mágica da sincronia e alisou seus cabelos fartos. A displicência de seu gesto
tornava algo tão banal em um evento mundial. Juro que ouvi a torcida comemorando a vitória do
meu time. Era ela que merecia a luz de todos os refletores, o lugar mais alto do podium de
chegada. Depois resvalou o olhar da contracapa dos livros pra mim, parecia que olhava através do
meu corpo, embasbacado, parado ali sem defesas. Por fim sorriu como se me conhecesse
também. Meus pulmões ganharam ar revigorados. Senti ímpetos de falar com ela, perguntar se
sentia o mesmo que eu. Ela me via, ela pode me ver também! Quando mordeu seus lábios em
muda indagação, olhando para os lados, percebi que eu não era tão invisível quanto pensava. Um
rapaz apareceu detrás de suas costas e lhe disse algo no ouvido e ela riu com tanta naturalidade
que eu senti vontade de rir também. Apontou para mim, mas o rapaz alcançou um livro na vitrine.
Sem pensar me virei para as portas de vidro, decidido a entrar. Desta vez o rapaz apontou o dedo
pra mim, dizendo algo que me parecia usual. Ela sorriu e me olhou de soslaio. Eu sorri em
resposta.
Depois continuei a andar pelas ruas com a certeza que o mundo estava mudado. O centro do
meu mundo sempre foi eu mesmo e deste centro eu chegaria aonde mais quisesse ir. Conheceria
e iría interagir com outras pessoas-mundo. Senti a alegria de ser livre e apressei o passo para não
perder o meu ônibus que já chegava ao ponto.
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