Acteón
era um homem valoroso, caçador de pontaria estraordinária. Admirado por seus
iguais, querido por todos. Honrava os deuses, a cidade, a família. Entretanto
permanecia só. Suas atividades de caça ocupavam todo o seu tempo e a
convivência com seus amigos também caçadores era satisfatória e suficiente. Um
dia voltava para casa, gabando-se de sua presa, saboreava os elogios de seus
companheiros.
Entre
um momento e outro sentiu sede e calor. Foi ao lago na floresta onde caçava,
para afugentar o calor e alguma idéia que embaciasse a glória do seu feito. Ao
afastar alguns galhos viu o improvável: uma mulher nua banhava-se nas águas do
lago ajudada por outras, também nuas. Aquela que estava entre elas lhe era
alguém que já ocupava um lugar na vida dele. Ficou maravilhado com aquela visão
que parecia a celebração de um sacerdócio, uma libação no templo de sua deusa.
Por surpresa a reconheceu, era a própria: Ártemis, aquela de sua devoção que se
desnudava na água, impoluta. Quis voltar mas seus pés não lhe obedeceram. Sua
visão comandava seus pensamentos e eles, o corpo dele. Suspirou extasiado sem
ter noção do que fazia.
A
deusa surpreendeu-o naquele ato obsceno para um deus. Um mortal ousava vê-la
sem reverências, sem reservas. Seu olhar irado atingiu àquelas que a banhavam
que prontamente cobriram-na com seus próprios corpos. A estatura da deusa ainda
deixava seu belo busto à mostra. Inquiriu Acteón tamanha ousadia do alto de seu
tempo imensurável ainda que seus pés não tocassem o fundo do lago. Ele desculpou-se,
seus olhos molhados já pediam perdão pelo que fazia, declarou sua devoção
irrecôndita à deusa. No entanto não se moveu, não deixou de vê-la, não
conseguia abandonar o que a sorte lhe deu, um prêmio pelo qual pagaria bastante
caro.
Acteón
sentiu seu corpo amolgar-se como uma bexiga de um animal morto, assumindo
formas, criando partes, virando outro. Quis maldizer-se mas viu seres
semelhantes ao que se transformava investindo contra ele. Fechou os olhos.
Os
olhos do caçador se abriram na escuridão do bosque. Aves da noite piavam e
estalos a que já estava acostumado deixaram-no atemorizado. Lembrava-se
vagamente de uma visão, de um sonho... Tateou o caminho de volta à cidade e
relegou aquele momento à escuridão do pensamento.
Acteón
permanecia o que fora, adorado pelos seus, exímio caçador, homem de dotes
adoráveis exceto que agora achava-se partido. Queria mais que o prazer de
abater a caça, prepará-la, separando primeiro o que cabia aos deuses e dividir
a iguaria com os seus. Olhava as pessoas a sua volta e não encontrava o que
procurava.
Um
dia viu uma moça: cabelos longos, face desenhada, olhos mornos e encontrou o
que buscava. Ela também viu nele a resposta que pedira aos deuses. Uniram-se
num himeneu infinito. Acteón penetrou no corpo dela, na alma, nos pensamentos.
Achou
que tinha descoberto a resposta do estar vivo e permaneceu quieto por algum
tempo. Voltando da caça sentiu que havia espinhos nas palavras que boiavam no
pensamento dele. Uma só certeza se divisou: sentiu só novamente. Não voltou para
casa porque encontrou outra mulher no seu caminho e a ela se entregou. Digo que
se entregou porque Acteón achava que era a mulher que se entregava, o homem só
possuía. Ardeu feito tocha até apagar. Quando voltou para casa não reconhecia
mais sua própria mulher mas afeiçoou-se ao seu corpo por hábito. No rosto dela
por algumas frações de tempo via a mulher perfeita que logo desaparecia sem
deixar traços na memória. Esta dúvida aferroava sua vida, sentia um pedaço de
suas setas perdido no corpo dele.
Outras
mulheres se entregaram a ele. Ele ao contrário sacrificava-se a cada vez que
seu corpo se unia à mulher que escolhia, na certeza que desta forma ainda
encontraria o que buscava. Largou enfim o que, dentre outras coisas, sustenta
um homem em pé, a ilusão de saber-se. Com ela foi a esperança, a vontade. Foi o
ar e fugiu o desejo. Acteón secava a céu aberto e ninguém ousava perguntar o
que lhe passava. O homem condenou-se proscrito à presença de quem estivesse com
ele. Entregou-se por fim a Baco da forma mais desonrosa que um mortal poderia
fazê-lo.
Um
dia voltou ao bosque para ir ao lago de outrora sem lembrar-se mais do que
aconteceu. Olhou na espelho da água um homem com cara de pergunta, semblante de
nada. Pediu ajuda a deusa que tão bem guiava a sua flecha ao cervo que caçava.
Implorou olhando a superfície do lago até seus olhos virarem a mesma água do
lago plácido. "Só peço o conhecimento do que me falta." Ártemis
surgiu de novo a sua frente, vestida, imponente, mulher. Perguntou se se lembrava
dela e ele, iluminado por dentro novamente, disse que sim. Sentiu-se outro ou
por outro, sentiu-se o mesmo que era antes de vê-la. “Que seja, minha deusa.
Que seja a sua vontade.” A deusa sorriu pensando que compreendia bem todos
aqueles que a adoravam.
Acteón
retorceu-se, arfou, bufou feito bicho. Grandes galhada aflorava de sua cabeça, seus
braços e pernas tornavam-se membros semelhantes, afilados em cascos. A sua
frente a deusa o olhava séria, considerava. Feito cervo trotou ao encontro de
uma bando de animais que corriam na direção dele. Cavalgou o chão com mais
violência para encontrar-se. No choque percebeu que não era bem recebido.
Furavam seu couro com os chifres, rasgavam sua carne com os dentes, pisoteavam
o que caía dele com seus casco até reduzi-lo a um monte de carne, um ínfimo de
uma hecatombe. Antes de achar-se miserável pensou que assim agradava sua deusa
oferecendo-lhe a própria carne. Por instantes a resposta fez presença nele e
depois apagou.
2011
Fim
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