sexta-feira, 14 de junho de 2013

Um dia

       Acteón era um homem valoroso, caçador de pontaria estraordinária. Admirado por seus iguais, querido por todos. Honrava os deuses, a cidade, a família. Entretanto permanecia só. Suas atividades de caça ocupavam todo o seu tempo e a convivência com seus amigos também caçadores era satisfatória e suficiente. Um dia voltava para casa, gabando-se de sua presa, saboreava os elogios de seus companheiros.
      Entre um momento e outro sentiu sede e calor. Foi ao lago na floresta onde caçava, para afugentar o calor e alguma idéia que embaciasse a glória do seu feito. Ao afastar alguns galhos viu o improvável: uma mulher nua banhava-se nas águas do lago ajudada por outras, também nuas. Aquela que estava entre elas lhe era alguém que já ocupava um lugar na vida dele. Ficou maravilhado com aquela visão que parecia a celebração de um sacerdócio, uma libação no templo de sua deusa. Por surpresa a reconheceu, era a própria: Ártemis, aquela de sua devoção que se desnudava na água, impoluta. Quis voltar mas seus pés não lhe obedeceram. Sua visão comandava seus pensamentos e eles, o corpo dele. Suspirou extasiado sem ter noção do que fazia.
     A deusa surpreendeu-o naquele ato obsceno para um deus. Um mortal ousava vê-la sem reverências, sem reservas. Seu olhar irado atingiu àquelas que a banhavam que prontamente cobriram-na com seus próprios corpos. A estatura da deusa ainda deixava seu belo busto à mostra. Inquiriu Acteón tamanha ousadia do alto de seu tempo imensurável ainda que seus pés não tocassem o fundo do lago. Ele desculpou-se, seus olhos molhados já pediam perdão pelo que fazia, declarou sua devoção irrecôndita à deusa. No entanto não se moveu, não deixou de vê-la, não conseguia abandonar o que a sorte lhe deu, um prêmio pelo qual pagaria bastante caro.
Acteón sentiu seu corpo amolgar-se como uma bexiga de um animal morto, assumindo formas, criando partes, virando outro. Quis maldizer-se mas viu seres semelhantes ao que se transformava investindo contra ele. Fechou os olhos.
Os olhos do caçador se abriram na escuridão do bosque. Aves da noite piavam e estalos a que já estava acostumado deixaram-no atemorizado. Lembrava-se vagamente de uma visão, de um sonho... Tateou o caminho de volta à cidade e relegou aquele momento à escuridão do pensamento.
     Acteón permanecia o que fora, adorado pelos seus, exímio caçador, homem de dotes adoráveis exceto que agora achava-se partido. Queria mais que o prazer de abater a caça, prepará-la, separando primeiro o que cabia aos deuses e dividir a iguaria com os seus. Olhava as pessoas a sua volta e não encontrava o que procurava.
Um dia viu uma moça: cabelos longos, face desenhada, olhos mornos e encontrou o que buscava. Ela também viu nele a resposta que pedira aos deuses. Uniram-se num himeneu infinito. Acteón penetrou no corpo dela, na alma, nos pensamentos.
     Achou que tinha descoberto a resposta do estar vivo e permaneceu quieto por algum tempo. Voltando da caça sentiu que havia espinhos nas palavras que boiavam no pensamento dele. Uma só certeza se divisou: sentiu só novamente. Não voltou para casa porque encontrou outra mulher no seu caminho e a ela se entregou. Digo que se entregou porque Acteón achava que era a mulher que se entregava, o homem só possuía. Ardeu feito tocha até apagar. Quando voltou para casa não reconhecia mais sua própria mulher mas afeiçoou-se ao seu corpo por hábito. No rosto dela por algumas frações de tempo via a mulher perfeita que logo desaparecia sem deixar traços na memória. Esta dúvida aferroava sua vida, sentia um pedaço de suas setas perdido no corpo dele.
     Outras mulheres se entregaram a ele. Ele ao contrário sacrificava-se a cada vez que seu corpo se unia à mulher que escolhia, na certeza que desta forma ainda encontraria o que buscava. Largou enfim o que, dentre outras coisas, sustenta um homem em pé, a ilusão de saber-se. Com ela foi a esperança, a vontade. Foi o ar e fugiu o desejo. Acteón secava a céu aberto e ninguém ousava perguntar o que lhe passava. O homem condenou-se proscrito à presença de quem estivesse com ele. Entregou-se por fim a Baco da forma mais desonrosa que um mortal poderia fazê-lo.
      Um dia voltou ao bosque para ir ao lago de outrora sem lembrar-se mais do que aconteceu. Olhou na espelho da água um homem com cara de pergunta, semblante de nada. Pediu ajuda a deusa que tão bem guiava a sua flecha ao cervo que caçava. Implorou olhando a superfície do lago até seus olhos virarem a mesma água do lago plácido. "Só peço o conhecimento do que me falta." Ártemis surgiu de novo a sua frente, vestida, imponente, mulher. Perguntou se se lembrava dela e ele, iluminado por dentro novamente, disse que sim. Sentiu-se outro ou por outro, sentiu-se o mesmo que era antes de vê-la. “Que seja, minha deusa. Que seja a sua vontade.” A deusa sorriu pensando que compreendia bem todos aqueles que a adoravam.
     Acteón retorceu-se, arfou, bufou feito bicho. Grandes galhada aflorava de sua cabeça, seus braços e pernas tornavam-se membros semelhantes, afilados em cascos. A sua frente a deusa o olhava séria, considerava. Feito cervo trotou ao encontro de uma bando de animais que corriam na direção dele. Cavalgou o chão com mais violência para encontrar-se. No choque percebeu que não era bem recebido. Furavam seu couro com os chifres, rasgavam sua carne com os dentes, pisoteavam o que caía dele com seus casco até reduzi-lo a um monte de carne, um ínfimo de uma hecatombe. Antes de achar-se miserável pensou que assim agradava sua deusa oferecendo-lhe a própria carne. Por instantes a resposta fez presença nele e depois apagou.


2011


Fim


Nenhum comentário:

Postar um comentário