“Um homem de estatura alta, estrutura
magérrima, vestindo uma túnica cor de musgo arrastava os panos de suas vestes
pelo pó do chão com um tanto de desespero. Caminhava por entre a gente, furtivo
como um inseto, mas se destacava por uma luminosidade natural vinda do rosto
dele. “Mestre meu, amado, o tempo urge e você não se decide. Aonde mais meu
povo pode chegar, homem que se diz o nosso libertador? Quanto mais a humilhação
da escravidão seremos obrigados a engolir. Este não foi o rei que busquei. Seu
reino que não é daqui não me interessa.”
Olhava cada homem bêbado escarrapachado
no chão, cada jovem prostituta escondida na escuridão dos cantos da rua, cada
criança suja brincando no chão, mulheres passando, falando ruidosas carregadas
de jarras de água ou de óleo, cada grupo de homem aos berros numa discussão sem
sentido, sem sentir absolutamente nada. Nada fugia do seu olhar aquilino. “Cada palmo de chão e suas palavras
quase me venceram. Porém a minha missão de libertação jovem nazareno
prosseguirá até a guerra da libertação.”
“Você soube se cercar bem, escolheu todos, um a um dos nossos 12 conforme os seus planos. Você também quis a mim. Porque só eu posso abrir seus olhos sobre quem é nosso inimigo e que a espada precisa vencer, que o dinheiro é preciso e não apenas suas baboseiras da libertação pelo amor. Só eu posso organizar as esmolas que recebemos do povo e de nobres de forma a alcançarmos nossa meta. Mas a sua meta não parecer mais ser a minha, mestre adorado.”
“Você soube se cercar bem, escolheu todos, um a um dos nossos 12 conforme os seus planos. Você também quis a mim. Porque só eu posso abrir seus olhos sobre quem é nosso inimigo e que a espada precisa vencer, que o dinheiro é preciso e não apenas suas baboseiras da libertação pelo amor. Só eu posso organizar as esmolas que recebemos do povo e de nobres de forma a alcançarmos nossa meta. Mas a sua meta não parecer mais ser a minha, mestre adorado.”
“Onde achar a quem busco? Onde se
esconde esta criatura maldita?” O cheiro nauseabundo não o importava, a lama,
as mulheres maduras que o importunavam com seus olhares cheios de promessas de
prazer, os homens bêbados que gritavam entre si e a quem passasse. “Mas eu te
sigo. Eu te obedeço, não posso me trair. Seu olhar bovino sobre mim me queima.
E quanto o anseio quando enfim me tocas no ombro e quase acredito em você.”
“Hoje eu te
mostrarei que só o sangue pagará todo sangue derramado. Que só a liberdade do
nosso povo será o legado dos nossos. Precisamos de um rei guerreiro, não de
mais um profeta. Por isso vago por esses
miseráveis, sem dinheiro, sem honra, à procura de quem me sirva. Sofro porque
não consigo sentir seque pena desses perdidos. Eles recebem o que buscaram e
não podem reclamar. Parecem bastante satisfeitos. Só a espada nos libertará da
espada, Mestre. Porém não serei quem vai mostrá-lo, às vezes seu olhar dá
mostras que me conhece por inteiro e no entanto continua a beijar-me o rosto, a
me tratar como o melhor de todos. Cada de um de nós sentimos assim na sua
presença.”
“Uma mulher me
pede comida. Já sabe que sou do seu clã do misericordioso.”
- Não é a mim que deve pedir o
pão para saciar sua fome, mulher, mas aos seus.
- Os meus a muito se foram.
Ninguém me quis. Dá-me pão por caridade.
- Não tenho. Peça a quem tem.
- Dê-me então com que comprar.
O
homem empurrou-a firmemente sem feri-la. Mulheres só poderão me afastar do meu
destino. A bondade também. Gente tola. Pede como se a necessidade fosse razão
para conseguir o que necessitam. Preciso
me apressar, logo ele passará por aqui, amante dos desvalidos que é. Aqui ele
vai saber enfim porque veio e o que deve fazer para nos libertar.
Lá está. Um velho que pode passar
por um venerável ancião à procura de ajuda.
- Homem bêbado, pode me
compreender?
- Tem dinheiro para me dar?
- Ouve o som das moedas que nesta
bolsa.
- O que quer de mim, senhor? O
que quer de mim?
- Que abra os olhos de um homem.
Deixa que te fale no ouvido.
- Sim, eu te escuto.
- Convença-o que precisamos da
espada.
- Não, eu peço senhor. A este não
posso causar mal.
- Nenhum mal causará. Ao
contrário: fará com que tenhamos o que mais nos falta, a liberdade.
- Se é assim. Você é um deles,
não é?
- Banhe-se, use essas vestes e
veja bem como deve agir.
- Farei e faça agora as moedas
cantarem na minha mão.
- Antes na sua que na minha.
Preciso dar tempo ao tempo.
- Perdoa-me Iscariostes e não
fira este homem velho com sua faca. Preciso também do meu pão de cada dia.
“Velho tolo,
já sabe o que fazer. Pode ser bastante útil. É meu último recurso antes de
procurar o senado. Antes de uma derradeira reunião. O Mestre insinua que
precisa partir para sempre. Será que nos deixará e irá pregar em outras terras
traindo o povo dele? Como pode alguém pensar e sentir de uma forma e ser outra
pessoa? Não sei mais se posso confiar nele. Não sei mais se devo deixar meu
coração continuar a me guiar.”
Esse
velho não o enganará. Conheço meu mestre mais que ele próprio se conhece.
Preciso de mais alguém. Aqui, a necessidade fez todos iguais, sujos, que não
merecem nenhuma credibilidade. Ora se não vejo a mulher que me pediu comida. A
miséria ainda não conseguiu conspurcar este coração de ódio e de velhacaria.
"Ainda é jovem, pode vir bem a calhar.”
"Ainda é jovem, pode vir bem a calhar.”
- Mulher venha aqui.
- Senhor quer que eu te sirva?
- Não. Teus favores não me servem
mais nada há muito tempo.
- Então como me quer, Senhor?
- Que tentes o escolhido do povo.
Será a filha de quem te indicar. Lavará os pés do homem santo, secarás com teu
cabelo e pedirás a última dádiva. Ele mostra-se sensível a quem o ama sem nada
pedir. Não que precise de alguma. Vista-se, ele já vem com seus homens e não
posso despeitar suspeitas. Se não agir convincente não passarás sequer do
colérico Pedro nem daquela sentinela juvenil que o ama egoisticamente mais que
a si. Preciso ainda ter cuidado daquela maldita mulher que se acha digna por ter abandonado as vestes ricas e lavados os pés do meu senhor. Ela parece reconhecer o íntimo de quem queira com facilidade.
A notícia da passagem do homem
que dizia que o amor mudaria o mundo chamou a muitos. Tantas estórias de
milagres e curas, contadas e repisadas, corriam rápido e aqueles queriam apenas que
os salvassem. Quando ele veio ao povo todos quiseram adorá-lo, queriam
pedir o que não mais pediam a Deus.
- Senhor me cure, se quiser;
- Senhor devolve-me a luz do dia.
Ele passava pairando, cercado por
seus homens. A uns tocava e os
despachava, a outros bastava olhar:
- Vá e não peque mais. Está
livre. Agradeça a Deus no seu íntimo. Logo não mais me verás.
Um estrondo
ouviu-se no fundo da multidão. Armações do homem ardiloso. Um corredor se abriu e um homem bem vestido
para um judeu arrastando uma mulher jovem por esposa chegou aos pés do homem.
- Senhor, se quer me ajudar,
traga-nos a libertação dos romanos. Cura nosso povo da escravidão. Somos
humilhados desde o Egito. Eu te peço por Deus, levante o gládio e nos lidere
até a vitória.
Os outros, apesar da presença
iluminada, repetiam essas últimas palavras como palavras de ordem, a turba
segue o que lhe apetece.
Os olhos, as mãos, a voz do homem
pouco se importou com aquele casal. Ao que se lançaram nos pés, a mulher
arrastado pelo braço forte do homem.
Pedro
e seu irmão tentaram empurrá-los dali e ele o impediu com firmeza. A mulher
lançou-se a seus pés.
- Atende-nos pelo Deus de Israel
ou nos deixe a ser imolados.
- Seu pedido já foi ouvido por
mim. O que mais quer?
- Homem que me parecia o profeta
libertador muito me decepcionou. Não é nada do que dizem. As tábuas da lei te
desmentirão, arauto da mentira.
- Homem de pouco fé. Logo será libertado, você e seu comparsa.
O velho torceu o rosto e se afastou temeroso.
- Homem de pouco fé. Logo será libertado, você e seu comparsa.
O velho torceu o rosto e se afastou temeroso.
- Você já recebeu de mim o que
devia embora seu coração continue envenenado. Cuide por onde vai e aonde quer chegar.
Dito isto, olhou para a mulher e se
afastou. Parou, virou-se e disse:
- Não mais nos veremos mais aqui.
Vá, já cumpristes o teu papel. Eu o amo, filho de Deus, meu irmão e a quem te
enviou.
Os doze e o
escolhido passaram. Distribuíram suas graças, suas bendições e suas palavras. O
homem sabia que seu pesar maior estava próximo, não havia tempo a desperdiçar.
Quando
o homem travestido de nobre e a mulher de má vida viram-se sozinhos estavam
felizes porque em seus bolsos a prata pesava.
- Não abriu a sua boca, pouco me
ajudou.
- Fiz tudo que pude. Rabi parecia
nos conhecer. Agora sinto um remorso que me atormenta a alma.
- O que recebeu deve ser meu.
- Não. Não me condene à morte por
fome e miséria.
- Dá-me o que recebeu e segue a
vender teu corpo. Você não vale nada mesmo.
O velho
esbofeteou o rosto da mulher e tomou cada moeda que ela recebeu e o que mais tivesse
valor.
- Não, piedade. Quero ter uma
vida melhor, quero viver dignamente, não me tire o que recebi por direito.
- Dá-me as moedas e cala.
Agradeça-me por isto porque posso te matar aqui mesmo.
Depois dos negócios resolvidos o
homem se foi alegre com o lucro, a mulher espojaça-se na lamas.
Por fim parou,
imobilizou e a noite chegou. Era frio e ela não mais se mexeu.
Seus olhos quase sem brilho
abarcaram as estrelas no céu negro. Por fim seu ventre pareceu vibrar. Essa mulher, de rosto tão
jovem já tinha idade e por várias vezes esteve por perder todo seu ventre. Mas o desespero fazia com ela o empurrasse com a
mão para dentro da cavidade da barriga. Doía, o sangramento cheirava mal mas o pensamento
piorava tudo ainda mais. Dormiu. Quando acordou teve certeza que seu organismo estava
curados.
O
velho tratante bebeu vinho a noite inteira. Não vomitou. A falar verdade já não
tinha a tez esverdeada. Os homens estavam assustando com aquela mudança física
tão patente e que ele não parecia perceber. Temiam que agora fosse um golem e
se afastavam dele. Alguns tramavam a morte dele por medo das entidades do mal.
A mulher pensava enlevada: “Um homem pode agora me aceitar, talvez possa dar a ele uma descendência.” Agora parecia ter o ventre renovado. Sem sangue sujo, sem pressão para fugir do corpo.
A mulher pensava enlevada: “Um homem pode agora me aceitar, talvez possa dar a ele uma descendência.” Agora parecia ter o ventre renovado. Sem sangue sujo, sem pressão para fugir do corpo.
Judas
caminhava mudo ao lado direito do Mestre, Pedro do lado direito. João caminhava
atrás a olhá-lo com admiração contínua. A mão do homem ainda jovem agarrou o
ombro do contador e disse-lhe no ouvido:
- Bom trabalho. Temos pouco tempo
para falar. Devo adiantar que faremos logo uma ceia em que preciso me despedir
de vocês. Precisarei de você novamente.
- Diga, Mestre, eu cumprirei.
- Na hora certa, amado.
E beijou-o no
rosto.
Fim
2013
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