Um
deles ordenou, Logo o canoeiro chega. O que acordou fingiu não ter ouvido nada
e recostou a cabeça num terceiro. Você não vem? Tenho sono. Eles me cansam com
seus gemidos. Não sei o que faço que não te pego. Porque doeria em você mesmo.
O que mudou de ontem pra hoje? Nada. Nada muda, é isso. Vai morrer sem comer se
não sair desse lugar. Você quer dizer morreremos. Pouco me importa. Daqui não
saio. Comer não vai me fazer falta.
Nesse
impasse ficamos. Era escuro no lugar onde sempre era escuro, o que havia em
maior quantidade que isso eram os gritos e o som das águas de tempos em tempos.
Foi sempre desse jeito mal algo mudou. Ficou e não saiu do lugar.
Um
olhou para trás temeroso que o vissem parado. Voltou a cabeça pra frente ao que
outro cheirou a orelha dele. Havia um que estava alerta. Eram três cabeças
pensantes, três vontades diferentes para apenas quatro patas e um só corpo. As
cabeças ficaram paradas e olhava uma para as outras. A primeira que se
manifestou, rosnou.
Não
tenho medo dos seus dentes. E você? Eu o quê? A outra cheirava o rabo. O que
fazer quando a vontade diverge e quem pensava como um reclama sua vontade
própria além de brigar ou se calar de propósito. Uma mordeu uma pata do lado
extremo. O que estava desanimado ganiu. Não dói em você? Dói. Mas é o meu
trabalho. Vocês só sabem brigar agora. Doeu em mim também. Não obedeço a você,
só ao chefe. O mesmo que vai castigar a todos nós.
Você
sabe quem eu sou? Se você não sabe, não me pergunte. Cada um deveria saber de
si próprio. Não é o que parece. Foi você quem começou tudo e agora se desdiz.
Não, só respondi a sua pergunta seu hipócrita. E você um mísero cíinico.
Perguntei primeiro. Você sabe quem é? Também não sei, pensava que a gente fosse
um.
Nada
de se estranhar assim se os cães de rua e os de boa família latem entre si e se
entendem tanto quanto o leitor entende essas palavras. Os humanos têm suas
línguas, os animais também, não precisam de palavras. Só de quem as traduzam.
Como um cão dotado de três cabeças não iria se entender?
O
canoeiro chegou mas não houve quem recebê-lo. Os latidos e rosnados encobriam
os gritos, gemidos e imprecações das sombras ocupantes da barca. Caronte nunca
disse uma palavra, não era sua obrigação. Por uma moeda realizava o transporte
sem volta, nem mais, nem menos. O maldito cão nada de vir à margem. Algumas
sombras afoitas caíam no lodo da água pedindo socorro. O dono do remo
desembarcou-as e partiu.
Não
fosse o instinto como três cabeças pensantes teriam desempenhado suas funções
de guarda e guia até ali? Só sabemos que uma chegou à conclusão que pensava,
logo existia. As outras duas aprenderam rápido. De onde estavam não saíram. Uma
só cabeça pensasse o mesmo e corresse atrás do próprio rabo.
A
segunda mordida tirou sangue. Arrependeu-se entretanto não desistiu. A terceira
já esperava o inevitável e pendeu para o chão. Duas delas vociferavam entre si.
Você nunca serve pra nada, o cabeça pensante sempre fui eu. Engano seu, se com
minha boca também enchi sua barriga. Também comi, enchi a nossa barriga e nada
cobrei. Usou também meus olhos para se guiar quando virou sua cabeça noutra
direção. Uma olhava as outras duas por baixo, desiludida. Por que não acabam
logo com isso. Você não diz nada? O corpo também te pertence. Qual parte me
pertence? As patas dianteiras ou as traseiras? Deixa esse aí, nunca soube o que
queria.
Se
tivéssemos uma fêmea, de quem seria? Dos três, está claro. É seu interesse que
te move. Nunca precisei de ninguém além de mim. Retrucou a do meio. Eu quero
ficar longe de vocês! Só o abate de duas cabeças traria o equilíbrio de novo.
Outro impasse, quem decidir qual cabeça rolar. Um franco combate poderia causar
ferimentos e uma hemorragia que compromoteria todo o corpanzil daquele animal.
De
onde veio a idéia genial de quem criou esse xifópago canino. Deuses criam o que
lhe interessam somente para fazer o que lhes cumpram. Até a natureza precisou
de muitos experimentos para chegar a formas perfeitas embora erros fossem
inevitáveis e por descuido mínimo possam ocorrer novamente. O que resta no
mundo natural é logo transformado em outras coisas quando abandonadas de vida.
A noite não deixava o escuro dissipar e nem as três cabeças chegar a algum
lugar. As vontades impeliam o corpo para três locais diferentes e na tensão
nada cooperadora enrijeceu.
A
barca foi e voltou por eternidades, as almas desembarcavam e iam aonde queriam.
Algumas aceitavam a acolhida da margem próximo daquele cão imóvel. Algumas,
assustadas a princípio, perceberam que ficar próximo daquele animal imóvel
afastavam outras mais afoitas. Essas descobriram que comer era dispensável na
falta de um consenso. Quanto mais se falavam menos se entendiam. Quanto mais
caladas menos se movia.
Como
seres mitológicos não morrem nunca e só se alimentam do que pensam a respeito
deles, naquela margem ainda estarão se um dia eu passar por lá.
11 de Dezembro de
2011
Fim
Nenhum comentário:
Postar um comentário