Naquela tarde, as ruas do centro da cidade estavam intransitáveis. Havia grande quantidade de pessoas circulando sob a chuva fina. A mulher não se importou com a água suja atirada pelos pneus do carro, em disparada. Ela fora imprudente em tentar atravessar a rua antes de certificar-se que o sinal estava realmente fechado. Sua cabeça dava voltas, tentando achar a solução de um problema que parecia esgotado. Sentiu-se imensamente cansada e envelhecida, apesar da pouca idade. Não chegara ainda aos vinte e cinco anos de idade. Reparou em uma criança encolhida na porta de uma loja, se abrigando da neblina. Aproximou-se do garoto, passou-lhe as mãos mecanicamente sobre a carapinha já ensopada de água. Um menino, por volta de seus 10 anos. Lembrou-se da filha. Ele levantou o rosto com a cara amuada, parecia doente. Teve um sentimento de ternura próprio de sua natureza de mulher.
- Vai para a sua casa, meu filho. Você tem casa? – A mulher se abaixou e olhou-o nos olhos. Tentou sorrir mas o menino ficou assustado com aquele gesto e encarou-a com um olhar vazio, de um adulto encurralado.
- Eu não tenho casa, não, dona. Eu moro na rua. – E abaixou a cabeça nos joelhos de novo, sem se importar com a presença dela.
- Mas você vai ficar doente assim, desse jeito! Você já comeu hoje? – E olhou no relógio de pulso por instinto. Já passava do meio-dia.
- Já comi pão... Não tenho fome. O que que a senhora quer? Eu não quero ir pro abrigo, não, dona! Eles batem na gente lá!– E se levantou bruscamente.
- Espera, garoto! Sou só alguém que se preocupa com você. Você podia ser meu filho. – Afagou o cabelo dele mas seu problema voltou à cabeça de chofre e ela sentiu-se tonta. Também não tinha comido nada naquele dia, só estava com o café e pão no estômago àquela hora do dia. - Você quer vir comigo, hein? Posso te dar algo para comer e algumas roupas secas, até as suas secarem. Vem comigo, vem. – Falou sem pensar e tentou pegar na mão dele. Mas o menino ofereceu resistência.
- Não quero não, dona! Me deixa aqui! Eles vão me prender se a senhora ficar chamando a atenção deles! – De repente seus olhos
brilharam de ressentimento e ela se constrangeu. Pareceu sentir-se humilhado.
- Obrigado, dona. Precisa não. A senhora é muito boa mas eu vou embora. - Seu olhar traiu a palavra de agradecimento que balbuciou. Logo já havia se virado de sopetão e desaparecido entre o fluxo de pessoas que passava por alí. O centro da cidade era um labirinto, apinhado de gente estranha uma à outra. Muitas pessoas andavam ligeiras, sem direção.
- Volta aqui, menino! Você vai ficar doente desse jeito! – Mas ele sumiu. As pessoas cruzavam pela calçada, para não se molharem, desviando-se uma das outras com seus guarda-chuvas abertos, em um estranho balé. Outras, sem guarda-chuvas, disputavam o lugar com as que tinham, embaixo da marquize. Nenhuma se importou com ela ou o menino de rua.
A mulher se levantou, passou a mão pelos cabelos molhados, a mão pelo vestido ensopado e tentou se recompor. Este menino já devia ter passado por tantas chuvas em sua curta vida, que saberia se cuidar, ela pensou. E a visão da filha ardendo em febre, com os olhos fundos, voltou à mente dela, com agressividade. Ela se sentiu ainda pior, como se levasse um soco na cabeça. “Meu Deus, me ajuda! Me ajuda a salvar a minha filha! Alguém me ajude, por favor, me ajude!”. Pensava que iria enlouquecer. “Mas eu quero ajudar você, só precisa dizer sim”. Apesar de tudo, tentava raciocinar, vencendo a loucura. Seus pensamentos confusos a impediam de ir para frente ou para trás, ela deixou-se alheia por uma eternidade.
Por fim, venceu a resistência das pessoas que cruzavam a calçada, esbarrando nela e atravessou a rua com o sinal já fechado. Não importava a chuva, o frio, não importava nada. Sua pequena menina estava morrendo sozinha em casa e não havia mais nada que ela pudesse fazer. “Tem que ter uma saída. Uma saída... E se eu aceitar a ajuda dele? Que mal teria, é pela minha filha!”. Abotoou alguns botões do vestido que se abriram com a ventania. “Não! Eu não posso! Não posso! Eu acho que vou enlouquecer!”. Uma mulher estacou a sua frente e olhou de forma estranha. Começou a gargalhar. Ela não se importou, seu desespero a impedia de reagir. O acompanhante da mulher gracejou algo de volta em seu ouvido. “Eu devo estar parecendo uma louca, desse jeito.”
Quando chegou na calçada final, depois de ter cruzado várias ruas, apoiou-se na árvore por sentir-se muita tonta com tudo aquilo, a violência dos pensamentos e das imagens que afluíam a sua mente, a confusão das ruas do centro da cidade. As imagens do passado recente, da filha nascendo, tudo vinha a sua mente em borbotão. Procurou pelo ponto de ôninus mais próximo e abrigou-se da chuva num canto, atrás de um homem idoso que fumava.
Ela ficara grávida cedo como tantas moças daquele lugar. Na pequena cidade onde nasceu e cresceu, aquilo era comum. A maledicência popular ingenuamente esquecia cada caso, logo que surgia uma notícia mais fresca. A verdade é que ninguém se importava de fato, as meninas pareciam ficar grávidas cada vez mais jovens. Mas seus pais, muito idosos, sentiram-se traídos e para piorar as coisas, ela se negava a dizer quem a engravidara. Acabou sendo expulsa de casa porque se negou a abortar. Sentia que não tinha este direito, a vida reclamava sua cumplicidade. Tinha fé que o pai do bebê lhe daria o apoio que ela precisava. Mas o pai da criança, renegada ainda no ventre, era outra criança. Ainda mais que a menina que se preparava para ser mãe. Outro menino, diante das conseqüências do ato prazeirozo às escondidas traria depois. O rapaz, primeiro negou tudo para os próprios pais, depois abandonou a mulher grávida à própria sorte. A esta, só restou ir para a cidade grande, que não era assim tão longe, para tentar trabalhar e ter seu filho.
Logo que chegou na rodoviária imensa, conseguiu pegar um ônibus qualquer, porque ela não tinha destino e tampouco conhecia alguém. Depois de vagar pelas ruas, fugindo dos homens estranhos que às vezes olhavam para ela e a chamavam, acabou sentada numa calçada. Igual aquele menino de rua. As pessoas também passavam absortas em suas rotinas. Ensimesmadas, mas algumas riam alto. Voltavam de seus trabalhos. Parecia que o mundo girava a sua volta e que riam dela. “Uma garota estúpida que não soube evitar ficar grávida”. E o cansaço fazia não ter mais muita diferença ou sentir-se desprezada. Finalmente uma senhora já bem idosa, dirigiu-se a ela. Perguntou o que ela sentia, onde estava seus pais e se estava com fome. Depois de ouvir sua curta estória, deu de ombros, perguntou se ela podia fazer serviços de limpeza. A menina assentiu com o rosto molhado de lágrimas e sorriu. A velha a levou para a própria casa noutro subúrbio próximo daquele.
Uma afeiçoou-se a outra, cansadas que estavam de lutar contra a solidão. O serviço da menina, compensava e assim apresentou-se útil, arrastando sua barriga já imensa por todos os lados. Sua filha nasceu prematura, pequena, parecia que não ia sobreviver. Ela chorava e ria ao mesmo tempo com o milagre da vida. Aquela “coisinha” saíra de seu ventre e mesmo estando lambuzada de sangue lhe parecia tão bonita. Nasceu na casa mesmo, só ela e a velha senhora assistiram ao parto, porque não tiveram tempo de correr ao hospital público. Era no mês de janeiro e caia uma tempestade de verão. A velha que a acolheu por seus serviços, depois por pena, que já se afeiçoara demais à moça e ao bebê, disse experiente:
- Calma minha filha. Vamos limpar a menina, enrolar o bebê em um cobertor. Você precisa dormir um pouco. Antes precisa dar de mamar à neném. Não chora, minha filha. É assim mesmo. – E se afastou prestativa, arrastando os chinelos.
A voz da velha soou tão clara na sua cabeça que ela se assustou. “É assim mesmo, minha filha.” Ao mesmo tempo um carro freiou bruscamente a sua frente e começou uma arenga entre os motoristas. O sinal fechou e logo uma algazarra de buzinas. Sentiu-se obrigada a continuar andando até outro ponto de ônibus, tentando parar de pensar. “Preciso voltar pra casa logo”. Rememorou a manhã, madrugou na Santa Casa de Misericórdia e esperou pacientemente. Estava aflita, afinal não teve boas notícias naquele dia. A fila de espera para transplantes era longa. Teria de trazer a filha para mais uma sessão de hemodiálise. Não conseguiu os remédios tão preciosos que traria um pouco menos de sofrimento à sua filha. O que tinha de mais importante estava morrendo aos poucos desde que souberam da estranha enfermidade. “Ah, doença maldita que envenena o sangue da minha filhinha! Agora eu estou sozinha!”. Perdeu-se em novo devaneio enquanto caminhava, arrastando-se sobre as pedras lisas da calçada.
Enfim, chegou a outro ponto de ônibus e o burburinho da rua começou a desvanecer. As pessoas entravam nos estabelecimentos e a hora de almoço já havia acabado. Continuou absorta em seus pensamentos. O destino novamente trouxe outra decisão à vida dela. E agora eram duas, sentiu que carregava um peso muito grande.
Lembrou-se de quando a menina nasceu. E de quando aquela mulher, que já a tratava como filha, veio a morrer de velhice, quase um ano depois. Não tinha herdeiros conhecidos, de modo que o casebre em que vivia acabou sendo dela. Ninguém nunca apareceu para reclamar a posse daquele pedaço de chão. Tão jovem e já dona de uma casinha para cuidar. A filha crescia, muito quieta, mas com grandes olhos inquisidores, que pareciam querer decifrar tudo e devorar o mundo. A mãe aprendeu a ler em seus olhos quando sentia fome, prazer, dor, vontade de dormir. Parecia sempre muito branca, de uma brancura anêmica, mas ela se acostumou com aquilo. Sentia que aquele ser no seu regaço moreno completava a existência dela. Era sua filha, o que bastava. A criança teve força pra nascer e sobreviveria igual a ela.
Foi no posto de saúde, mas precisou passar a madrugada anterior à consulta na grande fila que se formou. E o médico apenas olhou a garganta do bebê com uma espátula, pesou numa balança. Pediu exames, que não puderam ser feitos no parto. Depois de examinar os disse que bebê sofria de anemia. Perguntou se amamentava a filha no peito e indicou que fizesse outros exames. A criança parecia definhar, mais que crescer. Tudo foi muito custoso, mas nada de ruim parecia pesar sobre aquela cabecinha inocente nos seus braços. O mundo pareceu um inferno quando soube que a filha precisava receber um novo rim.
A mulher venceu o próprio orgulho e procurou ter contato os pais, através dos vizinhos, na cidade natal. Por carta e enfim por telefone. Soube então que morreram uns dois anos depois que partira, de doença desconhecida, e mais não sabiam dizer. Também não deixaram nada de valor. Soube que antes de morrerem a maldiziam a quem quisesse ouvir, que não tinham mais nenhuma filha. – “Aquela ingrata morreu pra nós”. Não teve tempo para sofrer pela notícia tardia. Ela se acostumou a tomar suas próprias decisões. Seguia plantando e vendendo os poucos legumes que ela mesma cultivava no quintal da casa que morava. Com isto conseguia o pouco que necessitava para que as duas vivessem. Os remédios eram caros, as passagens de ônibus para irem ao hospital, consumia grande parte do que ganhava.
Quando aquele homem estranho entrou na sua vida ela não sabia precisar. Ele surgiu e ela só constatou isto algum tempo depois do que aconteceu. Agora estava nas mãos dele. Se lembrava sim de que um dia ele a abordou na volta pra casa. Há menos de um ano. Mas ela sentia que já o conhecia há muito tempo. Onde ela havia visto olhos tão profundos? Ele parecia invadir sua mente, seu coração. Naquela tarde, ela estava preocupada com a filha de três anos, sozinha em casa. A menina ficava presa em um pequeno cercado para não se machucar. O homem de terno em sua frente era atraente e ela duvidou que se dirigisse a ela. Seu sorriso perfeito reluzia, era um homem bonito decerto. Mas ela evitou olhar demais nos olhos dele. Seus dentes, perfeitos como as pérolas de um colar falso que sua mãe tinha que a deixava hipnotizada. Daí em diante, ele não parou de segui-la.
Um dia, após ter passado no final da tarde na igreja para rezar um pouco, porque ela não se esquecera de Deus. Ainda que freqüentemente pensasse que Ele é que havia se esquecido dela. O estranho a abordou diretamente logo da primeira vez. E propôs o impossível. O homem ainda perguntou se ela queria dinheiro, o que recusou veementemente. Ofereceu então sua proteção, o que ela quisesse. Havia algo estranho naquele olhar macio feito veludo que a fazia sentir arrepios. Mas era um homem, o último de sua vida não chegara a ser um de verdade, mas lhe dera uma filha. Ela teve mais medo deste do que desejo e uma certeza estranha que não devia deixá-lo chegar muito perto. Inegavelmente sentia admiração por aquele homem misterioso. “Parecia santo de igreja”. Ela o via cada vez menos, mas sempre aparecia, parecia saber tudo sobre a vida dela e da filha e ela nada sabia ele. Cobrava uma reposta sempre que se viam a sós.
Até um encontro naquele botequim, há pouco tempo. “Sua vida nunca será a mesma. Vai ser melhor, acredite em mim”. Sentiu certo pavor por se lembrar tão claramente deste dia.
No ponto do ônibus uma fila de quatro ou cinco pessoas que tentavam se proteger do vento e da chuva debaixo de seus guarda-chuvas e sombrinhas. O calor dos corpos juntos gerava vapor dentro da condução. Ela pouco se importava com aquilo, queria pegar o ônibus e chegar em casa para estar com a filha. Quando o ônibus chegou e estacionou ela mal conseguia se conter de ansiedade para subir e fugir do centro da cidade.
Pagou a passagem com moedas, as poucas que ainda restavam. A trocadora olhava resignada enquanto a moça contava as moedas com dificuldade. Afinal se acomodou em um assento no final do ônibus, na janela. As casa antigas ao lado dos prédios enormes cheios de espelhos e metal brilhante já não eram tão belos quanto pareceram da primeira vez que os viu. Agora eram gigantes que não se importavam com sua dor. A dor que ela já aprendera a suportar, senão teria ficado louca. “Minha filha precisa de mim”. O olhar dela se voltou para cima e a cor de chumbo do céu refletia em tudo. A chuva não ia parar tão cedo. “Quanto tempo faz que começou este calvário de ter de levar a filha ao hospital para fazer a hemodiálise dia sim, dia não? Quatro anos?” “É... mais ou menos isto.” Quando aqueles exames revelaram que a filha era hemofílica. O mundo insistia desabar sobre a cabeça dela. “O pior dia da minha vida, nem quando fui expulsa de casa...” O rosto da médica lhe explicando o que era a doença era inexpressivo. A única chance que a filha teria de sobreviver era um transplante. Aquela palavra começou a ser tão importante quantos os nomes mais sagrados que conhecia. Ela o repetia como uma prece. A cada ida ao hospital ela sentia um misto de esperança renovadas com um medo indefinido: “Até quando ela conseguiria manter a filha forte para receber um órgão novo?”. Os médicos davam esperança quando a viam por demais desanimada, mas tentavam mantê-la dentro da dura realidade. Às vezes se censurava, desejando que alguém morresse para que salvasse sua filha. Ela sabia que um transplante era tão fácil quanto encontrar uma agulha em um palheiro. “Conforme foi com a dona que me deu pouso”. Até na televisão ela já tinha aparecido, suplicando por alguém que a salvasse, que avisasse ao hospital quando houvesse um doador compatível com a sua filha.
Mas o tempo foi passou. Ela já não tinha tanta esperança. Naquela corrida injusta entre ela e o próprio tempo, o destino estava vencendo. Lutava por instinto.
O ônibus bufou como um monstro enorme. Ela desviou o olhar perdido através da janela e conseguiu ver pelo espelho retrovisor do ônibus o rosto tenso e irado do motorista. O õnibus cercado por
outros, os carros, pessoas, um inferno de veículos. O motorista gritava imprecações, ao que a trocadora só sacudia o rosto cansado, confirmando o que o homem dizia sem prestar atenção.
Aquele olhar do motorista lembrou de novo o olhar daquele homem que disse ser a única salvação dela e da filha. “Mas isto eu não quero. Não, meu Deus, como poderei viver desta forma? Tem que ter outra saída!” Começou a bater os dentes, com frio. “É só dizer sim, não vai doer nada. Eu prometo”. As palavras dele invadiam seu pensamento, pareciam ter vida própria. “Acho que estou ficando louca mesmo”. Ela não soubera ainda nem o nome dele, pusera-se em guarda porque pensava que sabia bem o que ele queria. Só lhe aparecia em lugares ermos, quando voltava tarde para casa, após a venda de seus legumes, nas ruas. De qualquer forma, as poucas pessoas que passavam nunca olhava para eles de forma mais detida. Ela sempre se sentia invisível aos olhos de todos.
Um dia ele a chamou para conversar em um bar perto da casa. Ela se negou, parecia imoral aceitar aquele convite. Era de noite, ela estava muito cansada, não tinha conseguido vender nada. Ele sugeriu que ela comesse um sanduiche enquanto ele iria falar-lhe. Ela precisava conseguir uma creche para a filha e não sabia a quem pedir. Quem sabe, ele pudesse ajudar nisto. Lembrara-se do político sorridente com que quem falara e que ficou apenas na promessa. Ganhou as eleições e esqueceu-se rápido do caso dela. O sorriso do homem a sua frente parecia a única coisa acolhedora naquela cidade cheia de fuligem. Naquelas ruas onde só havia cimento e asfalto. Ela perguntou o nome dele e ele disse que não importava. Seus olhos suplicaram alguma palavra de confiança.
- Eu me chamo Augusto, Isabel.
- Como você já sabia do meu nome antes de falar comigo? – Poucos a conheciam alí. Ela não se filiara ao grupo de nenhuma igreja, ainda que fôsse lá o lugar onde conseguia uma bolsa parca que garantia um sustento precário às duas mulheres. Não se sentia a vontade nos grupos de oração.
- Isso não importa, Isabel. Eu sei tudo sobre você. Mas se você quer saber, me disseram.
- É... – Ela assentiu sem muita convicção. Os olhos deles eram ferozes, mas tinham um magnetismo que a fazia se lembrar do pai.
Até mesmo quando deixavam de ser ternos e tornavam-se irados quando bebia. Mesmo assim, ainda tentava ser carinhoso com ela enquanto o colocava na cama e tirava seus sapatos. A mãe, alheia, ficava na cozinha cozinhando o que havia para o marido levar na marmita para a fábrica no dia seguinte. O cabelo daquele homem a sua frente era brilhante, de um gel pastoso, parecia aqueles manequins das vitrines do centro da cidade, envergando ternos e camisas distintas. “Era um homem de mentira, tão perfeito que era”. Seus lábios eram bem desenhados e finos. Não paravam de sorrir. As palavras dele pareciam a cantinela do padre na missa de sua cidade. A diferença era que ela compreendia cada uma das palavras que ele falava, em tom baixo e compassado. Olhou para si mesma no reflexo da mesa e sentiu-se jovem. O cabelo desgrenhado, mas preso mostravam seu rosto liso e maduro. Ainda conservava o viço natural que a juventude dota os seres em geral.
– O que o senhor quer de mim? Eu sou uma moça de respeito. Páre de me seguir ou eu chamo a polícia, viu?
- Tenho uma proposta. Não tenha medo, eu não vou fazer nada que não queira. Você pode ter tudo o que quiser se disser que sim. E mais, você pode salvar a sua filha da morte. Eu posso dar a minha vida para a sua filha. E para você também, se me aceitar.
- Eu não sei – “Eu não sei o que dizer” – Ela pensava as piores coisas que aquele homem extranho poderia lhe propor. Mas por fim roquejou: - O que quer de mim? Mas sentiu medo e se levantou. Conseguiu um pouco da segurança que aprendeu a Ter para lidar com a vida.
- O que o senhor quer? Diz tudo, de uma vez e me deixa em paz! –“Teria sido melhor Ter fugido dalí”. Ele segurou a mão dela e disse:
- Eu penso que você sempre soube o que eu quero desde a primeira vez que me viu. Mas eu vou dizer a você. – Chamou-a com um gesto de mão, por cima da mesa. Um gesto breve e ela atendeu. Ele tinha cheiro de coisa guardada, hesitou, mas cedeu com curiosidade. Aquele encanto já havia criado raízes. Ele aproximou a boca de seu ouvido e lhe disse algo que deixou-a inerte. Ele não podia estar falando sério. O hálito dele era quente, mas suas orelhas doíam de frio.
- O senhor está louco! Não pode querer! Você é um louco!
- Isabel, eu só quero o seu bem. Você só precisa dar o que eu desejo. Você acha que eu estou mentindo?
- O senhor quer é abusar da mim! Saiba que eu... Não... Isso é verdade? Mas isso não pode ser, não pode! Isso não existe.
- E o que você acha que existe? Seus pais que a expulsaram de casa, a fome que passou, a doença incurável da sua filha? Ela pode morrer hoje, só depende de você mas parece que seu egoísmo é maior que o seu amor. Não vou obrigá-la a nada. Mas quero esta resposta amanhã a noite. Pense bem, não desperdice a única chance da sua vida.
– Eu não sei se isto vai ser o melhor para a minha filha, Seu Augusto. Eu tenho medo.
- Medo de quê, Isabel? Seu namorado, seus pais já se foram. Você mesma já me contou que não tem ninguém. Nem a velha que tirou você da rua. Sou a sua salvação. - E o olhar dele a envolveu numa atmosfera de intimidade. Ela ouvia tudo e bebia goles do refrigerante entre uma palavra e outra. Ele não bebeu, nem comeu nada. Parecia que nada importava além da presença dela. Só insistia em conversar e suplicar que cedesse a sua proposta.
- Eu... O senhor está enganado comigo! Eu sou temente a Deus. – Olhou nos olhos dele e viu a verdade. Aqueles olhos negros, parecia seu pesadelo de infância.
- E com isso você salvará a sua filha, Isabel. Eu peço tão pouco, pense na sua filha se não quer nada para si.
- Não! Não! – Levantou sentindo pavor e correu pedindo a Deus que nunca mais aquele homem aparecesse na frente dela. Melhor se acabar trabalhando para sobreviver e lutar pela vida da filha como sempre fez.
A freiada brusca do ônibus fez com ela batessa com a testa no banco da frente. Abriu um pequeno corte e um pouco de sangue escorreu. A dor a despertou de forma brusca. Mas não tinha importância ver o filete de sangue na ponta dos dedos. Teria de dar uma resposta àquele homem, naquela noite. Quem poderia ajudá-la naquele deserto que a vida subitamente se tornou. Levantou-se, apertou o botão da campainha do ônibus e se encaminhou para a porta de descida.
Caminhou lentamente pelas ruas, com medo de chegar em casa e a filha ter morrido. A menina estava cada vez mais fraca. Voltava melhor do hospital, brincava, estudava, mas em um dia voltava a não ter força para se levantar da cama. Mal conseguia frequentar a
escola. “Deus não era justo!”. E ainda não sabia aquele homem era o melhor. “É só deixar a porta aberta”.
Quando entrou em casa, ouviu a voz débil da filha, no quarto:
-Mamãe, você voltou cedo.
-Sim, filha. Fique na cama, eu vou aí, ver você.
Quando viu a filha tão magra, sentiu vontade de chorar. Queria berrar, por para fora toda a dor que estilhaçava seu peito. Queria bater nas paredes, quebrar tudo dentro da casa. Mas limitou-se a sorrir trêmula e a abraçar a menina, com lágrimas nos olhos.
- Filha, mamãe te ama muito.
- Já conseguiu um doador, mãe?
- Ainda não. Mas eu sei que vão conseguir. Se não... – Calou-se com medo de falar demais. – Se não, mamãe sabe o que fazer para não deixar que nada de mal te aconteça, meu amor.
- Eu gosto muito de você, mãe.
- Eu vou fazer uma sopa para você comer. – Levantou sem forças, deixou os braços magros da menina pendidos na cama.
Enquanto preparava o que ainda sobrou do dia anterior, porque já não tinha mais tempo para plantar e nem para vender os legumes que plantava. “Você só precisa dizer que sim. Vamos, diga sim.” Lavou a louça. “Me deixa em paz!” Tentou clarear os pensamentos. “Filha, aconteça o que acontecer, saiba que eu amo você mais que tudo no mundo”. Serviu a comida à filha, falou o que lhe veio à cabeça e depois sentou na cadeira da sala. Já estava escuro e ela deixou-se cair vencida pelo sono.
Já estava escuro, às seis da noite. Pela primeira vez pensou que melhor seria aceitar o que Augusto oferecia a ela, do que levar aquela vida que nem um animal de rua merecia. “Você venceu, Augusto, serei sua.” No sonho que teve, correu para abraçar o homem que a seguia insistentemente e dizia que sim, como se estivesse embriagada. Tudo ficava escuro para recomeçar do mesmo ponto. Devia estar com febre. Chegou a pensar que estava amando novamente. Sentiu calafrios e abriu os olhos já de noite. Tinha dores no corpo todo, suava frio. Mas foi até o quarto ver a
filha, que dormia como um anjo. Deitou-se na cama, ao lado da filha e voltou a dormir. Desta vez sentiu-se anesteziada e acolhida no colchão duro. Os pesadelos povoaram sua cabeça novamente.
No outro dia, acordou de um sobressalto. Ainda não tinha amanhecido completamente. Passou a mão no rosto, nos cabelos... estava tudo feito. Agora não podia mais voltar atrás. Viu a filha muito pálida dormindo ao lado, mas parecia bem. Seu ventre baixava e levantava à medida de respirava. Foi até o espelho com curiosidade. Sentiu que nunca mais seria a mesma. Seus olhos brilhantes se destacavam no rosto cansado. Lembro-se da mãe na mocidade e no quanto se parecia com ela. Quando levantou os cabelos soltos com as mãos, ficou horrorizada com o que viu. Correu até o quarto da filha, com medo do que ia ver. Virou cuidadosamente o rosto da filha para o lado, ela gemeu um pouco dormindo. Ao levantar os cabelos da menina viu as duas perfurações no pescoço dela, tal qual no seu.
Fôsse o que fôsse, a escolha tinha sido feita. Agora elas viveriam em um novo mundo onde não haveria mais dor nem tristeza.
Fim
Nenhum comentário:
Postar um comentário