“Rex e Regina, venham e salvem a porteira, salvem-na de
madrugada,
salvem-na acocorada no trono do pombal, com a cabeça sob
os panos, no alto do seu mundo.”
Lídia Jorge (in “Marido”)
Maria
é três hora e ele não chegou. Rogai por nós mãe santíssima. Ele vai voltar.
Vai? Vai, mãe. Deve de estar com outra mulher. Quantas outra? Volta assim mesmo
meu bem. Volta que pago treze vela na igreja pras almas aflita. Não nos deixeis
cair em tentação mas livrai-nos de todo mal amém. O cansaço venceu o medo.
Creio em Deus pai todo poderoso. Ele me trai eu sei mas entra logo por aquela
porta caindo e diz Vivinha faz um café pra mim que eu vou trabalhar logo.
Santificado seja o teu nome. Vou fazer meu Deus. Eu faço. Faz ele voltar.
Volta. Rogai por nós que recorremos a vós. Mãe santíssima. Mãe ele não volta. A
porta da rua bateu. Ela ficou imóvel. O homem entrou no quarto e resfolegou:
Vivinha tu tá acordada? Chegou na cama e sacudiu a mulher pelos ombros. Ficou a
olhando e então rasgou a camisola dela. Meteu os dedo no meio das minhas
pernas. Entrou dentro de mim me prometendo fazer um filho. O filho que me
prometeu no dia do casamento. Sim. Deus disse: Multiplicai-vos uns aos outros.
Soa quente e diz palavras que eu não quero mais lembrar. Apesar do ventilador o
quarto é quente e abafado. Ambos suam copiosamente. Isso é pecado Jesus. Mal
acordei já vou fazer seu café. Eva tentou tirar o peso do homem de cima dela.
Elias chorou entre as pernas dela que nem um cão de rua na chuva. Tossiu feito
um tuberculoso cheirando a bebida e fumo. Pediu perdão. Ainda me beijou com um
fedor de cachaça. Um cheiro que não agüentava mais. Mordeu meus peito, chorou,
tremeu e por fim me largou. Virou e dormiu. À primeira hora do dia ela levantou
e foi para a cozinha. Caminhou numa trilha mínima com a prática de quem se move
em espaço exíguo. A casa e os móveis não lhe deixavam mais espaço. Eva ocupa
pouco espaço. Ela não gasta nem isso a mais. Alinhou a mesa com a toalha xadrez
verde sujo. Suja de encardida porque gasta no tanque todas as gotas de suor que
valem uma noite bem dormida. No dia que ele trouxe a máquina gritou tá novinha
mulher! Não durou muito. Quebrou e ninguém veio consertar. Lava meu uniforme e
fica quietinha me esperando em casa. Sagrado coração eu confio e espero em vós.
Voltou pra cama do lado dele roncando e encolheu-se para dormir um pouco mais.
Já acordou estrupício? Hein, tá me dando a volta? Vou te chamar de Mortinha a
partir de agora. Credo homem. Seu café já tá pronto tá na mesa. Tenho de sair
antes do almoço levanta Vivinha. Já vou. Deus ajuda a quem cedo madruga. Da
última vez ficou com a cara toda roxa e o santo homem de Deus mandou que fosse
à polícia. Não meu homem não. Me mudar pra onde? Mulher direita não deixa a sua
casa. O que Deus uniu o homem não separa. Mesa bonita mulher. É isso que tu faz
o dia inteiro dentro de casa. Fica pensando nessas bobages. É pra bordar
paninho. Pão, café, leite, biscoito, manteiga, tudo de uma vez. Um desperdício.
Vai ficar me olhando. Não vai tomar teu café? Já tomei agora toma o teu. Não
faz cara de coitada não. Quem não te conhece que te compre. Vai. Com você me
olhando feito alma penada não dá. Fica se arrastando pela casa sem fazer
barulho. E ainda com esse diabo desse terço. Parece uma corrente no seu pulso.
Não te quero mais lá não. Só te ensinam bestera. Lugar de mulher direita é
dentro de casa e só. Jesus disse que nem só de pão vive o homem mas do que sai
da boca de Deus. Tomou teu remédio? Tomei. O remédio amortece a dor, o remédio
resolve. Eva se recusou a ser levada ao hospital. Não quero ficar trancada no
hospício. Não sou maluca. Mas me deram essas pílula. Com o tempo ela se
acostumou a viver dormindo acordada. Tudo que pedires a Deus será dado e até o
que não pedir. Uma mulher te ligou ontem. A Bete? Falou mastigando um naco de
pão besuntado de margarina. Não essa é nova. Perguntou se sou a tua mãe. Ora
que besteira. Você não tem que falar nada com elas. Não te conhece. Essa uma me
disse que me viu na venda ontem. Por que tu tá me encarando com esse olho de
peixe morto? Nada. Fala, despeja tudo duma vez. Não é nada não. Tu tá me
deixando nervoso. Lembra daquela vez? Lá vem com isso de novo. Te levei no
posto. Não se fala mais nisso. Te deram remédio. Eu sei. É Ele que te livrará
do laço do caçador e da peste perniciosa. Tenho medo que traga doença ruim de
novo pra casa. Vamo parar. Tu tá delirando. Tá maluca mesmo. Traz um remédio
pra dor. Tô com uma dor na moleira. Minha cabeça tá pesando. Hoje só saio
depois do almoço. Ligou a televisão, pegou o copo de água e tomou o comprimido.
Arruma meu uniforme. Tá esperando o quê. Parece uma morta-viva. Tá excomungada
mulher do inferno. Sai de perto de mim Vivinha. Parece que tá me agourando. Bem
aventurado os aflitos porque eles serão consolados. Olhou os quadros na parede
e foi para o quarto. Aqueles dados pela mãe dela logo depois que se casou com
Elias. Alisou as calças pretas e a camisa de condutor antes de pô-las no cabide
e levar para o quarto. Escolheu as meias e a cueca. Colocou os sapatos já
engraxados ao pé da cama. Sentou-se. Mexeu os lábios manuseando o rosário na
ladainha que falava sem pensar. Pelo sinal da santa cruz... Creio em Deus pai
Todo poderoso... em nome do pai... Graças do Mistério da encarnação, descei
sobre nossas almas. Amém. Foi até a janela da sala e olhou a rua. As pessoas do
lugar passavam. Alguns fingiam ignorá-la. Porém algumas mulheres faziam questão
de perguntar se estava bem, se queria alguma coisa. Disse que não. Um mendigo
diferente caído na calçada. Crianças correm de uma alegria intensa. Jesus foi o
único homem que nunca fez uma mulher sofrer porque nunca teve nenhuma. Só a
mãe. Mas não foi culpa dele. Madalena teve sorte se foi mulher da vida e não
foi tomada pelo redentor pra ser a mulher dele. Pensar isso é pecado. O homem
berrou da sala: já vou almoçar traz a comida. Pra que por mesa? Pra que flor na
mesa? Parece a minha mãe. Aquela sim era uma santa mulher. Ele não me deixa
sair de casa. Ele não me deixa fazer nada. Traz o prato feito aqui mesmo no
sofá. Sondou os grãos de arroz, de feijão, a carne amarelada de gordura, as
rodelas de tomate, as folhas murchas de alface. Elias enfiou a mão no bolso e
tirou duas notas amarrotadas. Uma vermelha e outra lilás. Jogou na mesinha do
abajur. Vai no mercado de tarde. Ela pegou as notas desamassou-as e guardou os
15 reais na gaveta da mesinha. Jesus disse acreditarás no seu Deus sobre todas
as coisas. Traz meu copo de cerveja agora. Não bebe assim cedo. Não tô gostando
dessa conversa não. Tá me chamando de viciado? Só penso na sua vida homem. De
que jeito vou viver se você me deixar Elias. Santa Maria mãe de Deus rogai por
nós pecadores. O homem levantou andava de um lado para o outro na sala mínima.
Deu um soco na parede. Acertou o quadro da direita. Elias vê a mão
ensangüentada sem acreditar. Seu olhar de espanto cresceu quando viu a imagem
na moldura. Perdoa senhor. Me perdoa foi sem pensar. Olha o que cê fez sua
doida. Isso traz azar. Jesus disse está escrito não tentarás ao teu Deus. Olha
o que tu me causa. Não mexe nos caco. Foi ao banheiro pegou álcool, algodão,
esparadrapo. Bem aventurado os deserdados porque eles herdarão o reino dos
céus. Eva tu me deixa de cabeça virada. Só queria que você bebesse menos. De
novo com isso. Repete. Repete o que você disse. Me chamou de viciado. O prato
de louça branca caiu no chão se espatifando em dezenas de cacos. Não nos
deixeis cair no chão. Agarrou o braço dela. O rosário arrebentou. As contas
caem no chão como lágrimas. Tu não me serve nem pra dar filho. Tua mãe tua irmã
não te quer. Quando ela vem te visitar traz aquela penca de filho pra te botar
inveja. Tua barriga é seca. Oh Maria concebida sem pecado rogai por nós que
recorremos a vós. Calma cê vai passar mal. Me larga Elias. No terceiro mistério
doloroso contemplamos a coroação de espinhos de Jesus. Me larga, você tá doido
homem? Não foi pra mim dizer isso desculpa Elias. Olha a vizinhança. Tão
ouvindo tudo. Esse suplício de si tão doloroso, foi acompanhado de outros, como
bofetadas, escarros, sarcasmos e blasfêmias, segundo atestam os evangelistas. O
sangue dos dois se misturou. Só o cansaço o fez parar. Foi para o sofá colocou
a cabeça baixa entre as mãos e soluçou. Você só me faz fazer besteira Vivinha.
A gente parece a minha mãe e o meu pai. A culpa é tua. É tua sim mulher. Ela se
levantou com lentidão para doer menos. Você tá acabando com a minha vida,
Vivinha. Você quer me matar. Ele vai acabar me matando. Tu vai me matar
Vivinha. Tô sentindo falta de ar. Vou chamar o Samu. Deixa chamar os vizinhos.
Perdoai pai eles não sabem o que fazem. Não. Vem aqui. Não me deixa sozinho.
Eva se levantou do chão e sentou no sofá. Fez o homem deitar no seu colo.
Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. As
dívidas, pai, as dívidas. Seus olhos áridos contemplaram o corpo magro do seu
homem. Mulher não sei o que tá acontecendo. Me ajuda Eva. Elias alisou o braço
coberto de equimoses roxas da mulher. Suou frio. Meu peito tá apertado. Meu
peito tá doendo. Me larga que vou buscar ajuda. Me salva. Não sai daqui não.
Ela olhou para o teto descascado e comprimiu os lábios. Viu uma teia de aranhas
que surgem por mais que se limpe casa. Desceu o olhar pela parede e viu os
quadros desbotados pela luz do sol. Mãe e filho um lado do outro. Jesus, Maria,
José olhai por nós. Jesus mesmo despedaçado sorria. Vou chamar os vizinhos me
larga homem. Ele enrolou a língua e não parava de implorar. Não me deixa aqui
sozinho. Não me deixa aqui não. João pediu aos soldados romanos para que
devolvessem o corpo de Jesus depois da crucifixão. As três Marias choraram a
morte do filho de Deus e limparam o cadáver do salvador com suas lágrimas. O
homem deu um tranco violento. Saiu um fio de sangue do canto da boca. Nasceu da
virgem Maria, foi traído por Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e
sepultado. Ressuscitou no terceiro dia. Subiu aos céus e está sentado à direita
de Deus pai de onde há de vir a julgar os vivos e os mortos. Ela olhou o rosto
desfigurado do marido. Pai nosso que estais no céu. Agora e na hora de nossa
morte. Olhou os olhos da virgem no quadro. Olhos tão diferentes dos dela. A
virgem na sua doçura parecia chorar. A duas mulheres se indagavam num diálogo
mudo o que se faz para não sofrer. Não tinha dor, não sentia nada. O corpo dele
enfim ficou inerte. Viu os olhos dele esbugalhados e opacos. Cordeiro de Deus
que tirais os pecados do mundo tende piedade de nós. Eva tem os olhos secos.
Fim
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